04/06/2004
Número - 371



 

Luiz Carlos Amorim


CONCURSO DE POESIA
 
 

A biblioteca pública de uma cidade de porte médio promoveu, recentemente, um concurso de poesias entre estudantes de primeira a oitava séries. Iniciativa meritória, incentivar a criação literária e a leitura entre leitores em formação. E até porque o certame é dirigido aos pequenos leitores e possíveis futuros produtores de texto, não seria preferível chamar de concurso de poesia (no singular) ou de poemas? Porque poesia é o conteúdo e poema é a forma. Um poema pode não conter poesia (e isso é tão comum de se encontrar) e a poesia está contida em tudo, na prosa, num gesto, na natureza, etc, etc. Talvez fosse bom enfatizar essa diferença para crianças e adolescentes, para que soubessem a diferença e pudessem entender melhor o que estão fazendo.

Sei que não está errado, está lá no Aurélio, entre outros significados: poesia - "composição poética de pequena extensão". Mas parece soar mal "concurso de poesias", assim, no plural. De qualquer maneira, já foi.

Mas o que me fez abordar o tema foi outra coisa. Entre os poemas vencedores podemos encontrar pelo menos dois que são "inspirados" ou "baseados" em músicas conhecidas, uma de Vinícius de Moraes e outra cantada (?) pela Xuxa. Não sei se o grupo de poetas que selecionou os vencedores foi questionado - e acho que deveriam ser - mas a professora que coordenou o concurso justificou como sendo "paródias" as referidas "poesias". Acho muito triste um professor incentivar o
plágio, justamente um professor, que deve incentivar os alunos e ensinar a maneira mais correta possível de criar o próprio texto.

Voltamos, então, a um assunto já discutido numa de nossas crônicas, mas muito delicado e que merece ser relembrado. Não podemos usar a obra de outrem impunemente, sem colocar o trecho que "emprestamos" entre aspas e citando o autor e a fonte. Não podemos pegar um texto ou um poema de quem quer que seja, trocar algumas palavras e assinar como sendo nosso. Isso é apropriação indébia, é plágio. E plágio é crime.

Já fui jurado de concurso de poesia e encontrei trechos de "Marília de Dirceu", assinado por outro "autor" que não Tomás Antonio Gonzaga, poema de Neimar de Barros e até coisa minha. Mas o grupo que estava selecionando os melhores poemas descartou de imediato aqueles nos quais se reconhecia alguma coisa já existente.

Espero que tenha sido um caso isolado e que não se cometa por aí este tipo de erro.
 

(04 de junho/2004)
CooJornal no 371


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lcamorim@viawave.com.br
Florianópolis, SC