Literatura

AÇÕES DOS HOMENS EM SOCIEDADE - Arrancar segredos, conhecer as intenções que se escondem -
Arrancar segredos
Não desdenhes conversar com homens de baixa
extração: uma tal marca de benevolência os seduzirá e se, de outra parte, tu
lhes dás um pouco de ouro, eles te dirão tudo o que quiseres. Age do mesmo
modo com os pajens, mas sabendo que corres grandes riscos. Deves recomendar
aos servidores que traem seus senhores a desconfiarem uns dos outros; porém
respeita escrupulosamente os compromissos que venhas a assumir com eles,
para que mantenham a confiança em ti. E não empregues imediatamente
informações que eles te houverem fornecido.
Conhecer as intenções que
se escondem por trás das palavras
Em primeiro lugar, escuta as razões
alegadas por aquele que defende uma causa e vê se têm fundamento. Em
seguida, observa como esse homem age ordinariamente e, em consequência,
verifica se há razões, nesse caso particular, para suspeitar dele. Assim,
alguém que começa a falar inflamadamente, quando sabes que não se inflama
nunca por nada, não está exprimindo sua opinião pessoal. Ou ainda: um homem
que mudar bruscamente de opinião e usar do mesmo ardor, para em seguida
defender aquilo que atacava momentos antes, visivelmente foi comprado. Se,
uma vez convencido de seu erro, mantém a mesma posição, é que ele não age
motivado pelas razões que alega. Do mesmo modo, se seu discurso inflamado se
apoia em argumentos sutis ou muito elaborados, em sofismas contrários ao seu
caráter, ou em razões insubsistentes. Acontece também que nosso homem
emprega, para defender o mesmo ponto de vista, argumentos contraditórios no
princípio e no fim de sua demonstração. Pois o que dizemos sem pensar
esquecemos imediatamente.
Envia-lhe, pois, alguém para tornar-se seu
amigo e que o interrogue jurando segredo: ele lhe confessará toda uma outra
verdade.
Breviário dos Políticos - escrito pelo Cardeal Mazarin é parte integrante do livro Conselhos aos Governantes publicado pelo Senado Federal e organizado por Walter Costa Porto. Teve a tradução do francês para o português feita por Roberto Aurélio Lustosa da Costa.
CARDEAL MAZARIN
Giulio Raimondo Mazzarino, ou Jules Mazarin, nasceu em Pescina, Itália, em 14 de julho de 1602.
Aluno dos jesuítas, em Roma, estudou Direito em Alcalá e Madri, na Espanha e, de volta a Roma, em 1624, ingressa no serviço militar do Papa.
Nomeado, pela Santa Sé, vice-legado em Avignon, em 1634, e núncio em Paris, em 1635-6, Richelieu o convoca para o serviço de Luís XIII. Em 1639 alcança a cidadania francesa e, por influência de Richelieu, torna-se cardeal.
Com a morte de Richelieu, Mazarino o sucede, como primeiro-ministro.
Quando morreu em 1661, teria ele, segundo seus biógrafos, concretizado grande parte dos objetivos propostos por Richelieu: a modernização do estado, a restauração do absolutismo, a subjugação da nobreza, a derrota dos Habsburgos e o restabelecimento dos Pirineus e do Reno como as fronteiras naturais da França.
Para Roberto Aurélio Lustosa da Costa, tradutor deste Breviário dos Políticos, sucedem-se, no texto, "momentos de melancolia, cinismo e indiferença, quanto a qualquer valor de ordem moral, só importando a busca perseverante e incansável do poder e de sua sustentação e manutenção".
Direção e Editoria
Irene Serra
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