25/06/2004
Número - 374

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Luiz Carlos Amorim



SAUDADES DE QUINTANA
 
 
 

Assistindo a um programa sobre Mário Quintana, a propósito do décimo aniversário da morte do poeta, senti uma saudade infinita daquele velho menino jovem (ou seria jovem menino velho?), a poesia personificada, viva e eterna. Nunca o conheci pessoalmente, conheço apenas a sua obra, conheço-o apenas pela sua poesia, mas consigo, através do seus versos, vislumbrar o ser humano. E agora, vendo as entrevistas mostradas neste programa, vem-me a impressão de já tê-lo encontrado, de já ter convivido com ele e então sinto uma saudade imensa.

Só fui a Porto Alegre, terra onde o mágico artista das palavras viveu a maior parte de sua vida, bem depois da morte dele, e me surpreendo com esta saudade enorme que sinto do menino poeta. É interessante ter saudades de alguém que você nunca viu de perto. Mas é possível. Coisa de Quintana, tão lírico e tão travesso, construtor de emoções. Não é à toa que seus eternos cantares cativaram tantos leitores pelo Brasil afora, quiçá pelo mundo.

Ele sempre dizia que a sua poesia não era um simples exercício de ficção, que cada poema seu era uma confissão sua. A poesia era ele, ele era a poesia. Então, em se tratando de Quintana, é plausível, conhecendo os seus versos e a sua prosa cheia de poesia, que eu tenha conhecido o poeta. E é natural, conseqüentemente, que eu sinta saudades dele.

O grande poeta, perguntado sobre qual seria o seu maior sonho, certa vez, respondeu: “Fazer um bom poema”. Talvez aí resida toda a sua grandeza: ele não só era humilde, era simples e autêntico, verdadeiro como a sua poesia.

Quando morresse, “levaria junto apenas as madrugadas, pôr-de-sóis, algum luar, asas em bando, mais o rir das primeiras namoradas”, como ele mesmo escreveu.

E como diria Érico Veríssimo: “Vou revelar a vocês um segredo: descobri outro dia que o Quintana, na verdade, é um anjo disfarçado de homem. Às vezes, quando ele se descuida ao vestir o casado, suas asas ficam de fora”. Quem ousaria desmenti-lo?

Outros poetas, aprendizes, como tantos, passarão. Quintana, o nosso menino Quintana, nosso eterno Quintana, apenas passarinho...

 

(25 de junho/2004)
CooJornal no 374


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lcamorim@viawave.com.br
www.riototal.com.br/escritores-poetas/expoentes-037.htm
Florianópolis, SC