E o Conselho Nacional de Educação
aprovou, neste mês de maio de 2011, mudanças no Ensino Médio – o Ministério da
Educação ainda precisa homologar, mas parece que está tudo arranjado.
Estive verificando as mudanças e não gostei nada do que vi. Fizeram mudanças
no Ensino Fundamental, na década passada, e o resultado não foi bom: a
alfabetização, que sempre foi eficiente, agora tem uma sistemática totalmente
diferente. Ensina-se às crianças primeiro a escrever com letra de forma, o que
torna um problema ensinar-lhes a escrita cursiva. Antes ensinava-se a letra de
imprensa apenas para o reconhecimento dos caracteres impressos no livros e
outras publicações. As famílias de sílabas, que iniciavam as crianças na
leitura das palavras, não são mais usadas, elas tem que reconhecer o encontro
de consoantes e vogais “por repetição”, meio por simbiose, pois são jogadas
sílabas para elas formarem palavras, por exemplo, sem que saibam o que está
escrito. Por isso, temos crianças, hoje, no terceiro ano do ensino fundamental
que não sabem ler e escrever. E como não existe mais reprovação, também uma
das novidades do novo sistema, elas seguem em frente de qualquer maneira,
mesmo que não tenham conseguido acompanhar o conteúdo dado.
Agora querem mudar o Ensino Médio, que já não é o ideal e que, pelo visto, não
vai ficar melhor. A mudança prevê, entre outras coisas, o aumento de três para
quatro anos a duração do ensino médio noturno. Novidade que poderia ser boa,
se não houvessem ambiguidades no projeto.
Para dar mais “autonomia”, cada escola poderá escolher entre quatro áreas de
atuação para focar o seu currículo e poderá aumentar ou diminuir o número de
horas-aula das disciplinas fundamentais, como português ou matemática. Uma
escola de uma região industrial, por exemplo, pode focar seu currículo na área
de tecnologia e reduzir a carga horária de disciplinas como física e química.
Tudo ótimo, mas e quem vai fiscalizar se isso está sendo feito corretamente?
Porque me parece mais que o Ministério da Educação (o governo do país, na
verdade) está se desobrigando da responsabilidade da qualidade da educação
brasileira, para colocá-la nas costas das próprias escolas. Algo como: a culpa
da má qualidade do ensino médio não é nossa, é da escola que não soube usar a
“flexibilização” que oferecemos.
Outra dúvida: um Estado ou uma cidade, ou uma escola de uma determinada região
escolhe priorizar algumas disciplinas, em detrimento de outras. Os estudantes
que saírem dessa escola terão dificuldades não só para conseguir acesso à
universidade, seja por vestibular ou Enem, mas também para se manterem nela,
para acompanhar o currículo, se conseguirem entrar no ensino superior.
Ah, mas com essa coisa de aumento de matérias aqui, diminuição de outro tanto
acolá, aumento de carga horária de algumas e diminuição de outras, o projeto
prevê uma saída sensacional: O CNE aprovou que a escola pode trabalhar até 20%
de conteúdo à distância. Não é sensacional? A escola aumenta a quantidade de
disciplinas ou de carga horária delas, mas não precisa dar a aula.
Um outro projeto de lei, aprovado pelo Senado, eleva de 800 para 960 horas a
carga horária mínima anual para o Ensino Fundamental e para o Ensino Médio. Se
os dois projetos vão conviver, por que não foi tudo proposto num projeto só? A
previsão de aumentar de 3 para quatro anos a duração do segundo grau noturno e
a proposta de aumento de carga horária é a mesma coisa? E, cá pra nós, uma
coisa muito importante não é prevista em nenhum dos dois projetos que foram
aprovados: não se fala na adaptação dos professores para todas essas mudanças,
na adequação para a implantação de tantas mudanças, muito menos em salário.
Não sei não, parece que querem piorar ainda mais o Ensino Médio, ou será
impressão minha?