Sheila Sacks
Na Casa de Freud
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Poucos sabem que nos
últimos dois anos um brasileiro presidiu a renomada instituição “Internacional
Psychoanalysis Association (IPA)”, fundada por Sigmund Freud, em 1910, com
sede em Londres. Gaúcho de Porto Alegre, Cláudio Laks Eizirik, 62 anos, é
médico-psicanalista e professor do Departamento de Psiquiatria e Medicina
Legal na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (foi também diretor da
Faculdade de Medicina da universidade). Autor de 4 livros e com mais de 100
artigos publicados em jornais, revistas e resenhas técnicas, ocupou a
presidência da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (1991) e da Federação
Psicanalítica da América Latina (1998), e também uma das vice-presidências da
IPA. Eleito para a presidência da referida Associação em 2005, Eizirik foi o
primeiro brasileiro a reinar na casa do mestre dos sonhos e das neuroses. A
organização, muito respeitada e influente - e que teve Carl Gustav Jung como
primeiro presidente -, regula o exercício da psicanálise no mundo e reúne
11.500 doutores de mais de 50 países.
Em outubro de 2006, como parte
das comemorações dos 150 anos do nascimento de Freud, Eizirik participou de um
painel de debates na ONU, cujo tema abordava a transmissão, através das
gerações, do ódio, da violência e da guerra. O brasileiro destacou a urgência
de uma ação dirigida às crianças e às famílias nas quais essa situação se
manifesta. “Melhorar as condições básicas de vida, saúde e educação por meio
de massivos investimentos nas áreas pobres do mundo é uma maneira concreta e
essencial de prevenir o ódio, a guerra e a violência”, assegurou. Mais adiante
ele citou a experiência da “Barenboim-Said Foundation”, onde, por intermédio
da música, crianças israelenses e palestinas aprendem a escutar umas às outras
e a tocar juntas (o projeto, concebido pelo pianista e maestro argentino
radicado em Israel, Daniel Barenboim, e pelo escritor e professor palestino
Edward Said, já falecido, iniciou-se em 1999 com a criação da orquestra
“West-Eastern Divan”, formada por músicos judeus e árabes).
Dirigindo-se a uma plateia composta de psicanalistas e representantes de
Organizações Não-Governamentais (ONGs) envolvidas com a preocupante questão da
disseminação da violência no planeta, Eizirik contou que, sob a sua gestão,
estavam sendo criadas novas Comissões na IPA voltadas para o estudo, a análise
e a apresentação de propostas visando a prevenção da transmissão do ódio, do
racismo e do preconceito, que deságuam, quase sempre, no anti-semitismo e no
terrorismo. “A contribuição psicanalítica para o problema ocorre de duas
maneiras. Primeiro, pelo tratamento de pacientes cuja transformação psíquica
produzirá também mudanças nas gerações que os sucederão. Segundo, participando
de atividades integradas e iniciativas nas quais se podem mostrar o quanto uma
escuta aberta pode corrigir percepções distorcidas e ampliar a habilidade de
tolerância e identificação com os outros.”
Trauma e envelhecimento
Por ocasião do 44º Congresso Internacional da IPA realizado no Rio de
Janeiro, em 2005, um outro assunto pautou o encontro e pôs na berlinda uma
palavrinha usada no dia-a-dia sem muito compromisso, mas que na psicanálise
tem o peso e o tamanho de um canhão: o trauma. O tema, com suas variantes, foi
dissecado durante quatro dias por destacados especialistas oriundos dos quatro
cantos do mundo. Tendo como cenário o mar e as areias de Copacabana, a questão
mereceu tratamento prioritário pela devastação que é capaz de produzir no ser
humano. Aproveitando a oportunidade, entrevistei Dr. Eizerik, abordando
justamente uma etapa da vida que não chega a resultar em um trauma, mas também
é capaz de provocar alguns padecimentos: o envelhecimento físico do ser
humano, esse bicho-papão que aterroriza homens e mulheres, sem distinção.
O trauma foi tema do recente congresso da IPA. A velhice é um tipo de
trauma? – Não. A velhice não é um trauma, é apenas mais uma etapa do ciclo
vital, com suas naturais perdas e ganhos, como as etapas anteriores.
A
população do planeta está envelhecendo. Como lidar com isso? – Há uma nova
camada da população, com novas necessidades de saúde, educação continuada,
lazer e formas de participação. Penso que os sistemas de saúde necessitam
ampliar seu espectro de atendimento aos velhos e que novas formas para ampliar
os espaços de participação sejam criadas ou desenvolvidas.
Na Europa,
famílias com grau mais elevado de educação, têm menos contato com os idosos. E
no Brasil? – Ainda há bastante contato, em muitas áreas do Brasil, em
especial as rurais e cidades menores. Nos grandes centros urbanos, a situação
da vida é semelhante em todos os países. Os avós, muitas vezes, têm uma
participação no cuidado aos netos, mas cada vez se observa mais a distância e
o isolamento. Além de haver a necessidade da família, é preciso reconhecer que
os mais jovens lutam por sua própria ascensão pessoal e profissional, e desta
forma cabe aos velhos buscar as sua próprias realizações e participação em
grupos recreativos, religiosos e de convivência.
Como os idosos
convivem com a sua própria imagem física? - Depende do grau de narcisismo,
por um lado, e dos cuidados com a saúde nos períodos precedentes. Uma pessoa
muito narcisista, ou seja, para quem a aparência é vital, a imagem que
apresenta é o mais importante. Ficar mais velha, com as alterações inevitáveis
que a idade traz, pode ser sentido como uma perda irreparável. E aí surgem os
exageros das cirurgias plásticas em busca de uma impossível eterna juventude.
Quanto aos cuidados prévios, quanto mais a pessoa for capaz de proteger a sua
saúde, praticar exercícios e manter uma atividade física até a velhice, melhor
será a sua relação com a sua própria imagem física e mental. O antigo ditado
latino de uma mente sadia em um corpo sadio continua revelando a sabedoria de
todos os tempos.
Qual a abordagem psicoterápica em relação às perdas e
ao luto nos idosos? - Esta é uma das áreas mais bem estudadas e
desenvolvidas da psicanálise e das psicoterapias e orientação analítica. É
possível abordar e elaborar as perdas e os lutos de forma eficaz nos idosos,
entendendo seus significados inconscientes, examinando as fantasias ou idéias
que a pessoa tem sobre o que causou tal perda, e estimulando saídas criativas
e reparadoras, através de novos desafios, relacionamentos e realizações.
Freud, aos 70 anos, considerou o corpo uma das fontes do mal-estar humano.
A psicanálise acredita em velhice feliz? – Naturalmente. É possível ser
feliz na velhice, e o próprio Freud foi um velho sadio e feliz, sob muitos
aspectos, apesar de ter enfrentado um câncer e várias cirurgias. Melanie
Klein, outra grande analista, afirmou que a velhice sadia ou feliz é possível
quando a gratidão por satisfações passadas se mantém, a inveja dos mais jovens
não predomina e o idoso é capaz de se identificar com o progresso e as
realizações de seus filhos e netos, desfrutá-las e sentir que a sua própria
vida continuará depois de sua morte, através deles.
Cuidar de netos faz
bem aos idosos? - Faz muito bem. Os avós são chamados de “pais com açúcar”,
pois não têm a responsabilidade de educar os netos, com os necessários
conflitos e limites. Costumam ter mais tempo e podem aproveitar e conviver com
mais calma do que no passado, com seus próprios filhos. É em geral uma bela
experiência que produz prazer, alegria e o sentimento de reviver, muitas vezes
melhor, as alegrias do desenvolvimento físico e mental de uma criança.
Viver em grupo, em instituições para idosos, é uma boa alternativa?
- É a
última e a pior, só aceitável quando as outras falharam. O ideal é que cada
idoso tenha a sua casa, sua autonomia, seus rendimentos, sua rede social. Se a
saúde física e mental declina, se surge a viuvez, se não há como viver com
algum filho, a alternativa da instituição geriátrica surge, e neste caso é
recomendável que haja um programa de atividades, saídas, visitas, cuidados
médicos, psicológicos e sociais e o estímulo ao interesse pelo mundo e pelas
pessoas.
Religião e Psicanálise
Como a psicanálise lida com a fé
religiosa? – A psicanálise respeita a fé religiosa e procura entender o seu
significado para cada pessoa, em seu contexto cultural e familiar. Ter uma
religião não significa ter um problema, a não ser quando a religião assume
aspectos patológicos, como no caso dos diferentes fundamentalismos. Ao mesmo
tempo, a psicanálise estuda as origens da fé religiosa, que se situam nas
relações infantis com pessoas poderosas, os pais, recriando uma vivência de
veneração aos grandes pais da infância, que tomam a forma de diferentes
divindades.
A tradição cultural judaica influenciou o trabalho de
Freud? – Sem dúvida. Embora não sendo religioso, o que é o caso da maior
parte dos psicanalistas, Freud sempre se considerou judeu e conhecia muito bem
a tradição cultural judaica. Essa tradição cultural, assim como o seu enorme
conhecimento da mitologia clássica greco-romana e da cultura e da ciência de
seu tempo, foram as bases de sua teorização, a partir do que observava ao
atender seus pacientes. O modo dialético de argumentação, a formulação de
perguntas para abordar problemas, um certo ceticismo irônico, o uso de
pequenas histórias ou parábolas, e uma particular forma de humor –
características da tradição cultural judaica -, estão presentes por toda a
obra de Freud.
Por que Freud escolheu Moisés e não Abraão para falar de
monoteísmo em seu livro? – Porque estava examinando uma questão particular
e dispunha de fontes históricas e arqueológicas ou literárias que tornavam
Moisés a figura mais atraente e enigmática por ter vivido entre duas culturas
semelhantes e antagônicas. Mas esta é apenas a minha hipótese para esta
pergunta. A verdadeira razão da escolha não se pode saber, pois o autor já não
tem como respondê-la.
A sociedade contemporânea atua na perda da
identidade cultural e religiosa das minorias, como no caso da judaica?
- Muito difícil de dizer, pois depende dos diferentes contextos. As minorias
sempre foram perseguidas, mas a judaica se mantém com impressionante
vitalidade, apesar de tudo. Mas, a globalização é inimiga das peculiaridades
específicas das minorias e das culturas, que devem ser mantidas e protegidas,
já que o sabor regional, cultural, é o verdadeiro sabor.
Viver no
exílio é uma opção ou uma vocação do povo judeu? - Nem uma, nem outra, mas
o resultado de um conjunto de circunstâncias históricas, políticas, econômicas
e sociais. O fato tem sido este, e o seu resultado é uma cultura particular, o
viver entre distintos mundos, entre fronteiras e identidades, que caracteriza
muitos judeus ao longo dos séculos.
Qual foi o maior trauma coletivo do
século XX e suas conseqüências? - Houve vários grandes traumas, como a
incapacidade da humanidade em usar os grandes progressos científicos e
tecnológicos para contrapor à barbárie, como a que ocorreu nas duas grandes
guerras mundiais, com o Holocausto e com milhões de vítimas de outras
nacionalidades: os massacres na África, a bomba atômica no Japão, as lutas
fundamentalistas, os massacres na Sérvia e tantos outros. Uma conseqüência é o
sentimento de perda em muitas ilusões, como uma visão romântica da capacidade
humana de progredir e aprender com a experiência.
O terrorismo já pode
ser considerado o trauma coletivo do século XXI? - Estamos no início do
século e o terrorismo é uma das pragas atuais. Mas não esqueçamos de outros
terrorismos, como a brutal desigualdade de renda e distribuição de bens, a
fome e a miséria, a violência de nossas metrópoles, as lutas étnicas, os
fanatismos religiosos. Mas nada disto nos autoriza a perder a esperança de
que, como pretendia Freud, algum dia a razão poderá se sobrepor a tanta
barbárie.
Em Berlim
Dr. Cláudio Eizerik encerrou o seu período
na presidência do IPA no decorrer do 45º Congresso Internacional da entidade,
realizado em Berlim, entre os dias 25 e 28 de julho de 2007. Com o tema
“Recordar, Repetir e Elaborar na Psicanálise e na Cultura de Hoje”, o
congresso retomou o tema freudiano da memória justamente em Berlim, 85 anos
depois do último encontro da IPA naquela cidade, em 1922.
O editor da
Revista Brasileira de Psicanálise, Leopol Nosek, lembra também outra data
marcante na história da Psicanálise e de Berlim, reforçando a escolha do tema
deste encontro: “O ano de 1933 marcou a ascensão do nazismo na Alemanha, fato
que causou uma diáspora dos psicanalistas judeus, resultando inclusive na vida
de Adelheid Koch ao Brasil, introdutora da prática analítica em nosso meio”.
O Congresso em Berlim teve três grandes variantes desenvolvidas por
autores consagrados: o alemão Werner Bohleber, representante da Europa, que
falou sobre ”Recordação, trauma e memória coletiva: a luta pela recordação em
psicanálise”, tendo o Holocausto e seus efeitos posteriores como abordagem; o
argentino Norberto Marucco, que demonstrou a existência de uma conexão entre
repetição, recordação e destino: e o norte-americano Jonathan Lear, que fez um
relato de como a civilização elabora os problemas que enfrenta ao ser ameaçada
de destruição.
(Rio Total, 11 de agosto/2007) CooJornal nº 541,
ano 11
Sheila Sacks é
jornalista e trabalha em Assessoria de Imprensa na cidade do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro, RJ
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Direção e editoria
Irene Serra
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