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16/8/2025
Ano 28 - Nº 1.475

ARQUIVO
MILTON XIMENES

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Milton Ximenes
AQUI JAZ
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Dona Mariana e
“seu” Adolfo, um belo casal, ela do lar, ele administrando uma papelaria, vida
simples no subúrbio carioca, casal de filhos à porta da universidade. Alegria
maior deles era essa, a certeza de que eles estavam praticamente encaminhados,
vencidas as dificuldades muitas.
Um dia, lá pelos quarenta e cinco
anos, “seu” Adolfo começou a se sentir fisicamente estranho, algumas
tonteiras, cansaço quase toda hora, sonolência, uma dorzinha chata lá para os
lados do rim direito. Encontrou dificuldade para disfarçar, o clínico do
bairro recomendou-o a um especialista, e este, muitos exames à mão, agilizou
imediatos tratamentos. De nada adiantou, era aquela temida doença, nome
censurado pelas bocas, não descoberta precocemente, a se disseminar pelo
corpo, metásteses várias.
Como se esperava, D. Mariana se desdobrou,
vigilante, palavras de conforto e esperança, obediência rígida às orientações
médicas, com direito, também, a refúgios para seus solitários choros. Fora um
homem bom para ela, sentiria falta da sua amável presença, daquele amor agora
já sem grandes arroubos, mas recheado de bom companheirismo.
Óbito,
auxílios, seguros, pensão, pequeno inventário, não teve ânimo para andar atrás
dos papéis, lembranças dolorosas a partir de cada assinatura. Procurou, então,
o primo com quem fora criada na fazenda dos avós, agora bonito e solteirão
advogado.
Depois da missa de trigésimo dia formou o hábito de visitar o
cemitério. Percebera que a sepultura, comprada precavidamente há muito tempo,
estava a merecer reparos, conseguiu sensibilizar o interesse de um dos
funcionários de lá, precisava de alguém que acompanhasse as obras de reforma.
A cada etapa dos serviços sempre retornava, novas flores para colorir o local.
Quase um ano se prolongou a empreitada, condicionado seu término às sobras do
reduzido orçamento familiar. Colocação de um anjo segurando uma cruz,
revestimentos com pedras mais bonitas, gravações de retrato, datas de
nascimento e falecimento...
As melhorias, enfim, terminaram, mas a
fidelidade das flores não, agora mensalmente.
Voltou, uma tarde, a
rever o primo advogado. Ele percebeu um certo nervosismo nela, trancaram-se no
escritório, como ela mesmo pedira, dispensou os serviços próximos da
secretária, ficou a imaginar qual o mistério a lhe ser revelado. Deixou, até,
por rápidos momentos, se aprisionar por antigos pensamentos de desejo por ela,
liberou e bloqueou fantasias, pensou mesmo se era chegado o momento de começar
a realizá-las. Por isso, se surpreendeu à primeira pergunta dela:
–
Estou livre para me casar de novo?
Refez-se:
–
Sim, sim... nada
impede você, tá tudo legal, mas... que história é essa, é gente daqui?
–
É, sim, mas você não conhece, ele mora fora da cidade...
–
Não é cedo
para isso? Já falou com seus filhos? – tentou alertar.
–
Posso ou não
posso? – ela cortou.
–
Poder, pode, mas quer um conselho?
–
Depende...
–
Você conhece bem nossa família, é bom não festejar muito!
Nem os filhos lhe arrancaram o segredo. Quando voltou de uma viagem de
quinze dias a uma cidade do circuito das águas de Minas Gerais, D. Mariana
estava casada com o atencioso e jovem coveiro.
Figura na antologia
do IV CONCURSO LITERÁRIO GUEMANISSE DE CONTOS
Comentários podem
ser enviados diretamente ao autor no email
miltonxili@hotmail.com
Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ
Email: miltonxili@hotmail.com
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