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Conselhos aos Governantes







 





Literatura

AÇÕES DOS HOMENS EM SOCIEDADE
- Não se deixar surpreender e evitar o ódio -



Não se deixar surpreender

Não se deve acreditar muito nos sábios, pois eles rebaixam excessivamente o que têm de superior e exaltam vantajosamente a reputação dos outros. Eles não te confessarão que alguém falou mal de ti em tua ausência. Eles também não te dirão de quem deves desconfiar nem quais são os vícios de tal ou qual pessoa. O mesmo se diga dos padres que elogiam seus penitentes - pois eles não podem agir de outro modo - ou de pais que elogiam os filhos.

Se temes que em tua ausência alguém busca suscitar perturbações ou queixas contra ti, ou fazer seja o que for para te prejudicar, leva-o contigo sob um pretexto amigável quando saíres a passear, a caçar, ou para a guerra. Mantém-no ao teu lado à mesa, nas reuniões, etc. Do mesmo modo, se queres evitar que as nações vizinhas se aproveitem de uma de tuas expedições para te declarar guerra, leva contigo a elite dessas nações, como se se tratassem de teus aliados mais fiéis, cuidando porém de fazê-la escoltar uma pequena tropa armada na qual tenhas confiança absoluta.

Evitar o ódio

Recusa testemunhar em um processo, pois terás aborrecimento com uma das partes. Não fales, não dês informações sobre um homem que não seja bem-nascido ou mesmo de baixa extração. Se lanças uma farpa durante uma conversação, continua falando como se nada tivesse acontecido. Não demonstres a ninguém simpatia particular em presença de outros, que julgarão que tu os desprezas e que, em conseqüência, te odiarão.

Evita uma ascensão muito rápida e muito brilhante; os olhos devem habituar-se gradualmente a uma luz mais intensa, caso contrário, ofuscados, eles se fecharão. Não te oponhas àquilo que agrada ao povo, sejam vícios, sejam tradições. Se tiveres de admitir a autoria de um ato odioso qualquer, não te exponhas aos ódios instantâneos que ele suscitar e não deixes que se pense, através de tua conduta, que não tens nenhum remorso e que chegas a te orgulhares do que fizeste, escarnecendo de tuas vítimas. Assim tu irás duplicar o ódio. O melhor é te ausentares e deixar passar algum tempo sem te manifestares.

Não introduzas inovações extravagantes em tuas vestimentas ou no fausto de tuas festas.

Se ditares leis, que sejam iguais para todos; confia na virtude. Presta conta de tuas ações para agradar ao povo; isto, porém, somente após teres agido, para evitar objeções.

Adota como regra geral - trata-se de um princípio fundamental - nunca te deixares falar inconsideradamente, seja de mal ou de bem, sobre o que quer que seja, nem relatar as ações de ninguém, que elas sejam boas ou más. Pois pode ocorrer que se encontre entre os ouvintes algum amigo daquele de quem falas, que lhe transmitirá teus ditos, agravando-os: imediatamente este homem se sentirá ofendido. Se, ao contrário, te diriges a um inimigo daquele de quem falas bem, atrairás a sua inimizade.

Se é bem verdade ser importante tudo saber, tudo ouvir, ter espiões em toda parte, faze-o com prudência, pois é ofensivo para alguém saber-se espionado. Deves, portanto, espionar sem te deixares ver.

Deve-se evitar demonstrações de excessiva nobreza. Pois alguns verão nisso atitude de desprezo. Dizer, por exemplo, que nada pedes a ninguém, que tens todos os soldados que queres, etc.

É bom não dizer que farás uma política melhor que a dos teus predecessores e que todas as leis serão mais rigorosas, pois alienarás desse modo seus amigos. Mesmo se são justos, não anuncies teus projetos políticos, ou pelo menos fala somente daqueles que saibas por antecipação que serão bem acolhidos.

Eis como agir com teus servidores: não dês a outros o que era privilégio de alguns e não deixes transparecer que divides tua autoridade com um deles, sobretudo se os outros o detestam. Não distingas nenhum deles com recompensas especiais, a menos que todos reconheçam suas virtudes, pois neste caso teu ato motivará a emulação de todos.

Se te for necessário exercer uma certa severidade sobre tua gente, encarrega outros dessa tarefa, fazendo parecer que não és tu que dás as ordens. Assim, no caso de alguns virem a ti com suas queixas, poderás aliviar-lhes as penas e fazer recair toda a responsabilidade sobre quem teve a iniciativa de atos de tamanha severidade. Por exemplo: em caso de afrouxamento da disciplina das forças armadas, confia aos oficiais a tarefa de restabelecer a ordem, determinando-lhes expressamente que inflijam aos soldados tarefas penosas, sem determinar limite ao seu rigor.

Para se remirem aos teus olhos, eles usarão de excessiva severidade dando-te, assim, motivo para que exerças tua benevolência para com os soldados que a ti recorrerem.

A todos aqueles que, por seus feitos, merecerem uma glória plena e inteira, deixa-os triunfarem sozinhos sem reivindicar tua parte. A glória te banhará ainda mais, pois a ela se juntará o mérito de teres estado acima da inveja.

Atribui teus sucessos e vitórias a um outro; por exemplo, a um homem de bem que te houver ajudado com sua clarividência e conselhos. Que o sucesso não te torne orgulhoso. Mantém o mesmo modo de falar, os mesmos hábitos à mesa, o mesmo vestuário. E se tiveres de mudar algo nesses domínios que o faças por uma razão bem precisa.

Se deves punir alguém, leva-o a reconhecer sua culpa. Ou então faze-o julgar por um outro a quem terás secretamente recomendado que pronuncie uma sentença severa, sentença que em seguida poderás amenizar.

Não insultes teu adversário quando de uma derrota dele; não desdenhes teu rival, e contenta-te, quando fores vencedor, da realidade da tua vitória, sem a celebrares com palavras ou gestos.

Se tens a intenção de pronunciares uma sentença capital, recorre a uma formulação ambígua. Por exemplo: fala gravemente a favor do ponto de vista que queres defender, em seguida faz parecer que concluirás a favor do ponto de vista adverso. Ou então reserva para ti tuas conclusões.

Se te pedem para intercederes em favor de alguém em um assunto, aceita, mas ao mesmo tempo mostra que o assunto em questão não depende só de ti, que não tens controle sobre o desenlace final, que poderá ser contrário a tua vontade.

Se deves te vingar, utiliza um terceiro ou age em segredo. Obriga o ofendido a perdoar o ofensor, permitindo que este fuja rapidamente e em segredo.

Se há disputa entre parentes teus, não tomes o partido nem de uns nem de outros, e, sobre o pretexto de que teus negócios te absorvem completamente, desculpa-te junto às duas partes em conflito. Assim, nenhuma delas se sentirá traída, posto que a nenhuma deste tua preferência.

Que não se possa imaginar que participaste junto a teus superiores da elaboração de novas leis, sobretudo se essas leis são impopulares. Evita mostrar-te com muita freqüência junto àquele que detém o poder, conta-lhe, sem te fazeres de rogado, anedotas sem importância e não te vanglories de privares de sua amizade.

Se se constata tua influência sobre os grandes, pensar-se-á, em conseqüência, que és responsável por suas más ações. Portanto, cuida para que teu senhor ouça teus conselhos, escute tuas intervenções, mas só promova grandes mudanças políticas durante tua ausência. Essa preocupação é particularmente importante para os confessores dos príncipes.

Se alguém elogia tua família e teus ancestrais, muda de assunto. Tua modéstia será notada e tua glória não será anuviada pela inveja. Se, ao contrário, te mostrares lisonjeado, suscitarás o ódio.

Não te faças defensor de ações demagógicas. Se fores demitido de uma função, exprime tua satisfação e teu reconhecimento àquele que te restituiu à tranqüilidade que havias reclamado. Procura os argumentos que melhor convençam teus ouvintes. Assim ninguém te insultará na queda.

Não procures abertamente descobrir se alguém te combateu, quem o sustentou na luta contra ti. De teu inimigo, não fales jamais: mas será de importância primordial conhecer todos os segredos dele.

Não te encontres em público com pessoas odiadas por todos e não sejas conselheiro delas.

Que não se saiba que estiveste presente a uma reunião durante a qual se presume que foram tomadas decisões excessivamente rigorosas, mesmos que sejam contra gente sem importância; poder-se-á crer que a iniciativa partiu de ti.

Não revelarás nem criticarás os atos de quem quer que seja, e evitarás olhar de muito perto o modo como os outros executam suas funções. Não vás sem convite aos domínios, gabinetes, estrebarias, e nos lugares em geral onde se poderá suspeitar de que estás espionando.

Se investigas junto a servidores e pajens sobre o senhor deles, toma grandes precauções.

Cuida para que não firam a ninguém tua conduta, teus gestos, teu andar, tuas brincadeiras, o que dizes e o modo como o dizes, teus risos, teus entusiasmos.

Quaisquer que sejam tuas ocupações, se alguém se aproximar, acolhe-o amavelmente e faze-o sentir que é bem-vindo. Mas que ele te desculpe por hoje e volte outro dia. Se queres viver em paz, deverás renunciar a um bom número de comodidades.

Cada vez que ouvires contar diante de ti coisas falsas, deixa falar sem interromper; é inútil mostrar que estás melhor informado. Não recebas jamais alguém com uma brincadeira ou um trocadilho; ele poderá considerar esse modo de agir uma falta de consideração ou forma de zombaria. Se alguém sofreu uma derrota, não zombes dele, ao contrário oferece-lhe desculpas, faze-o falar, procura ajudá-lo.

Não utilizes tuas prerrogativas de juiz para dares ordens a pessoas que são homens livres e não teus súditos.



Breviário dos Políticos - escrito pelo Cardeal Mazarin é parte integrante do livro Conselhos aos Governantes publicado pelo Senado Federal e organizado por Walter Costa Porto. Teve a tradução do francês para o português feita por Roberto Aurélio Lustosa da Costa.



CARDEAL MAZARIN


Giulio Raimondo Mazzarino, ou Jules Mazarin, nasceu em Pescina, Itália, em 14 de julho de 1602.
Aluno dos jesuítas, em Roma, estudou Direito em Alcalá e Madri, na Espanha e, de volta a Roma, em 1624, ingressa no serviço militar do Papa.
Nomeado, pela Santa Sé, vice-legado em Avignon, em 1634, e núncio em Paris, em 1635-6, Richelieu o convoca para o serviço de Luís XIII. Em 1639 alcança a cidadania francesa e, por influência de Richelieu, torna-se cardeal.
Com a morte de Richelieu, Mazarino o sucede, como primeiro-ministro.
Quando morreu em 1661, teria ele, segundo seus biógrafos, concretizado grande parte dos objetivos propostos por Richelieu: a modernização do estado, a restauração do absolutismo, a subjugação da nobreza, a derrota dos Habsburgos e o restabelecimento dos Pirineus e do Reno como as fronteiras naturais da França.
Para Roberto Aurélio Lustosa da Costa, tradutor deste Breviário dos Políticos, sucedem-se, no texto, "momentos de melancolia, cinismo e indiferença, quanto a qualquer valor de ordem moral, só importando a busca perseverante e incansável do poder e de sua sustentação e manutenção".



Direção e Editoria
Irene Serra