Literatura

AÇÕES DOS HOMENS EM SOCIEDADE - Iniciar a ação e ganhar sabedoria -
Incitar a ação
Eis como proceder: assume os riscos da empreitada e promete recompensas.
Como faria um general antes da batalha, ao prometer coroas aos feridos ao
mesmo tempo que se compromete a proteger as bagagens: enviará em seguida um
contingente de soldados sólidos para defender o acampamento. E assim o
exército irá combater com a alma em paz.
Ganhar sabedoria
Mantém-te em silêncio a maior parte do tempo, escuta os conselhos dos outros
e pesa-os longamente. Não te deixes arrebatar pelos sentimentos. Não
superestimes tuas palavras ou ações. Não te carregues de ocupações que não
têm para ti nenhuma utilidade presente ou futura, e não te envolvas com
assuntos alheios. Celebra por escrito as façanhas dos outros. Disposto a
lhes construir monumentos, a glória deles se refletirá em ti e ganharás suas
graças sem incorrer-lhes na inveja.
Evita sucumbir à cólera ou ao
desejo de vingança. Escuta com interesse os relatos sobre as virtudes dos
outros e reserva tua admiração para aquele que for realmente extraordinário.
Dá conselhos raramente. Não ajas nunca por espírito de competição. Evita os
litígios, mesmo se eventualmente tiveres de sofrer algum prejuízo. Não
mostres a ninguém os objetos preciosos que possuis, com o medo de provocares
em alguém o desejo de pedi-los. Se alguém te impele a um empreendimento,
cuida para que assuma sua parte nos riscos.
Se deves fazer uma
recomendação, encaminhar um pleito, ou se deves te envolver em um novo
empreendimento, procura precedentes nos livros de História a fim de te
inspirares.
Consulta constantemente as obras dos grandes oradores;
eles conhecem os meios de suscitar os ódios, devolvê-los contra seu autor,
ou de adoçá-lo, defender-se ou acusar. É mister seres capaz de ambigüidade e
que teu discurso possa ser interpretado tanto em um como em outro pedido, de
maneira que ninguém possa interpretá-lo com exatidão. Pois às vezes a
necessidade te impelirá a recorrer à ambigüidade como foi o caso de
Aristóteles, segundo Gregório Nazianzeno, quando consignou seu pensamento
por escrito.
Eis como proceder nos livros, cartas ou conselhos quando
se corre o risco de desagradar: é preciso utilizar a forma do debate,
desenvolvendo sucessivamente os argumentos que tomam um e outro sentido, sem
dizeres qual tua opinião ou qual a opinião que se quer ver prevalecer. Usa à
vontade da ambigüidade, da invocação ou de qualquer outra figura de
retórica. Aceita a censura mesmo injustificada, não procures desculpa para
tua conduta, senão ninguém quererá te dar conselhos. Mostra de preferência o
quanto estás aflito com teu erro. Quanto às críticas sem fundamento, não
respondas a elas, e até mesmo ocasionalmente poderás admitir alguns erros.
Exercita-te a seres capaz de defender em qualquer ocasião uma causa e a
causa adversa; para isso, lê os tratados de retórica e as acusações e
defesas publicadas.
Se és plenipotenciário e negocias com o inimigo,
aceita seus presentes, mas previne o Príncipe, para que ele não suspeite de
traição. Age do mesmo modo em circunstâncias semelhantes. Não envies em
embaixada um teu adversário que tencione tomar o poder. Ele agirá contra os
teus interesses.
Equilibra os caracteres de teus conselheiros, pois
raro é encontrar um cujo caráter seja naturalmente equilibrado. Escolhe um
fleumático e um apaixonado, um brando e um agressivo, etc. Tu obterás o
melhor conselho possível.
Observa sempre para que lado pende a
fortuna ou para que lado ela tende a pender.
Tem ao teu lado
servidores do Príncipe, tanto os grandes como os pequenos.
A cada
dia, ou a dias previamente determinados, consagra um momento para refletir
sobre qual deveria ser tua reação a este ou àquele provável acontecimento.
Mantém um diário, no qual anotarás as ações de teus amigos e servidores.
Consagra a cada um uma página, que dividirás em quatro colunas. Na primeira,
anota os danos que ele te causou ao faltar com os deveres. Na segunda, o bem
que lhe tiveres feito e o trabalho que tiveste para ajudá-lo. Na terceira,
escreve o que ele fez por ti. Na quarta, os aborrecimentos que lhe causaste,
qual sacrifício excepcional ele fez por ti. Assim poderás responder
imediatamente a cada um deles que vier se queixar diante de ti ou alegar
serviços. Põe essas regras em prática também nos teus contatos cotidianos.
Justas ou injustas, aceita as reprimendas de teu superior, desculpa-o
sempre em presença de terceiros e fala bem dele. Na medida do possível, não
faz promessas por escrito, sobretudo a uma mulher. Evita te apegares àquilo
que te atrai e seduz. No entanto, se isso vier a te acontecer, multiplica
tuas precauções.
Ainda que tua situação seja sólida, nunca será
demais consolidá-la o quanto puderes. Ao fim de uma missa que levaste a bom
termo, analisa-a como se se tratasse de tarefa realizada por outro, observa
em que circunstâncias te deixaste surpreender, quais ocasiões perdeste, etc.
Breviário dos Políticos - escrito pelo Cardeal Mazarin é parte integrante do livro Conselhos aos Governantes publicado pelo Senado Federal e organizado por Walter Costa Porto. Teve a tradução do francês para o português feita por Roberto Aurélio Lustosa da Costa.
CARDEAL MAZARIN
Giulio Raimondo Mazzarino, ou Jules Mazarin, nasceu em Pescina, Itália, em 14 de julho de 1602.
Aluno dos jesuítas, em Roma, estudou Direito em Alcalá e Madri, na Espanha e, de volta a Roma, em 1624, ingressa no serviço militar do Papa.
Nomeado, pela Santa Sé, vice-legado em Avignon, em 1634, e núncio em Paris, em 1635-6, Richelieu o convoca para o serviço de Luís XIII. Em 1639 alcança a cidadania francesa e, por influência de Richelieu, torna-se cardeal.
Com a morte de Richelieu, Mazarino o sucede, como primeiro-ministro.
Quando morreu em 1661, teria ele, segundo seus biógrafos, concretizado grande parte dos objetivos propostos por Richelieu: a modernização do estado, a restauração do absolutismo, a subjugação da nobreza, a derrota dos Habsburgos e o restabelecimento dos Pirineus e do Reno como as fronteiras naturais da França.
Para Roberto Aurélio Lustosa da Costa, tradutor deste Breviário dos Políticos, sucedem-se, no texto, "momentos de melancolia, cinismo e indiferença, quanto a qualquer valor de ordem moral, só importando a busca perseverante e incansável do poder e de sua sustentação e manutenção".
Direção e Editoria
Irene Serra
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