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08/03/2012
Ano 15 - Número 777

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"Amigo da Cultura"


ARQUIVO AMORIM

Luiz Carlos Amorim
em Expressão Poética

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Luiz Carlos Amorim
ALGUMA FELICIDADE
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Às vezes, sinto-me um pouco
culpado por ter a felicidade de poder olhar nossa Xuxu deitadinha em sua
manta, dormindo serena, sem sentir dor, sem se lamentar por quase não
enxergar, por ouvir muito, muito pouco, por quase não ter mais faro. O mundo
lá fora anda conturbado, mas nossa pinscher de dezessete anos – quase cem anos
em idade de humano – é um bálsamo que ajuda a curar as feridas e traz ternura
aos nossos corações. Nossas filhas já estão adultas, têm a sua própria vida,
já saíram do ninho, mas Xuxu continua aqui, a nossa eterna criança. É curioso
que, nessa história dos filhotes que deixam o ninho, Xuxu também sente a falta
deles, como se fossem os filhotes dela. Minha filha Daniela está em Lisboa,
fazendo um Mestrado, mas Fernanda está mais perto, em Ribeirão Preto, onde
mora com o marido. Então é mais fácil nos visitarmos, ainda que não muito
frequentemente. Ela, Fernanda, veio passar o carnaval aqui e Xuxu fez a maior
festa ao vê-la chegar. Não desgrudou mais dela e, quando ela saiu, ficou
dormindo enrolada em uma manta da filha. É uma coisa de química, de alma, sei
lá, porque mesmo enxergando muito pouco, não sentindo cheiros e ouvindo quase
nada, Xuxu reconheceu Fernanda imediatamente. É uma coisa que não dá para
explicar, é apenas para se aceitar. Xuxu esteve muito doente, recentemente,
pensamos até que a filhota não ia mais encontrá-la quando chegasse. Mas ela
foi medicada e está comendo bem de novo, está se recuperando e os analgésicos
não deixam que ela sinta dor. É bem verdade que é difícil enganá-la,
escondendo o remédio na comida, mas até agora estávamos conseguindo que ela
comesse. Hoje ela recusou a comida com remédio. Vamos ver como é que fica.
Porque é muito triste ter que segurá-la para colocar o remédio na sua boca e
fazê-la engolir. Ela é muito forte, apesar da idade e, às vezes, uma pessoa só
não consegue segurá-la. A verdade é que o veterinário nos disse que não é
recomendável segurá-la com força, porque podemos quebrar algum osso dela, pois
ela tem reabsorção óssea. De maneira que é preciso deixá-la com muita fome
para ela aceitar a comida com o remédio misturado, pois ela deve perceber o
gosto diferente, não muito agradável. E é tão importante que ela coma, quanto
que tome os remédios, para ficar bem e para sair latindo pela casa, como se
tivesse apenas quatro ou cinco anos. Xuxu está velhinha, velhinha, mas ainda é
a nossa bebê. Somos privilegiados por tê-la conosco, ainda, e isso nos faz
feliz. Mais felizes ainda por ter nossa filharada por perto, ainda que
esporadicamente.
(08 de março/2012)
CooJornal nº 777
Luiz Carlos
Amorim,
escritor, poeta e editor
Coordenador do
Grupo
Literário A ILHA
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lc.amorim@ig.com.br
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