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Conselhos aos Governantes







 





Literatura

AÇÕES DOS HOMENS EM SOCIEDADE
- Evitar ofender -


Se te mostrares reticente ou mesmo desatencioso em relação a alguém que te pedia um favor, não prestes esse mesmo favor a um outro que lhe seja inferior ou mesmo um seu igual, pois perderias a confiança e suscitarias o ódio do preterido.

Não te mostres repentinamente mais severo em relação àqueles que dependem de ti sem ao mesmo tempo te mostrares mais generoso. Aumentando penas e recompensas misturas o amor e o temor.

Se empreenderes alguma inovação que possa eclipsar os outros e mesmo o Príncipe, arranja-te para teres imitadores. Não serás o único a suscitar invejas que, desse modo, serão atenuadas.

Se surgir a crença de que estás na origem de decisões impopulares, gratifica abertamente o povo com algumas prodigalidades, como isenção de impostos, graça a um condenado, etc. E sobretudo mostra-te afável com os que são amados da multidão.

Se premeditas alguma nova política, encontra-te antes e em segredo com um teólogo, etc., e coloca-o a teu lado, a fim de que ele te sugira, encorage e pressione a adotares publicamente as inovações que pretendes.

Se tens a intenção de promulgar leis novas, mostra a imperiosa necessidade delas aos sábios e prepara um projeto com eles. Ou faz simplesmente correr o rumor de que tu os consultaste e os ouviste. Em seguida, sem levar em consideração os conselhos deles, toma as decisões que te convierem. Não procures nunca uma esposa para alguém, uma serva, etc. Nem muito menos tentes convencer alguém a mudar o modo de vida.

Evita sempre ter executor testamentário.

Se ocorrer estares presente quando alguém dirige seus servidores e lhes dá ordens, não te retires, porém priva-te de intervir, seja aprovando, seja contradizendo. Quando chegares a um novo país, não deves incidir no erro comum que consiste em falar bem incessantemente do povo e os costumes do país que deixaste antes de visitares este.

Mesmo se em teu foro íntimo tens opinião contrária, toma o partido da indulgência nos casos de consciência e em todos os outros; mas prega o rigor. Não deves jamais fazer crer a ninguém que tens influência sobre teus superiores, não te vanglories de sua boa graça. Não te deixes levar à confidência dizendo o que pensas de um ou de outro.

Quaisquer que sejam tuas funções, poderás sempre ganhar as boas graças de um superior se propiciares que ele obtenha lucros. Para com teus inferiores, procura sempre mostrar certa indulgência, ao menos aparentemente, de preferência a pareceres excessivamente rigorosos.

Se descobres que um pretenso amigo falou mal de ti, não o critiques, pois farás de alguém um inimigo que, na pior hipótese, era até então um indiferente em relação a ti.

Não procures saber todos os segredos dos grandes, pois em caso de fuga serás um suspeito.

Se alguém faz uma visita unicamente de cortesia, trazendo suas felicitações, transmitindo-te suas saudações, etc., prodigaliza-o de amabilidades e oportunamente retribui-lhe a gentileza.

Se alguém não cumpre o que promete, não o censures, pois nada terás a ganhar além do seu ódio.

Perde no jogo para teu senhor, na medida do possível; ou seja, quando só a honra estiver em jogo e não o dinheiro. Um homem realmente forte não é vencido por ninguém, a não ser por seu senhor.

Qualquer que seja a intimidade que tenhas com teu senhor, nunca te afastes do respeito e da submissão que lhe são devidos; de outro modo, ele pensará que essa intimidade te fez perder o senso do dever.

Não te vanglories de teres com teus conselhos modificado a decisão de alguém. Na próxima vez ele te resistirá melhor. Não tripudies sobre a derrota daquele que não seguiu teus conselhos. Deixa os acontecimentos te vingarem.
Não te vanglories de teus recursos, de tua força, de tua imaginação, de tua habilidade manual, de tua rapidez na corrida.

Se ganhaste os favores dos grandes e foste admitido em seus conselhos, seus ministérios, não reveles seus segredos, não procures adivinhar seus projetos. Esconde o que sabes e finge ignorância. Se sofreste alguma injustiça da parte de um mais poderoso que tu, não te queixes e mesmo ignora a ofensa, pois o ofensor odeia sua vítima.

Celebra os favores que recebes, mesmo os menores, como se se tratasse de presentes extraordinários, caso tenha sido teu senhor que te ofereceu, e responde com manifestações de amor.

Recusa de todo o coração as comendas honoríficas e trata de recebê-las o menos possível; elas te dão muito brilho mas não servem para nada..



Breviário dos Políticos - escrito pelo Cardeal Mazarin é parte integrante do livro Conselhos aos Governantes publicado pelo Senado Federal e organizado por Walter Costa Porto. Teve a tradução do francês para o português feita por Roberto Aurélio Lustosa da Costa.



CARDEAL MAZARIN


Giulio Raimondo Mazzarino, ou Jules Mazarin, nasceu em Pescina, Itália, em 14 de julho de 1602.
Aluno dos jesuítas, em Roma, estudou Direito em Alcalá e Madri, na Espanha e, de volta a Roma, em 1624, ingressa no serviço militar do Papa.
Nomeado, pela Santa Sé, vice-legado em Avignon, em 1634, e núncio em Paris, em 1635-6, Richelieu o convoca para o serviço de Luís XIII. Em 1639 alcança a cidadania francesa e, por influência de Richelieu, torna-se cardeal.
Com a morte de Richelieu, Mazarino o sucede, como primeiro-ministro.
Quando morreu em 1661, teria ele, segundo seus biógrafos, concretizado grande parte dos objetivos propostos por Richelieu: a modernização do estado, a restauração do absolutismo, a subjugação da nobreza, a derrota dos Habsburgos e o restabelecimento dos Pirineus e do Reno como as fronteiras naturais da França.
Para Roberto Aurélio Lustosa da Costa, tradutor deste Breviário dos Políticos, sucedem-se, no texto, "momentos de melancolia, cinismo e indiferença, quanto a qualquer valor de ordem moral, só importando a busca perseverante e incansável do poder e de sua sustentação e manutenção".



Direção e Editoria
Irene Serra