Li a crônica da última
quinta-feira da minha amiga Mary Bastian e não posso deixar de registrar que
li e que gostei imenso da forma como ela partiu de um poema de Quintana para
falar das chuvas intensas que se abateram sobre Santa Catarina nessa terceira
semana de 2011.
Que Quintana é o meu poeta favorito, seguido de Coralina e Pessoa, todo mundo
sabe. Mas sou também fã de carteirinha da minha amiga Mary, cronista de mão
cheia. Ela, magistralmente, sacou de um poema dos mais singelos e ao mesmo
tempo mais profundos do poeta passarinho e num dedilhar de teclado rápido, lá
estava a crônica homônima do poema, “Canção da Garoa”. Falando de anjos
molhados, chuva no telhado, soluços... e de chuvas torrenciais, do descaso do
ser humano para com o meio ambiente, para com a natureza, desta mesma natureza
se rebelando contra o pouco caso de nós, filhos dela, Mãe Natureza, a quem
deveríamos respeitar e proteger.
E ela fecha assim a crônica: “Espero que em cima do meu telhado haja um anjo
todo molhado, aí vou convidá-lo pra entrar, secar suas asas, dar um cafezinho
e ouvi-lo tocar no seu flautim uma musiquinha mais alegre. Sem soluços.” Só a
Mary, com toda a sua sensibilidade e lirismo para ter uma visão assim, para
alegrar o anjo triste e acabar com a chuva molhada.
Para quem ainda não conhece, transcrevo “Canção da Garoa”, de Quintana, uma
das obras primas dele: “Em cima do meu telhado, / Pirulin lulin lulin, / Um
anjo, todo molhado, / Soluça no seu flautim. / O relógio vai bater; / As molas
rangem sem fim. / O retrato na parede / Fica olhando para mim. / E chove sem
saber por quê... / E tudo foi sempre assim! / Parece que vou sofrer: / Pirulin
lulin lulin...”
Pena que nossa chuva, sem anjo e sem flautim, chove do jeito que está chovendo
e sabe por quê. E nós também. Obrigado, Mary, por nos fazer refletir um pouco
sobre o que está acontecendo, com a ajuda do nosso grande poeta.
Os administradores de nossas cidades deveriam ler a sua crônica para se
conscientizarem de que é preciso fazer o seu papel, qual seja impedir que se
construa em áreas de risco, para que a natureza não tenha que lhes mostrar que
não fizeram seu trabalho direito. A natureza não é culpada pelas tragédias
climáticas que estão acontecendo. Nós, seres humanos, é que provamos tudo,
destruindo o ar, o meio ambiente, a água, a terra e o mar. Nós poluímos tudo.
E é hora de parar, ou as forças da natureza continuarão se rebelando e a vida
humana cessará de existir na face da Terra.