|
- Capitão, me deixa
operar lá fora! Os meus pais podem pagar as despesas...
- Negativo,
reco, você vai ser operado mesmo pelos nossos médicos! É gente muito
competente!
Não tive alternativa. Imaginei-me qual boi esperando, num
curral próximo, a hora do corredor da morte. Ao meu lado, se espalhava uma
procissão de doentes pelo imenso pátio do hospital militar. Todos a se
entenderem ou a se desentenderem com os olhos. Coisa de doido! De manhã e à
noitinha, as vigilantes irmãs de caridade impunham rezas, e, algumas vezes,
alguns lhes arremedavam as vozes. Quando descobertos, os autores da
brincadeira perdiam a suculenta boia. (Cá entre nós, medindo sabores, não se
sabia se aquela comida era prêmio ou não).
A cirurgia, porém, já
estava demorando e a lenta rotina hospitalar mais me atormentava. Até que,
ocorrendo um desastre com um caminhão numa manobra de instrução, originando
muitos feridos, foi necessário esvaziar camas para acolhê-los. Terminada a
arrumação, um Sargento perguntou, em alta voz, quem se candidataria às
próximas operações. Ansioso, apresentei-me, iniciando a fila dos
“desesperados” que caminhava pelas alamedas em direção ao pavilhão
cirúrgico. Selecionaram-me e a um branquelo “Catarina”, alto e exibidor de
músculos.
Ainda na enfermaria, anestesia inicial com comprimidos.
Depois que verificaram que não mais comandávamos os movimentos dos braços e
das pernas, nos alçaram com os lençóis, nos despejaram em duas macas, e nos
empurraram até a sala de operações, abandonando-nos sobre as mesas
cirúrgicas. Pensei: veríamos, deste modo, graciosamente, as mútuas
intervenções? Não gostei. Veio uma anestesia na veia. Mas quando o bisturi
arranhou a pele, ainda protestei:
- Tá doendo!...
Inútil
queixa... Nem sei se ouviram minha fraca voz. Não se comoveram, continuaram
nas suas “perícias”. Ante à indiferença dos médicos e enfermeiros quanto ao
meu aviso, não tive dúvida: tasquei-lhes uma floricultura de merecidos
palavrões!
Ao meu lado, o Catarina, achando que a sua hérnia a ser
operada estava muito misteriosa, ninguém lhe explicando nada sobre o início
dos atos, rebentou as correias que prendiam seu corpo à mesa. Correria dos
enfermeiros! Enquanto isto, a minha dor, mesmo bem menor, reclamava... E o
médico, a se curvar sobre minha barriga, mostrando, ainda, detalhes aos
acadêmicos curiosos que o cercavam. De repente, a observação “esplêndida” me
chegou aos ouvidos:
- Ainda não chegamos ao campo operatório do
apêndice...
Já pensava terminado o suplício! Em consequência,
enquanto tive fôlego e consciência, vomitei novo enxame de palavrões para
presentear aquela colmeia de saberes. Aplacaram-me com máscara de
clorofórmio... recurso oportuno na época. Muito tempo depois, já na
enfermaria, não recebia visitas, nem dos pacientes vizinhos, porque, meio
inconsciente, ainda, continuava a resmungar xingamentos.
Suspensas as
cautelares medidas do pós, minha mãe me visitava, e me atolava de frutas.
Revoltado com o tratamento disciplinar, eu nem as comia todas. Repassava-as
aos outros doentes do pavilhão de loucos, onde me acomodaram, por
deficiência de espaço e... inconveniências vocabulares. Entre eles um me
impressionava: cabelos eriçados, olhos saindo das órbitas, as nádegas quase
suprimidas por uma granada, no último conflito mundial. Neurose de guerra, o
seu caso. Vez em quando nos apontava uma metralhadora imaginária e, com
recursos vocais espalhafatosos, nos enquadrava como vítimas.
E então,
aconteceu um novo acidente no treinamento de um quartel, ou coisa
semelhante, antecipando, por exiguidade de camas, minha saída dali.
Em casa, brinquei, assustando a todos:
- Não aguentei mais, fugi, sou
desertor agora! A qualquer hora uma patrulha virá me capturar!
Na
data marcada, porém, reapresentei-me aos médicos do Centro Cirúrgico.
Liberaram-me. Já na unidade-quartel de origem, com dez dias de baixa do
hospital, o Capitão da minha Companhia queria me obrigar a uma ajuda no
transporte de móveis pesados, entre dois andares, com escadas a superar.
Faria, sim, – concordei – mas com o Senhor se responsabilizando por mim!
Recuou. Deste modo, fiquei perambulando pelas salas dos prédios do
Quartel, deixando, por algum tempo, apesar de certas incumbências
administrativas, de bem servir totalmente à Pátria e deitado eternamente em
berço esplêndido até o momento de melhoras, e posterior “baixa”.
E aí
ainda teve gente “tentadoramente” me convidando:
- Ô soldado, você
não quer engajar? A gente pode lhe arranjar uma promoção!
Fico calado
ou armo, novamente, um tiroteio de palavrões?.
(Rio Total, 01/11/2019
Ano 22 - Número 1.147)
Comentários podem ser enviados diretamente ao autor no email
miltonxili@hotmail.com
Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ
Email:
miltonxili@hotmail.com
Conheça um pouco mais de
Milton Ximenes Lima
Direitos Reservados.
|