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01/08/2026
Ano 30 - Nº 1.517

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

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Era uma vez a princesa
Maristela que nunca se olhava no espelho... Era uma vez um sapo cururu
que só sabia pular para trás... Era uma vez a bruxa Coralina que perdeu
a memória e não conseguia mais preparar poções mágicas nem venenos...
Era uma vez um califa de nome Kaifaz que tinha cento e noventa e oito
esposas...
Possivelmente, em todas as línguas, a expressão “Era
uma vez...” é compreendida como o início clássico de uma história, senão
infantil, senão juvenil, senão para todas as idades.
Um contador
de histórias pode pegar essa centelha mágica da expressão “Era uma
vez...” e transformá-la em espécie de cunha para abrir um caminho no
rumo que quiser e na conveniência do ouvinte ou do leitor da vez.
Caminho esse que pode ser trágico, filosófico, moralista, diabó1ico,
cômico ou... da conveniência da vez...
E há mil e tantas maneiras
de fazer isso, sem censuras nem fronteiras espaciais ou de crendices,
porque o poder da imaginação é prodigioso, capaz de criar ou destruir
deuses, mitos, mundos, personagens. De reinventar o tempo, fazê-lo andar
pra frente ou pra trás sem qualquer cerimonial, bem como de iludir a
memória e até mesmo ultrapassá-la, sobretudo se o contador de histórias
conseguir recolher-se e ficar só consigo mesmo ou, talvez, com os seus
fantasmas interiores.
É verdade que o processo criativo em
qualquer arte exige inspiração, concentração, sobretudo recolhimento e
foco específico durante as urdiduras da criação. Levando em consideração
somente artes clássicas, e considerando o escritor como artista, acho
que este precisa de maior recolhimento, talvez, do que o escultor, do
que o pintor, do que o compositor (aqui, essa repetição da expressão "do
que" é proposital e o leitor fará suas próprias inferências disso). Por
quê?
Talvez porque tais artistas trabalham com matéria palpável:
bloco de mármore, pedaço de madeira, bacia com argamassa, tela com
esboços, paleta com tintas, cores, pincéis, matizes, ou, no caso dos
músicos, com pautas alvitrando desejáveis sons, escalas, ritmos. Enfim,
todos dependentes de matérias-primas que permanecem mais ou menos
imutáveis, limitadas ou fixas, nos limites dimensionais do espaço e
tempo no estúdio em que criam suas obras.
Nessas condições,
digamos, quase imutáveis, o pintor, o escultor, o compositor podem vagar
um tempo impreciso fora dos seus trabalhos criativos, interrompê-los
aqui e ali, fazerem outra coisa qualquer (até mesmo atender a outro
chamado inspirativo), mas sempre e quando desejarem podendo voltar ao
ponto onde deixaram as suas obras para retomá-las sem grandes perdas,
pois o bloco de mármore não sairá correndo porta afora, o cavalete do
pintor não saltara de onde está, a pauta do compositor não emudecera os
sons representados pelas notas musicais ali figuradas.
Mas o que
sucede com o escritor, com o inventor de histórias? Bem, a matéria-prima
das histórias é o lampejo incrível da imaginação. Isso mesmo: lampejo
incrível! O contador de histórias trabalha com a fugacidade dos
pensamentos, está sempre correndo atrás deles, nunca ao lado nem na
frente, mas entre o céu e o inferno da imaginação.
Por isso, o
escritor precisa registrar imediatamente (seja lá como for e consiga) no
papel ou na pedra, ou na areia, ou na tela de qualquer geringonça
tecnológica, ou no tronco da arvore, ou no lenço, ou na toalha ou
guardanapo do restaurante, ou na fronha do travesseiro, ou na colcha da
cama, ou na própria roupa que veste, ou no livro que lê, ou na borda da
tatuagem corporal, ou no bloco de notas que inventa ou aparece por
encanto. Enfim, insisto, o escritor necessita guardar uma ideia, um jogo
de palavras, uma trama, um drama, o piscar inquiridor de um personagem,
os apetrechos, maiores, menores e pormenores de um cenário - porque tais
fantasias só existem vagando no universo particular de suas fabulações e
podem se dispersar tão rapidamente quanto surgiram, esfumando-se
diabolicamente para nunca mais voltar
Transpondo esses argumentos
ao correr da pena para a literatura maiúscula de Jorge Luis Borges, o
grande escritor argentino, talvez por constatar a fugacidade da criação
literária, ele construiu contos onde fantasmas habitam losangos,
bibliotecas ou labirintos, mas vivem e sofrem apenas de palavras,
palavras, palavras. Na mesma linha de ideias, vamos encontrar na
monumental obra de Ernesto Sabato: “Ambígua e angustiada, a alma sofre
entre a carne e a razão, dominada pelas paixões do corpo mortal e
aspirando a eternidade do espírito, perpetuamente vacilante entre o
relativo e o absoluto, entre a corrupção e a imortalidade, entre o
diabólico e o divino. A arte e a poesia surgem dessa confusa região e
graças a essa mesma confusão: um deus não escreve romances".
Enfim... Era uma vez um arrastão de textos com ficção de verdade...
(Texto arrastado do meu livro inédito
engavetado Liberdades da memória)
Rio Total,
01/10/2019 Ano 22 - Número 1.143
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Direção e
Editoriabr>
Irene Serra

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