01/08/2020
Ano 23- Número 1.183

 

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PEDRO FRANCO

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Nas malhas da lei e mais

Pedro Franco - CooJornal

Filha, todos os jornais chamam seu pai de corrupto. Que tristeza! Que imagem você vai guardar de mim?
 Pai, não me importo com o que dizem. E me ofereço para ir onde estiver nossa conta com o dinheiro desviado. Só vou ficar com dez por cento. Negócio de filha para pai.

Minha amante ficou muito mais amolada com minha delação premiada e possível prisão que minha mulher. Também ela é muito mais nova.

Quanto devo dizer que desviei, quando prestar delação? Cadeia com privilégios deve ser onerosa e é hora de pensar em tudo.

Ofereceram delação premiada. Pensam que sou tolo. Com esta dinheirama toda e um mandato, não há possibilidade de ir preso.

Os caras vêm obrigatoriamente dar esclarecimentos sobre suas falcatruas nas câmaras. Pensei que houvesse apenas três tipos. O nada a declarar, o sou inocente, ou o conto só o que me interessa. Apareceu um quarto. Diz-se pai da pátria e passa sabão em todos. Ele ataca os da câmara na maior cara de pau, como se fosse santinho.

Com tanta coisa nos tribunais, vai custar a chegar a vez dos políticos. Então me sento na inocência. Nego, nego, culpo o sistema eleitoral e espero. O tempo será ótimo remédio para remediar minha vidinha. Enquanto isto...

Tancredo dizia que a política muda como as nuvens. Nunca pensei que fosse ver no céu tantas nuvens sujas. Pior, estou de mãos limpas e tenho que cumprimentar na vida política muitas mãos mais que sujas, emporcalhadas. Vossa Excelência.

Cada votação é um perrengue. Puxa daqui, ameaça ali, sofisma acolá e não é que no meio desta baita confusão há gente honesta. Como conseguem persistir. Antigamente um milhão era o máximo, agora falam naturalmente em milhões e os honestos têm que conviver com aloprados.

Não tenho visto, estranho, citarem a Oração aos moços do Rui. Bom trecho também foi de Eça. Falava de Portugal nas “Farpas” e por volta do fim do século XIX. Parecia reportar-se ao Brasil atual. O Barão de Itararé e Keynes têm sido mais citados. O ufanismo do Conde de Afonso Celso está corretamente esquecido. Aliás falar, falar, é fácil. Encontrar soluções! Juram que depois da borrasca vem a bonança. Eta bonança demorada!

Você está se alienando?
Só um pouco, para não ter indigestão de malfeitos. Em vez de só notícias na rádio do automóvel, no tráfego parado, vou de Cds de Jorge Benjor, Dick Farney, Elis, Raul Seixas, Zé Ramalho. Sem faltar João Gilberto. E vai bem sua Bebel. Bossa nova também cai bem para mim. E o Chico? Já ouvi mais. E sobre o livro dele “O irmão alemão”? Procuro não misturar alhos com bugalhos. Já tinha gostado de Budapeste e agora este último, sobre o irmão alemão, é o melhor que escreveu. Está quase no nível de “Até pensei”, “Olha Maria”, “Trocando em Miúdos”, “Dueto”, “ Eu te amo” e ficaria citando e citando ótimas músicas. Comecei nas malhas da lei e fui à música? Crônica dá esta liberdade, se a Editora aceita. E não há censura.



Comentários sobre os textos podem ser enviados ao autor, no email pdaf35@gmail.com 



Pedro Franco é médico cardiologista, Professor Consultor da Clínica Médica C da Escola de Medicina e Cirurgia da UNI-RIO.
Remido da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Professor Emérito da UNI-RIO. Emérito da ABRAMES e da SOBRAMES-RJ.
contista, cronista, autor teatral
Conheça um pouco mais de Pedro Franco.



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