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Irregularidades sérias ocorreram nas então “filiais” do Amazonas e do Acre e
a presidência da CAIXA ECONÔMICA se sentiu na obrigação de se fazer
representar naqueles Estados, principalmente através de um advogado
especializado em Direito Penal. Missão árdua, inúmeros causídicos da Empresa
se recusavam a deixar suas origens para tão longínqua e responsável
incumbência.
Sabendo que um colega carioca mantinha, desde 1960, um
escritório no ramo, convocou-o para reunião com um seu representante no Rio,
e outro, da Consultoria Jurídica, ligada à Brasília, na qual lhe conseguiram
aquiescência à missão.
Ano de 1973, com bastante sacrifício, abrindo
mão do seu cargo de tesoureiro pela carreira inicial de advogado, valor de
salário inicial menor que o do seu, afastamento da sua família, suspensão da
sua atuação no escritório, e mais, com o tempo, contraindo empréstimo sob
consignação a fim de enfrentar despesas extras com as distantes estadias.
E em Rio Branco, tempos depois, já mais familiarizado com o ambiente
forense, combinaram, advogados, juizes, pessoal dos cartórios e alguns
penetras, uma “pelada” para um domingo próximo, no campo de futebol do hotel
onde se encontrava hospedado.
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Caixa Econômica Federal - Sede Rio" Foto MXL |
Manhã premiadamente ensolarada, o grupo
foi se formando, entre longos bebericos de uísque à beira da piscina.
Gostaria de jogar, mas não tinha chuteiras. Então o Juiz Federal ofereceu as
dele. Tomou-as, jogou-as na direção de folhagens e arbustos vizinhos.
A dificuldade era a demora da turma toda para completar os times. O
terceiro litro de uísque já estava repartido... o sol queimava, incentivava
novos goles. Atordoado já estava quando houve a convocação. Calçou a meia e
enfiou o pé direito na chuteira. Tão rápido quanto o fizera, retirou-o.
Súbita fisgada no seu dedão, e, agarrada, uma caranguejeira! Sacudia a perna
para dela se livrar. Correria geral, os companheiros e serviçais acudindo,
foi conduzido para o Pronto Socorro, onde foi imediatamente cuidado pelo
próprio Secretário de Saúde do Estado.
A caminho deste atendimento, o
passado já se cinematografava no seu cérebro: morrer agora, longe da minha
mulher e dos meus filhos, dos amigos, da minha cidade? E os papéis a serem
tratados, coisas a acertar, a mulher iria se enrolar toda! Meus Deus, eu
estava lá no Rio, tão sossegado, em casa, ganhando meu dinheirinho certo,
mas... VIVO! Agora, é a Maria que vai mais recriminar e lamentar esta minha
aventura! E chorar... E as crianças? Futuro incerto...
Hospitalizado,
o diagnóstico: deveria era morrer, porque o veneno da caranguejeira, não
repelido a tempo, era fatal, mas... mas...
“Bem, no seu caso, você
escapou... porque bebeu demais, o álcool diluiu o veneno...”- sentenciou o
doutor.
Voltando aos trabalhos, apressou providências finais junto
aos superiores em Brasília, e, na primeira oportunidade, tratou de voltar
para o Rio.
E no Carnaval próximo, bem vivo, espertíssimo, passou,
desfilando na Passarela do Samba, na Escola do seu coração, a Vila Isabel,
onde, por vinte e cinco anos, já emprestara sua alma de compositor e sua
vocação de cantor.