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14/06/2013
Ano 16 - Número 844

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ARQUIVO AMORIM

Luiz Carlos Amorim
em Expressão Poética

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Luiz Carlos Amorim
COISAS DE SANTA CATARINA E DE PORTUGAL
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Andando por Portugal, descobri coisas comuns, como já houvera descoberto de
outras vezes, coisas de lá que temos também aqui no Brasil. Afinal,
Florianópolis, São Francisco, Laguna e outras cidades são de colonização
açoriana. Comi, em Lisboa, a tradicional sardinha assada e vi como se faz a
açorda. Eu ouvia minha vó pequena falar da tal açorda, mas a impressão que eu
tinha era de ouvir ela dizer “sôlda”, assim, com o som do “o” fechado.
Esse foi mais um ponto de convergência, de identificação de coisas de Portugal
com as coisas daqui. Lembro que minha avó Estefânia, a “vó pequeninha”, fazia a
açorda parecida com a que se faz em Portugal. E é bom lembrar da infância,
lembrar da minha avó pequeninha, aquela criatura magnífica. Ela colocava água
numa panela, colocava sal e temperos verdes e, por fim, colocava algumas
sardinhas. Assim que a água fervia, ela tirava as sardinhas, separava e
quebrava dois ou três ovos no caldo, conforme quantas pessoas fossem comer.
Tirava os ovos tipo pochê da panela, colocava caldo em um prato e acrescentava
pão em pedaços ou farinha de mandioca. Então servia uma sardinha e um ovo por
cima de tudo e servia. É bom frisar que o pão rasgado em nacos é condição sine
qua non na açorda.
Vó pequeninha adorava este prato e se deliciava com ele. Pois a açorda feita em
Portugal não é muito diferente, a não ser pela farinha de mandioca, que minha
avó usava em Corupá e em Portugal não se coloca nesse prato – o peixe, que ao
invés de sardinha é bacalhau – pequena diferença, não é? – e o tempero verde
que lá é coentro, que eu nem conhecia e só agora, recentemente, descobri que
detesto. É que em alguns lugares de Portugal fui servido com bacalhau temperado
generosamente com coentro e quase não conseguir comer.
Não sei se hoje em dia o prato ainda é conhecido por aqui, mas para quem não
conhece, vale a pena experimentar. Podemos usar um peixe daqui ou o bacalhau,
como em Portugal e até temperar com o coentro, que já é apreciado também por
aqui.
Para mim, foi muito bom relembrar a açorda, pois lembrei também da minha vó
pequeninha, aquela mulher realmente pequeninha, que nem sequer sabia ler e
escrever, mas era uma pessoa verdadeiramente sábia. Ela morava para além do
cemitério de Corupá e ia de sua casa até a igreja, quase todos os dias,
cantarolando. Grande parte do caminho não tinha iluminação e ela passava,
inclusive, por dentro do cemitério. E lá ia ela, sempre cantando. Toda a cidade
a conhecia pela sua cantoria, que revelava serenidade e paz de espírito.
A açorda me trouxe de volta a memória de minha avó, pessoa das mais marcantes e
da qual nunca vou esquecer.
(14 de junho/2013)
CooJornal nº 844
Luiz Carlos
Amorim,
escritor, poeta e editor
Coordenador do
Grupo
Literário A ILHA
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