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Irene Serra
VENTO E TEMPESTADE
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Era um fim de tarde atípico. Os pássaros deixaram de
cantar e não demonstravam a costumeira orgia ao se esconderem nos galhos; os
cães, sempre tão barulhentos, também emudeceram e até deixaram de morder as
plantas do jardim; os gatos dispensaram o colo e se enfiaram embaixo das
camas e nos armários.
Todos pressentiam algo diferente, mas ninguém
atinava o quê. Em pouco a noite caiu, negra, sem luar ou uma estrela
qualquer. E ele chegou. Chegou assustadoramente, rugindo, bradando, levando o
que via pelo caminho. As árvores mais jovens não aguentaram e cederam sob a
força do vento, seus galhos e flores prostrados ao chão; as janelas das
casas, trancadas, tremiam e reclamavam, enquanto o vento insistia em se
infiltrar pelas frestas, deixando veios de poeira e terra. A expressão ventos
uivantes passou a ser conhecida, a fazer sentido.
Ansiedade. Medo ao
ver o temporal, repentino, desabar com uma força descomunal, barulho
ensurdecedor. As ruas começaram a ficar alagadas e, em instantes, a chuva
entrava pela soleira das portas. Casas destelhadas, água escorrendo pelas
paredes, pingando pelas tomadas e pontos de luz.
Faltou energia
elétrica e o frio aumentava. Lajes de algumas casas não seguraram o volume de
água, que começou a vazar pelo teto.
Ouvem-se gritos da rua, pessoas
perguntando pelas famílias que estavam nas casas e oferecendo ajuda para, em
grupo, refugiarem-se na igreja. E, assim, vai aquele crescente comboio, a pé,
todos encharcados, abraçados, apertados entre si formando uma única massa, em
direção ao centro. Rumo à proteção, ao abrigo, mas conscientes e alertas a um
possível perigo maior.
Encostam-se como podem e esperam. Ninguém se
afasta, poucos conversam. Ouve-se o murmurar de orações e o agradecimento por
ali estarem juntos, em companhia. Alguém arrisca contar um caso divertido,
outro oferece um biscoito, e não se ouve um lamento, um falar de desgraças ou
lamúrias. Uma menina levanta o agasalho mostrando o pintinho, recém-saído da
casca, que esquentava junto a si, ela mesmo tiritando de frio.
Manhã
radiosa de sol! Passarinhos pousando nos altos vitrais, a cantar. As pessoas
vão se despedindo, as crianças encontrando brincadeiras nas enxurradas, o
alívio se mostrando no atenuar das rugas de expressão. Novo dia! Agora, fazer
limpeza geral, reparar os estragos e voltar à doce rotina.
Mas fica
uma imagem muito forte: a solidariedade, dedicação e altruísmo de pessoas que
ajudam o próximo por abnegação e prazer; desconhecidos que dão as mãos,
formando um elo firme para uma vida melhor.
(18 de
agosto/2007) CooJornal nº 542.
Irene Vieira Machado Serra foniatra, editora da Revista Rio Total RJ irene@revistariototal.com.br
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