31/07/2010
Ano 13 - Número 695





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ARQUIVO AMORIM

Luiz Carlos Amorim
em Expressão Poética

 

Luiz Carlos Amorim
 


JACATIRÕES NO JARDIM




 

Começou o inverno, mas desde o outono, quando o frio ainda não havia chegado, as flores de jacatirão de inverno – o manacá-da-serra – já tinham começado a florescer. Os manacás-da-serra não são tão numerosos quanto o jacatirão nativo, que floresce no fim da primavera e vai até meados do verão, mas desabrocham lindamente nessa época e colorem e alegram nossos dias frios, até os mais chuvosos, quando a gente não tem coragem de botar a cara pra fora de casa.

Inverno não é estação de flores. Não é? Pois floresce o jacatirão de inverno, floresce a azaléia, floresce o flamboiã, floresce o amor-perfeito e outras mais. Então não é, também, uma estação de muitas cores?

No meu jardim, reduzido jardim, único pedacinho de terra desnuda no meu terreno, tenho meus pés de manacá-da-serra. E eles também estão florescendo espetacularmente, dando um ar de felicidade à frente da minha casa. São muito jovens, pequenos, eu diria quase anões, coisa de menos de um metro de altura. Mas desabrocham muitas e muitas flores, com aquelas pétalas grandes que se abrem brancas e depois vão mudando de cor, passando para o vermelho, num degradê rápido, até chegar ao lilás.

Perto de onde moro existem outros jardins com manacás-da-serra (ou jacatirão de inverno). No supermercado, um pouco mais adiante, existem até majestosas árvores de uns 4 ou cinco metros de altura e por toda a cidade a gente encontra a cor do jacatirão. Mas parece que só eu as vejo. Ninguém comenta, ninguém para um segundinho para admirá-las e eu fico um pouco triste com essa perda da capacidade do ser humano de ver o belo. De olhar e ver.

No supermercado do qual falei acima, por exemplo, existiam cinco árvores fabulosas, mas no ano passado duas secaram. Uma terceira está com os galhos secos da metade para baixo e florida da metade para cima. Só ficaram duas saudáveis, esplêndidas telas coloridas de Mãe Natureza. E ninguém parece ter visto a tremenda perda ou mesmo a beleza das sobreviventes.

Então leio um poema de Quintana e chego à conclusão de que ele, o poeta passarinho, talvez tenha razão, mais uma vez: “Todos os jardins deviam ser fechados, / com altos muros de um cinza muito pálido, / onde uma fonte / pudesse cantar / sozinha / entre o vermelho dos cravos. / O que mata um jardim não é mesmo / alguma ausência / nem o abandono... / O que mata um jardim é esse olhar vazio / de quem por eles passa indiferente.”

Pois então não será isso? Não será por isso que árvores tão belas quanto os pés de jacatirão morrem e a gente fica sem as suas cores?
 


(31 de julho/2010)
CooJornal no 695