28/05/2004
Número - 370

 

 

Luiz Carlos Amorim


RENASCER
 
 

Minhas filhas já estão adultas e não trocaria a ventura de tê-las tido por absolutamente nada nesse mundo. Pareceu-me fácil criar minhas meninas, cuidar delas, educá-las, tentar prepará-las para a vida. Presunção? Não acho que não. Acho que é porque elas me deram muito mais do que eu dei a elas. Estou no lucro, devo estar em dívida com elas, pois penso que elas me deram muito mais carinho do que eu dei a elas, elas me ensinaram muito mais do que eu poderia repassar a elas. Elas me mostraram uma capacidade de amar bem maior do que pensava ter.

Então esperei ter também um menino, para saber se havia diferença entre o privilégio de conviver, de educar e de aprender com minhas meninas e criar um garoto. Era um desafio: poderia haver diferença? Em que? Infelizmente, não pudemos, eu e Stela, tirar essa dúvida. Tivemos três meninas, então desistimos, não porque não quiséssemos meninas, se elas viessem, mas porque poderíamos dar tanto menos quanto maior fosse o número de filhos que tivéssemos. E há que se poder dar o mínimo necessário para que os filhos cresçam com dignidade, senão, melhor é não tê-los.

Pensamos até em adotar um menino, mas o tempo foi passando e acabamos desistindo da idéia, pois achamos que nossa idade já não comportava mais uma responsabilidade tão grande, já não tínhamos mais aquela vitalidade de quando nossas meninas chegaram, já tínhamos perdido o jeito. Será que encontraríamos a paciência e a dedicação, a experiência já longe, para oferecer a um novo bebê? Sei que parece pensar como velhos, cinqüenta e um para mim e menos de cinqüenta para Stela é quase nada, mas a responsabilidade é grande.

Então, um belo dia, soubemos que Gabriel entraria em nossas vidas. Não iríamos adotá-lo, não. Minha cunhada estava esperando o primeiro filho e logo soube que era menino. E minha esposa iria ajudar a cuidar dele, enquanto e mãe estivesse trabalhando. Agora sabemos que nós, a família toda, cuidaríamos de Gabriel.

É fantástico como o ser humano pode se reciclar. Gabriel está nos mostrando isso com uma clareza inquestionável. Fico maravilhado em ver como uma criança pode restaurar em nós, independentemente de qualquer que seja a nossa idade, a alegria de viver e a perspectiva de tempos mais felizes.

Gabriel mostrou-nos, a todos, que somos capazes de amar, sempre. Ele faz com que me sinta muito mais jovem, fez com que eu voltasse a sorrir e a rir muito mais do que antes. Ele faz com que eu me sinta um pouco criança, quando me vejo a brincar com ele, rir com ele, crescer com ele. Fazia tempo que não exercitava aquela cara boba de feliz a falar palavras truncadas que ele parece entender. Fazia tempo que não rolava no chão, fazia caretas e ruídos estranhos para vê-lo dar gargalhadas.

É pouco pra ser feliz? É cedo, diria alguém, para ser tão feliz. Eu acho que não. Agradeço por cada segundo desse retorno no tempo. Desenvelheci. Estou aprendendo e ganhando experiência de vida. Isso já é um ganho enorme.
 


(28 de maio/2004)
CooJornal no 370


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lcamorim@viawave.com.br
Florianópolis, SC