Literatura

AÇÕES DOS HOMENS EM SOCIEDADE - Solicitar-
Atenta a que tuas demandas não arruínem teu benfeitor, ou que dele não
exijam esforços excessivos. O melhor partido é indicar simplesmente ao teu
amigo que estás necessitado. O que não obtiveres dessa maneira não obterás
através de pedidos insistentes. Mas limita teu reconhecimento à extensão dos
benefícios que ele te proporciona, significando-lhe desse modo que continuas
a precisar de sua ajuda. Se deves solicitar algo importante, fala de outros
assuntos e faz-lhe compreender através de outra coisa qual o objetivo de
teus desejos.
Aborda os grandes com prudência, pois eles desconfiam
facilmente que se procura dirigi-los; emprega intermediários e escolhe para
este efeito gente bem-nascida; por exemplo: faz intervir um filho junto ao
pai, caso, evidentemente, os interesses dele não concorram com os teus.
O melhor momento para apresentar um pedido é quando teu amigo está de
bom humor, num dia de festa ou depois de uma refeição, na condição, todavia,
de que ele não esteja dormitando. Evita fazer tua solicitação a um homem
mergulhado em um turbilhão de negócios ou abatido pelo cansaço. Evita também
pedir muitas coisas ao mesmo tempo.
Se defendes os interesses de
alguém, quando o acompanhares em aparições públicas trata-o formalmente,
como a um estranho. Restringe teus contatos com ele a raras e breves
entrevistas, a fim de deixares bem claro que ages por amor à causa pública e
não em vista de interesses particulares.
Adapta teu modo de agir à
pessoa com quem negocias. Fala de ganhos e perdas aos avaros, de Deus e de
glória aos devotos e, aos jovens, de triunfos e vergonhas públicos. Não
peças ao senhor alvarás ou privilégios, coisas sempre demoradas de obter.
Redige tu mesmo o documento que lhe darás em um momento oportuno para que
ele o assine.
Não peças a alguém um objeto raro e estimado, sobretudo
se não te for útil. Em caso de recusa, teu amigo acreditará te haver magoado
e te guardará rancor, pois humano é odiar aquele a quem se feriu. Se te
atender, tratar-te-á com frieza, como a um solicitante indelicado.
Como é sempre humilhante amargar uma recusa, não pede nada que não estejas
certo de obter. E por isso, também, é preferível nada pedir diretamente e
sugerir o que precisas.
Se alguém procurar obter uma honraria que
estás disputando, envia-lhe um emissário secreto para dissuadi-lo em nome de
sua amizade e para mostrar-lhe as dificuldades que ele terá de enfrentar.
Breviário dos Políticos - escrito pelo Cardeal Mazarin é parte integrante do livro Conselhos aos Governantes publicado pelo Senado Federal e organizado por Walter Costa Porto. Teve a tradução do francês para o português feita por Roberto Aurélio Lustosa da Costa.
CARDEAL MAZARIN
Giulio Raimondo Mazzarino, ou Jules Mazarin, nasceu em Pescina, Itália, em 14 de julho de 1602.
Aluno dos jesuítas, em Roma, estudou Direito em Alcalá e Madri, na Espanha e, de volta a Roma, em 1624, ingressa no serviço militar do Papa.
Nomeado, pela Santa Sé, vice-legado em Avignon, em 1634, e núncio em Paris, em 1635-6, Richelieu o convoca para o serviço de Luís XIII. Em 1639 alcança a cidadania francesa e, por influência de Richelieu, torna-se cardeal.
Com a morte de Richelieu, Mazarino o sucede, como primeiro-ministro.
Quando morreu em 1661, teria ele, segundo seus biógrafos, concretizado grande parte dos objetivos propostos por Richelieu: a modernização do estado, a restauração do absolutismo, a subjugação da nobreza, a derrota dos Habsburgos e o restabelecimento dos Pirineus e do Reno como as fronteiras naturais da França.
Para Roberto Aurélio Lustosa da Costa, tradutor deste Breviário dos Políticos, sucedem-se, no texto, "momentos de melancolia, cinismo e indiferença, quanto a qualquer valor de ordem moral, só importando a busca perseverante e incansável do poder e de sua sustentação e manutenção".
Direção e Editoria
Irene Serra
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