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16/10/2025
Ano 29 - Nº 1.479

ARQUIVO
MILTON XIMENES

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Milton Ximenes
OS PEQUENINOS – CRIANÇAS E CRI-ONÇAS (II)
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ONZE
Escola primária, aula de matemática. A professora sugere e força a
solução: O Joãozinho já tem três bolas e vai ganhar mais duas. Agora, ele
vai ficar com... com? com?... Lá atrás, uma vozinha cresce, e completa:
– Com...TENTE!
DOZE
Novamente, as sombras. Na caminhada para
o Maracanã (RJ), assisto, na calçada do posto de gasolina da esquina de
Maxwell com Felipe Camarão, a brincadeira do pai com o filho, ambos risonhos
no descontraido passeio dominical. O pai para de andar, dá um estratégico
recuo de corpo e aponta para as sombras dos dois projetadas paralelamente na
calçada:
–Veja, meu filho, veja! Você já está da altura do papai! O
menino ri abertamente, uma risada própria de uma infância feliz em que a
verdade do pai é também a sua, daquele pai que lhe segura firmemente a mão e o
leva para frente, soberano, convidando-o a atravessar a esplêndida manhã de
sol daquele dia de outubro.
TREZE
Correspondência interestadual
entre duas comadres, publicada em jornal do Rio: “Cátia está agora na aula de
catecismo. Ela e Marcos vão comigo à missa de 7h30 na igreja de Nossa
Senhora das Graças e, logo após, é o catecismo. No primeiro dia a professora
ensinou a fazer o “sinal da cruz” (ela já sabia) e explicou que “Deus manda
fazer uma cruzinha na testa que é para tirar todos os maus pensamentos das
cabecinhas das crianças. Depois, uma cruzinha na boca que é para tirar todas
as más palavras e xingamentos das boquinhas delas. E, por fim, uma cruzinha no
peito que é para tirar as mágoas e as raivas dos corações das crianças”.
Ela
logo perguntou o que que era mágoa e porque o coração da criança tem raiva...
A professora explicou que, “de vez em quando, a mãe tem que dar castigo aos
filhos desobedientes e até mesmo dar umas palmadas, e, quando isto acontece, a
criança que apanhou geralmente fica com raiva e pensa em teimar e fazer
malcriações piores”. Então, quando chegamos em casa, ela contou tudo
direitinho para o pai dela e não deixou de concluir: “a professora falou muito
bem, mas se esqueceu uma coisa. Ensinar a gente a fazer uma cruzinha na
bundinha que é para tirar a dor que a gente sente quando ganha umas palmadas
da mamãe”.
QUATORZE
De todos os lados os novos alunos pediam sua
atenção na sala de aula:
– D. Grória! D. Grória!... Fabricou um silêncio
e observou, em voz lenta:
– Eu acho que vocês têm duas professoras... Eu me
chamo D. G-l-ó-r-i-a e a outra, D. G-r-ó-r-i-a.... Em seguida, tentando
aperfeiçoá-los, repetiu muitas vezes a pronúncia do GL, até considerá-los
devidamente treinados. No fim da aula, uma das miúdas se aproximou e apontando
para o vasinho sobre a mesa, pediu:
– D. Glllóóória, D. Glllóóória,
(graças!), a senhora pode dar pra mim aquela frô daquela pranta? (Turma da
minha mulher, Escola Friedenreich, Maracanã, RJ)
QUINZE
Diálogo
entre um analista e uma criança, menino esquizofrênico, com idade física de 9
anos e idade mental de 4 anos.
– O passado é longe?
– pergunta ele.
–
Sim, o passado é longe
– repete o médico.
– O que vem depois do passado? –
insiste o pequeno. O analista emudece e o garoto, como num súbito “achado”,
desafia:
– Não sabe, hein, seu bobo?... O que vem depois é o infinito!
Noutra ocasião, ao sair do cinema, a mãe lhe falava do enredo do filme:
– Viu, meu filho? Daqui a alguns anos os homens poderão ir à lua!
– Mas ao
sol eles não poderão ir, mamãe, porque o sol vem até nós!... – finalizou a
criança.
DEZESSEIS
Tendo visto o padre usando, pela primeira
vez, a roupa do terno “clergy-man”, liberada pelo então recente Concílio, o
menino confessou à mãe:
– Quase não conheci o padre Alberto, ele estava
vestido de homem!
DEZESSETE
Todas as vezes que tem uma folga no
seu trabalho no escritório, o homem, certificando-se de que não é visto, se
embevece com os aviõezinhos de papel que lança do 17º andar ao espaço. Talvez
aí compensasse, como lhe atentei, a não-entrada para a Aeronáutica, seu sonho,
quando, por defeito físico, não foi aceito. Aproveitou então o assunto
dizendo-me que, por causa do hábito, surpreendeu o filho em conversa com
companheiros de brincadeiras:
– Quando eu crescer, quero ser advogado! A
gente passa a tarde toda jogando aviõezinhos pela janela! Raciocínio de
criança diante da visita que fizera ao pai, certa tarde, no escritório...
DEZOITO
Estou no velho hábito de parada em uma livraria: a extinta
Freitas Bastos (RJ). Puxam-me o paletó, descubro e me comovo com a menina de
rua, que me pede uma atenção e não, uma esmola:
– Moço, moço, me compra um
livro de história pra mim?
DEZENOVE
À porta da loja, na rua
Uruguaiana, centro do Rio, o garoto, mulatinho, se alegra e sonha com o
desenho animado da TV. Um “cascudo” atinge sua cabeça, o faz voltar para as
palavras da (possivelmente) mãe:
– Sai daí, vagabundo, venha pra cá pedir
dinheiro!
VINTE
Menino, possivelmente entediado, para o pai, na
longa viagem de carro:
– Se a gente dormir, a gente chega em casa mais
depressa?
(RT, 16 de outubro/2010) CooJornal no 706
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ser enviados diretamente ao autor no email
miltonxili@hotmail.com
Milton Ximenes é cronista, contista e poeta
RJ
Email: miltonxili@hotmail.com
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