
Sítio do Picapau Amarelo
Porteira rangente, pomar, terreiro de terra batida, canto do João-de-barro,
curral, por de sol., carro de boi rangendo. Comer, brincar, dormir, nada de
preocupações... Andar com Pedrinho, imaginar Narizinho, ouvir, rir, admirar
Emília. Os quitutes de Tia Anastácia, a bondade de Dona Benta. Correr pelo
Brasil, ficando no sítio mesmo, conhecer a gente da roça, desvendar vida antiga
e diferente, quando não havia televisão, videocassete e games. Espantem-se, não
havia celular! Poluição? Sentir o cheiro da terra, dos roçados, da chuva, o
perfume das flores e frutas, ouvir o mágico marulhar dos riachos, perto dos pés
de jabuticaba, ver bichos, pacas, tatus, capivaras, os passarinhos, escutar as
lendas dos pretos velhos...Vidas calmas, autênticas, tranquilas.
E, quando
resfriado, ouvia mamãe ler a sapiência do Visconde de Sabugosa, ou as tolices do
Marquês de Rabicó e tudo mudava. Esquecia as cataplasmas de mostarda e linhaça,
as tosses e espirros, passava a me sentir Pedrinho, caçando onças, ou de bodoque
nas mãos, todo coragem e saúde. E de longe sentindo uma ternura nascente,
indefinida ainda, por Narizinho... Crescendo, crescendo, cresceu. Moteiro Lobato
passa a ser um escritor e um nacionalista: Jeca Tatu, Cidades Mortas, petróleo.
Ficam as lembranças adormecidas, que depois, com as amolações e correrias, viram
uma saudade enorme das calças curtas, dando vontade de gritar alto, para ser
obedecido: _ Eu quero ser criança de novo. Mas não adianta!
E, sem ninguém
perceber, que não entenderiam, ir à biblioteca da filha, folhear as "Reinações
de Narizinho", ou " As Caçadas do Pedrinho ". Bater os ombros e recolocar os
livros no lugar, livros até que não foram tão apreciados, como esperava. É ser
adulto e deixar o Sítio do Picapau Amarelo, quem sabe, para algum neto. O pomar
então será seu, o terreiro grande, varrido com vassoura feita no próprio Sítio,
sabendo que o mundo dos adultos, às vezes, é pequeno e mesquinho, mesquinho e
triste, irremediavelmente triste. E, que bom, em 1951 tudo mudou de novo, porque
conheci Maria Helena. Explicando o que não precisava. No ano da graça, 1951,
conheci o amor e minha vida para sempre mudou e para muito melhor.
Pedro Franco
pdaf35@gmail.com

Revista Rio Total
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