16/05/2009
Ano 12 - Número 632

ARQUIVO AMORIM



Luiz Carlos Amorim
em Expressão Poética

 

Luiz Carlos Amorim
 

MINHAS ÁRVORES


 


 

Tenho um pé de araçá no meu jardim, plantado dentro de um vaso grande, porque chão de terra quase não há. Em fevereiro, ele estava carregadinho e colhi muitos amarelinhos, maduros, doces e suculentos. É engraçado que a arvorezinha tem, ao mesmo tempo, frutos pequenos, frutos maiores, frutos maduros e até flores. Estamos em maio e ainda hoje colhi e comi um e a sua doçura, o seu sabor inconfundível me leva numa viagem de volta no tempo, em direção à minha infância. De novo.

E me dá uma vontade imensa de me mudar de mala e cuia para minha terra natal, Corupá, onde além do araçá, naqueles mesmos dias de fevereiro também os cambucás estavam maduros.

Infância é uma coisa abençoada, que nunca abandona a gente. Quando eu tinha dez, doze, quatorze anos, saía pelos campos, morros e beiras de rios a desbravar o mato para colher mamões, cortiças – alguém se lembra delas?, araçás, goiabas, mangas, laranjas, tangerinas, ingás e um infinidade de outras frutas, que lá havia muitas.

Então olho pro meu jardim e fico triste, ao ver o pé de araçá plantado num vaso, o pé de jacatirão também, tão maltratados pelo sol e sonho com um quintal grande, na verdade com um pomar, reunindo todas as frutas que se dão bem nessa nossa terra abençoada.

Não sei se um dia concretizarei o sonho, mas a verdade é que queria poder plantar árvores de toda qualidade: frutíferas, floríferas, até aquelas que são apenas frondosas. É um sonho antigo e nunca é tarde.

Quem sabe um dia não volto à terrinha de tantas cachoeiras (vocês já leram a minha crônica sobre a trilha que fiz à Rota das Cachoeiras?) e me estabeleça de novo, para plantar árvores que talvez nem cheguem a dar frutos para mim, mas que, de qualquer maneira, estarão lá para ofertar aos netos, quem sabe, toda a delícia de sabores variados, ar puro e sombra no verão.

Porque meu jardim, apesar de florido, me deixa triste com aquelas árvores plantadas em grandes vasos. Gostaria de libertá-las. Preciso dar um jeito nisso.

 

(16 de maio/2009)
CooJornal no 632