Começou o inverno, mas desde o
outono, quando o frio ainda não havia chegado, as flores de jacatirão de
inverno – o manacá-da-serra – já tinham começado a florescer. Os
manacás-da-serra não são tão numerosos quanto o jacatirão nativo, que floresce
no fim da primavera e vai até meados do verão, mas desabrocham lindamente
nessa época e colorem e alegram nossos dias frios, até os mais chuvosos,
quando a gente não tem coragem de botar a cara pra fora de casa.
Inverno não é estação de flores. Não é? Pois floresce o jacatirão de inverno,
floresce a azaléia, floresce o flamboiã, floresce o amor-perfeito e outras
mais. Então não é, também, uma estação de muitas cores?
No meu jardim, reduzido jardim, único pedacinho de terra desnuda no meu
terreno, tenho meus pés de manacá-da-serra. E eles também estão florescendo
espetacularmente, dando um ar de felicidade à frente da minha casa. São muito
jovens, pequenos, eu diria quase anões, coisa de menos de um metro de altura.
Mas desabrocham muitas e muitas flores, com aquelas pétalas grandes que se
abrem brancas e depois vão mudando de cor, passando para o vermelho, num
degradê rápido, até chegar ao lilás.
Perto de onde moro existem outros jardins com manacás-da-serra (ou jacatirão
de inverno). No supermercado, um pouco mais adiante, existem até majestosas
árvores de uns 4 ou cinco metros de altura e por toda a cidade a gente
encontra a cor do jacatirão. Mas parece que só eu as vejo. Ninguém comenta,
ninguém para um segundinho para admirá-las e eu fico um pouco triste com essa
perda da capacidade do ser humano de ver o belo. De olhar e ver.
No supermercado do qual falei acima, por exemplo, existiam cinco árvores
fabulosas, mas no ano passado duas secaram. Uma terceira está com os galhos
secos da metade para baixo e florida da metade para cima. Só ficaram duas
saudáveis, esplêndidas telas coloridas de Mãe Natureza. E ninguém parece ter
visto a tremenda perda ou mesmo a beleza das sobreviventes.
Então leio um poema de Quintana e chego à conclusão de que ele, o poeta
passarinho, talvez tenha razão, mais uma vez: “Todos os jardins deviam ser
fechados, / com altos muros de um cinza muito pálido, / onde uma fonte /
pudesse cantar / sozinha / entre o vermelho dos cravos. / O que mata um jardim
não é mesmo / alguma ausência / nem o abandono... / O que mata um jardim é
esse olhar vazio / de quem por eles passa indiferente.”
Pois então não será isso? Não será por isso que árvores tão belas quanto os
pés de jacatirão morrem e a gente fica sem as suas cores?