Literatura

AÇÕES DOS HOMENS EM SOCIEDADE - Ler, escrever -
Se deves escrever em um
lugar muito frequentado, coloca diante de ti, em posição vertical, uma folha
escrita, como se a estivesses copiando. Que ela fique bem visível a todos.
Coloca deitadas as folhas nas quais realmente escreves e recobre-as,
deixando visível apenas uma linha de uma página na qual terás efetivamente
recopiado algumas linhas, e que todos que por ali passarem poderão ler. As
folhas já escritas, esconde-as sob um livro ou sob outra folha, ou ainda
coloca-as atrás da folha posta em posição vertical.
Se alguém te
surpreende lendo, vira imediatamente várias páginas de uma vez, para que não
adivinhe qual o objeto de teu interesse. Mas é preferível ter diante de ti
uma pilha de livros, de modo que quem te espionar não saberá qual deles
estás lendo. Se alguém se aproxima enquanto lês ou escreves uma carta,
alguém aos olhos de quem essas atividades possam te tornar suspeito,
imediatamente, de modo a parecer que tenha algo a ver com o livro ou a
carta, faze-lhe uma pergunta sem qualquer relação com tua ocupação naquele
momento. Como se, por exemplo, escrevesses a alguém que te houvesse pedido
para guiá-lo, etc. Interroga esse hóspede inesperado: "Como me manifestarei
sobre este caso que me submeteram? Ele exige prudência e sabedoria." Podes
também perguntar sobre as últimas novidades, para - dirás pretender -
reportá-las em tua carta. Age de acordo com os mesmos princípios, quando
fizeres contas ou leres um livro.
Resigna-te a escrever de próprio
punho os documentos que pretendes manter secretos, a menos que utilizes uma
linguagem cifrada. Mesmo nesse caso, deves utilizar uma linguagem legível e
inteligível por todos, como aquela proposta por Trittenheim em sua
Polygraphia. É o método mais seguro, se não quiseres escrever tu mesmo esses
documentos, pois uma linguagem cifrada que oferece um texto ilegível provoca
a suspeição e o teu documento será interceptado se o deres a um outro para
escrever. A única solução será, então, codificá-lo tu mesmo.
Breviário dos Políticos - escrito pelo Cardeal Mazarin é parte integrante do livro Conselhos aos Governantes publicado pelo Senado Federal e organizado por Walter Costa Porto. Teve a tradução do francês para o português feita por Roberto Aurélio Lustosa da Costa.
CARDEAL MAZARIN
Giulio Raimondo Mazzarino, ou Jules Mazarin, nasceu em Pescina, Itália, em 14 de julho de 1602.
Aluno dos jesuítas, em Roma, estudou Direito em Alcalá e Madri, na Espanha e, de volta a Roma, em 1624, ingressa no serviço militar do Papa.
Nomeado, pela Santa Sé, vice-legado em Avignon, em 1634, e núncio em Paris, em 1635-6, Richelieu o convoca para o serviço de Luís XIII. Em 1639 alcança a cidadania francesa e, por influência de Richelieu, torna-se cardeal.
Com a morte de Richelieu, Mazarino o sucede, como primeiro-ministro.
Quando morreu em 1661, teria ele, segundo seus biógrafos, concretizado grande parte dos objetivos propostos por Richelieu: a modernização do estado, a restauração do absolutismo, a subjugação da nobreza, a derrota dos Habsburgos e o restabelecimento dos Pirineus e do Reno como as fronteiras naturais da França.
Para Roberto Aurélio Lustosa da Costa, tradutor deste Breviário dos Políticos, sucedem-se, no texto, "momentos de melancolia, cinismo e indiferença, quanto a qualquer valor de ordem moral, só importando a busca perseverante e incansável do poder e de sua sustentação e manutenção".
Direção e Editoria
Irene Serra
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