19/03/2004
Número - 360


 

Luiz Carlos Amorim

 

SÃO FRANCISCO DO SUL – A MENINA DOS MEUS OLHOS




 

Naquela tarde histórica de verão, de muito sol, cor e calor, Francisco passeava na praia de Enseada, festejando a seu modo os quinhentos anos do descobrimento daquela cidade que ele aprendera a amar, pela beleza das suas praias, pela suas ruas estreitas e casario açoriano, pela sua gente acolhedora, pela sua história: enchendo os olhos com ela. Haveria alguma diferença, agora que a sua ilha de São Francisco do Sul completara quinhentos anos desde que outro ser vivente, que não fosse o índio nativo, pisasse o seu chão? Achava que não. A praia continuava a mesma, o caminho para chegar até lá também, os turistas e a gente da terra continuam se misturando na beira do mar, as mulheres continuavam lindas e douradas. Tudo como dantes, pelo menos do que ele lembra. Verdade que não é tão jovem – pensa do alto do seus trinta anos - e as mudanças acontecem bem devagar, mas a não ser pelas festividades, pelo monumentos, visitas de políticos importantes, as mudanças não são muitas.

Depois de andar um pouco, conferir tudo e achar que tudo estava normal, apesar dos quinhentos anos de idade da ilha, deu um mergulho e ficou a apreciar a “paisagem”. Como havia constatado anteriormente, as mulheres continuavam maravilhosas e lindas. Uma delas lhe chamou especial atenção. A alguma distância da água, separada de todos, estava sentada em uma cadeira, de óculos escuros e parecia alheia ao que acontecia ao seu redor. Não estava de biquíni ou maiô, apesar de usar roupas bem leves. Francisco aproximou-se. Como não a conhecia, foi puxando conversa, meio sem saber o que dizer.

- Lindo dia, não?

Ela não respondeu e também não se voltou.

- Desculpe incomodá-la, mas estava tão só, que me permiti aproximar-me...

- Não faz mal, eu gosto de ter alguém com quem falar... – ela foi gentil – Como está a praia? Quero dizer, há muita gente?

Então ele percebeu: ela era cega. Ficou meio sem ação ao constatar, mas não quis constrangê-la..

- A praia está lotada, o mar está lindo. Com quem você veio?

- Vim com meus irmãos. Eles me trouxeram para não me deixar em casa, sozinha: mas como não posso entrar na água...

- Sei que não deveria falar nisso, mas... É congênito ou aconteceu algum acidente que lhe tirou a vista?

Ela não pareceu contrariada, parecia estar acostumada a responder aquele tipo de pergunta.

- Não, não é congênito. Quando era muito pequena sofri um acidente que inutilizou meus olhos. Mas tenho esperança de voltar a enxergar, sabe? Estou inscrita no Banco do Olhos e espero ser chamada em breve.

Francisco procurou mudar de assunto, pois achou que poderia ser dolorido continuar falando daquilo.

- Nós já nos conhecemos e ainda não nos apresentamos. Meu nome é Francisco. E o seu?

- Estela. É um prazer conhecê-lo. Que interessante, você tem o mesmo nome do padroeiro da nossa São Francisco do Sul.

- Pois é, quem sabe não é por isso que gosto tanto dessa cidade? Não nasci aqui, mas adoro esta ilha. E você, é daqui mesmo?

- Sou. Estive fora alguns anos, tentando recuperar a visão. Voltei recentemente. Lembro de muito pouco de quando ainda podia ver: o porto, o mercado, as praias, a igreja matriz... Sei que a cidade tem mudado, nestes últimos anos. Tenho fé de voltar a ver logo para ver como São Francisco está agora.

- É verdade, houve algumas mudanças. São Francisco estacionou e até regrediu, depois de uma época cultural e comercialmente muito ativa. Mas de um tempo em que você era muito pequena ou nem era nascida para cá, grandes indústrias se instalaram aqui, o comércio está evoluindo com o turismo, o porto aumentou de tamanho e de movimento. Você lembra alguma dessas novidades, da sua época de criança?

- Muito pouco. Como disse, lembro o porto, o mercado, a igreja matriz, a estação ferroviária, parecida com uma igreja, ...

- Pois o porto aumentou muito, nestes últimos anos, é o maior da América Latina em movimento de containers. A indústria de extração de óleo de soja, instalada em São Francisco nos anos 80, mudou de dono, agora é de uma multinacional argentina, Outra grande indústria, de beneficiamento de aço iniciou atividades recentemente. As praias continuam belas, ainda que mais poluídas, pois a urbanização aumentou e o número de turistas também. O terminal de Petrobrás, na Enseada, você lembra, não é? A estação ferroviária, infelizmente, com a atividade apenas de transporte de carga, sem o transporte de passageiros, está praticamente abandonada. Uma pena, já que é um dos cartões postais de São Francisco, mas espera-se que seja restaurada.

- Não vejo a hora de voltar a enxergar para poder ver a nossa ilha quinhentona do jeito que está agora.

- Acompanho você, para mostrar-lhe tudo – prontificou-se Francisco.

Ficaram amigos e voltaram a se encontrar. Os olhos de Francisco passaram a ser também os de Estela. Andaram muito pela ilha de São Francisco para que ela lembrasse e soubesse como as coisas estavam atualmente.

O tempo passou e, enquanto a amizade se consolidava, crescia cada vez mais a ansiedade pela oportunidade de ser chamada pelo Banco de Olhos, para a implantação de córneas.

Francisco decidiu, então que cederia um de seus olhos à Estela. Afinal, pensou ele, eu tenho dois e poderia muito bem enxergar com apenas um. Entrou em contato com o Banco de Olhos e quando tudo estava viabilizado, fez chegar até ela comunicado de que havia chegado a sua vez. Era a grande chance de voltar a ver.

Depois da cirurgia, passados alguns dias, quando Estela ia retirar as ataduras, Francisco não quis que ela o visse de imediato. Mas não resistiu e acabou ficando na sala e presenciou toda a emoção e toda a felicidade de Estela por voltar a ver.

Quando ela o viu – sabia que era ele – com as ataduras em um lado do rosto, entendeu.

- Obrigado, Francisco, pela luz dos seus olhos.

A São Francisco do Sul da bela e Santa Catarina, além dos quinhentos anos do seu descobrimento, comemora histórias grandiosas como essa, também.



(19 de março/2004)
CooJornal no 360


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lcamorim@viawave.com.br
Florianópolis, SC