Certo é que aconteceu num desses dias em que a gente amanhece
esquizofrenicamente de bem com a vida. Os pulmões se

regojizam de ar, os
dedos ensaiam ternuras sobre as cabeças das crianças que brincam, os braços
desejam abraços, da luz do momento fluem energias múltiplas, vontade de
fazer muitas coisas, enfim, o mundo está belo, embora o celeste nublado. Até
a paisagem humana, recentemente desperta, parece atraente, o parque de
frondosas árvores é acolhedor, e o jardim, próximo, nos empresta as variadas
cores das suas flores. Momentos de êxtase para atentos e sensíveis
visitantes.
Poderia estar em casa, confortavelmente instalado
numa cama ou numa poltrona, aguardando o aroma gostoso e energizante do
café. Deu uma cisma, porém, resolvi sair, e, de roupas leves e em jejum,
comprei o jornal, me acomodei naquele banco à beira do lago.
Momentos
depois, pressenti-me acompanhado. Algo às costas, instinto de defesa me fez
virar. Sorriso a meio caminho, olhos fundos e inchados, rugas na testa
gordurosa, grande nariz, roupa maltratada e suja sobre o corpo, cheiro
desagradável, um homem mostrava-se também interessado na leitura. Deu
pequenas e nervosas risadas e sua mão direita e respectivos dedos, bem por
cima do meu ombro, evoluiram no sentindo de uma notícia:
– Outro
atropelado... Foi aqui perto... eu vi, tava bebão!
Balancei a cabeça,
murmurei um “hum-hum”, só para concordar, se livrar. É, o desconhecido sabia
ler, devia esconder uma boa história de vida, mexeu momentaneamente nos meus
instintos de curiosidade literária, mas me contive. Diante da pacífica
leitura que até ali eu fazia, ele era, vagabundo ou bêbado, sei lá, um
intrusão. E, logo depois, já ia abusando, apontando outras ocorrências,
fazendo comentários. Desafinei, suavemente:
– O que você quer, cara?
Alguma ajuda, um dinheirinho?
– Não, moço, queria só o jornal, tô
esperando o senhor jogar fora... – esclareceu.
De maldade, dei-lhe o
suplemento imobiliário. Queria testá-lo, mas, para surpresa minha,
alegrou-se e se afastou, primeiro lentamente, depois, mais apressadamente,
na direção da alameda mais bem arborizada do parque. Agachou-se, sumiu sob
as fartas moitas.

Imediatamente me levantei, dobrei o restante do
jornal, joguei-o no grande e amarelo latão de lixo. Tentei não me
impressionar, mas reconheci que todo aquele romantismo pincelado pela
promissora manhã se desvanecera.
Apesar da, instantes depois,
inesperada visita do colibri que esverdeou de malabarismos a janela do meu
olhar, antecipando seu mergulho para o abismo-coração da próxima flor...
Então, quando alcançava o portão do parque, a chuva pediu licença e o
peso dos seus pingos fizeram as folhas, em murmúrios, reclamar...
(RT, 10 de agosto/2012)
CooJornal nº 799
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miltonxili@hotmail.com
Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ
Email:
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Milton Ximenes Lima
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