| Luiz Carlos Amorim
SAUDADES DE QUINTANA
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Assistindo a um programa sobre Mário Quintana, a propósito do décimo aniversário
da morte do poeta, senti uma saudade infinita daquele velho menino jovem (ou
seria jovem menino velho?), a poesia personificada, viva e eterna. Nunca o
conheci pessoalmente, conheço apenas a sua obra, conheço-o apenas pela sua
poesia, mas consigo, através do seus versos, vislumbrar o ser humano. E agora,
vendo as entrevistas mostradas neste programa, vem-me a impressão de já tê-lo
encontrado, de já ter convivido com ele e então sinto uma saudade imensa.
Só fui a Porto Alegre, terra onde o mágico artista das palavras viveu a maior
parte de sua vida, bem depois da morte dele, e me surpreendo com esta saudade
enorme que sinto do menino poeta. É interessante ter saudades de alguém que você
nunca viu de perto. Mas é possível. Coisa de Quintana, tão lírico e tão
travesso, construtor de emoções. Não é à toa que seus eternos cantares cativaram
tantos leitores pelo Brasil afora, quiçá pelo mundo.
Ele sempre dizia que a sua poesia não era um simples exercício de ficção, que
cada poema seu era uma confissão sua. A poesia era ele, ele era a poesia. Então,
em se tratando de Quintana, é plausível, conhecendo os seus versos e a sua prosa
cheia de poesia, que eu tenha conhecido o poeta. E é natural, conseqüentemente,
que eu sinta saudades dele.
O grande poeta, perguntado sobre qual seria o seu maior sonho, certa vez,
respondeu: “Fazer um bom poema”. Talvez aí resida toda a sua grandeza: ele não
só era humilde, era simples e autêntico, verdadeiro como a sua poesia.
Quando morresse, “levaria junto apenas as madrugadas, pôr-de-sóis, algum luar,
asas em bando, mais o rir das primeiras namoradas”, como ele mesmo escreveu.
E como diria Érico Veríssimo: “Vou revelar a vocês um segredo: descobri outro
dia que o Quintana, na verdade, é um anjo disfarçado de homem. Às vezes, quando
ele se descuida ao vestir o casado, suas asas ficam de fora”. Quem ousaria
desmenti-lo?
Outros poetas, aprendizes, como tantos, passarão. Quintana, o nosso menino
Quintana, nosso eterno Quintana, apenas passarinho...
(25 de junho/2004)
CooJornal no 374
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal
Prosa,
Poesia & Cia.
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Florianópolis, SC