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16/07/2026
Ano 29 - Nº 1.515

ARQUIVO
CARLOS TRIGUEIRO

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Texto arrastado do livro inédito e
engavetado Liberdades da memória
Vivi um tempo no
Oriente. Ali, a reverência natural aos mais velhos faz parte da cultura
milenar. No meu pragmatismo ocidental, sem presunção antropológica ou
burocrática, interpretava o costume como honroso reconhecimento à
experiência de vida acumulada.
Não à toa, a vida na caserna, em
qualquer quadrante terreno, constitui repositório dos segredos e artes
milenares da guerra - desfecho das mais antigas e organizadas
manifestações da condição humana e, por isso, diz o jargão que
“antiguidade é posto”.
Quando retornei aos quadrantes ocidentais,
tive muitas oportunidades de refletir sobre as tentativas
epistemológicas para saber explicar a sabedoria da experiência, porém
jamais pude imaginar que encontraria as melhores respostas aos meus
questionamentos no próprio âmbito familiar.
Sim, tenho por hábito
e carinho, visitar minha mãe nonagenária, quase centenária. Não é nem de
longe pessoa comum. Vive só, faz, lava e passa o que veste, cozinha a
sua comida, limpa o que acha que deve ser limpo em seu pequeno
apartamento deixado por meu falecido pai. Pedala máquina de costura
possivelmente da sua idade. Dorme cedo. Desperta quando lhe apraz. Fala
ao telefone com alguns poucos de seus conhecidos contemporâneos, e com
filhos, netos, sobrinhos. Não tem irmãos sobreviventes. Não raro vai a
pé, ali por perto, comprar o que necessita nas quitandas do subúrbio
onde vive, ou nos raros armazéns ou bodegas que resistiram às investidas
dos supermercados.
Se algum dos filhos lhe diz que na sua idade é
conveniente (e até imprescindível) manter uma acompanhante ou empregada
fixa, principalmente à noite, rejeita a ideia e muda de assunto fingindo
surdez maior do que a perda comum à sua idade. Para distrair-se, folheia
revistas antigas e cativaram no tempo certo a sua atenção e, às vezes,
algum jornal mais ou menos atualizado que compra na banca mais próxima.
Ouve rádio à moda antiga: noticiários, previsão do tempo, horóscopo,
música popular ou sertaneja. Raramente liga a televisão. Tem suas
próprias crenças e descrenças, pois mantém no quarto de dormir antigo
móvel tipo santuário com imagens pra lá de antigas, santinhos com
orações no verso e imagens trazidas de templos visitados faz tempo. Crê
em Deus ao seu modo e reza antigas orações.
Nas paredes da
pequena sala, coleciona em painéis desprovidos de requintes simétricos,
dezenas, aliás, centenas de fotografias em preto e branco ou coloridas,
dos familiares de várias gerações a testemunhar fases distintas da sua
vida.
Na parte do miúdo apartamento que chama de área de serviço
e é contígua à pequena cozinha, distribui em prateleiras seus remédios
caseiros: cascas de laranja da terra, cipó tuíra, sementes de mururé que
o seu pai colocava no copinho de cachaça artesanal “pra matar os bichos
lá por dentro, inclusive reumatismo” antes ou depois das refeições, e
também pó de guaraná ralado em língua de pirarucu seca, sementes de
sucupira e coisas do gênero.
Mas um dos seus mais surpreendentes
comportamentos de que me lembro foi numa de minhas visitas enquanto
conversávamos sobre um pouco de tudo, inclusive religião. Nascida e
criada sob a cultura do catolicismo, perguntei-lhe se ainda ia a alguma
igreja ali por perto.
Respondeu-me que ia poucas vezes à igreja e
só ali entrava “quando não havia Padre”. Diante da singularidade da
resposta insisti: "Mas por que não entra na igreja quando tem Padre?".
Ela respondeu-me do alto da idade da sabedoria: "Padres falam muita
besteira!"
Comentários sobre o texto podem ser encaminhados ao autor, no email
carlostrigueiro28@gmail.com
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Direção e
Editoria
Irene Serra

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