| Luiz Carlos Amorim
RENASCER
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Minhas filhas já estão adultas e não trocaria a ventura de tê-las tido por
absolutamente nada nesse mundo. Pareceu-me fácil criar minhas meninas, cuidar
delas, educá-las, tentar prepará-las para a vida. Presunção? Não acho que não.
Acho que é porque elas me deram muito mais do que eu dei a elas. Estou no lucro,
devo estar em dívida com elas, pois penso que elas me deram muito mais carinho
do que eu dei a elas, elas me ensinaram muito mais do que eu poderia repassar a
elas. Elas me mostraram uma capacidade de amar bem maior do que pensava ter.
Então esperei ter também um menino, para saber se havia diferença entre o
privilégio de conviver, de educar e de aprender com minhas meninas e criar um
garoto. Era um desafio: poderia haver diferença? Em que? Infelizmente, não
pudemos, eu e Stela, tirar essa dúvida. Tivemos três meninas, então desistimos,
não porque não quiséssemos meninas, se elas viessem, mas porque poderíamos dar
tanto menos quanto maior fosse o número de filhos que tivéssemos. E há que se
poder dar o mínimo necessário para que os filhos cresçam com dignidade, senão,
melhor é não tê-los.
Pensamos até em adotar um menino, mas o tempo foi passando e acabamos desistindo
da idéia, pois achamos que nossa idade já não comportava mais uma
responsabilidade tão grande, já não tínhamos mais aquela vitalidade de quando
nossas meninas chegaram, já tínhamos perdido o jeito. Será que encontraríamos a
paciência e a dedicação, a experiência já longe, para oferecer a um novo bebê?
Sei que parece pensar como velhos, cinqüenta e um para mim e menos de cinqüenta
para Stela é quase nada, mas a responsabilidade é grande.
Então, um belo dia, soubemos que Gabriel entraria em nossas vidas. Não iríamos
adotá-lo, não. Minha cunhada estava esperando o primeiro filho e logo soube que
era menino. E minha esposa iria ajudar a cuidar dele, enquanto e mãe estivesse
trabalhando. Agora sabemos que nós, a família toda, cuidaríamos de Gabriel.
É fantástico como o ser humano pode se reciclar. Gabriel está nos mostrando isso
com uma clareza inquestionável. Fico maravilhado em ver como uma criança pode
restaurar em nós, independentemente de qualquer que seja a nossa idade, a
alegria de viver e a perspectiva de tempos mais felizes.
Gabriel mostrou-nos, a todos, que somos capazes de amar, sempre. Ele faz com que
me sinta muito mais jovem, fez com que eu voltasse a sorrir e a rir muito mais
do que antes. Ele faz com que eu me sinta um pouco criança, quando me vejo a
brincar com ele, rir com ele, crescer com ele. Fazia tempo que não exercitava
aquela cara boba de feliz a falar palavras truncadas que ele parece entender.
Fazia tempo que não rolava no chão, fazia caretas e ruídos estranhos para vê-lo
dar gargalhadas.
É pouco pra ser feliz? É cedo, diria alguém, para ser tão feliz. Eu acho que
não. Agradeço por cada segundo desse retorno no tempo. Desenvelheci. Estou
aprendendo e ganhando experiência de vida. Isso já é um ganho enorme.
(28 de maio/2004)
CooJornal no 370
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal
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Florianópolis, SC