
07/11/2009
Ano 12 - Número 657
ARQUIVO AMORIM

Luiz Carlos Amorim
em Expressão Poética
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Luiz Carlos Amorim
PITUXA
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Minha cadelinha Pituxa, uma pinscher preta com gravata, meias e luvas amarelas,
está com quinze anos, beirando os dezesseis. Já não ouve mais quase nada,
enxerga pouco – está com catarata -, e seu olfato também está defasado. Até
pouco tempo atrás, ela sabia quem estava chegando quando a gente nem estava
ainda no portão. Podia ser de carro, de ônibus, a pé, o que fosse. Quando a
gente aparecia, lá estava ela latindo e balançando o toco do rabinho e a gente
tinha que pegar ela no colo para ela lamber o as mãos, o rosto. Se agente não a
pegasse ou quando a colocávamos de volta no chão, ela saía em desabalada
corrida, ia até a sala, dava um salto para cima do sofá e depois voltava e
repetida tudo várias vezes. Ela reconhecia cada um, nem que fosse à noite e
estivesse escuro, pelo cheiro, pela voz, sei lá.
Hoje, a gente chega e tem que procurar por ela. Ou ela está lá fora tomando sol,
quando há sol, ou deitada no sofá, dormindo, principalmente se houver alguém
sentado ou deitado. Meu sobrinho de cinco anos quer, a toda hora, brincar com
ela, mas ela tem medo de criança, por isso só deixa ele fazer um carinho. Se o
carinho fica mais pesado ou muito insistente, ela se irrita e briga com ele. Mas
no que diz respeito à criança, ela sempre teve um certo receio, pois algumas a
machucavam, apertando, deixando cair, batendo.
Então nossa Pituxa, que por corruptela acabou virando Xuxu, está velhinha,
velhinha. Seu pelo ainda está bonito, ela nem aparenta muito a idade, a não ser
pelos dentes que já perdeu. Atualmente tem poucos deles e procuramos dar-lhe
comida macia, como ração úmida e carne bem cozida e cortada em pedaços bem
pequenos.
O cocô e o xixi, que ela sempre fazia no box do banheiro, em cima de jornal ou
tapete apropriado, agora ela faz, também, na calçada, na garagem, não sei se
pela velhice ou porque meu sobrinho pequeno às vezes fecha a porta do banheiro.
Mas a Xuxu, velhinha como está, ainda é a nossa menininha. Quando deito no sofá,
ela ainda vem pedir para deitar em cima da minha costela. Então ela se aninha e
fica ali tanto tempo quanto eu ficar.
É uma companheira de muito tempo, para todos nós. É um exemplo de carinho e
amizade, de fidelidade. É difícil pensar que uma criatura assim, um dia vai nos
deixar. Infelizmente.
(07 de novembro/2009)
CooJornal no 657
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