| Luiz Carlos Amorim
SÃO FRANCISCO DO SUL – A MENINA DOS MEUS OLHOS
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Naquela tarde histórica de verão, de muito sol, cor e calor, Francisco passeava
na praia de Enseada, festejando a seu modo os quinhentos anos do descobrimento
daquela cidade que ele aprendera a amar, pela beleza das suas praias, pela suas
ruas estreitas e casario açoriano, pela sua gente acolhedora, pela sua história:
enchendo os olhos com ela. Haveria alguma diferença, agora que a sua ilha de São
Francisco do Sul completara quinhentos anos desde que outro ser vivente, que não
fosse o índio nativo, pisasse o seu chão? Achava que não. A praia continuava a
mesma, o caminho para chegar até lá também, os turistas e a gente da terra
continuam se misturando na beira do mar, as mulheres continuavam lindas e
douradas. Tudo como dantes, pelo menos do que ele lembra. Verdade que não é tão
jovem – pensa do alto do seus trinta anos - e as mudanças acontecem bem devagar,
mas a não ser pelas festividades, pelo monumentos, visitas de políticos
importantes, as mudanças não são muitas.
Depois de andar um pouco, conferir tudo e achar que tudo estava normal, apesar
dos quinhentos anos de idade da ilha, deu um mergulho e ficou a apreciar a
“paisagem”. Como havia constatado anteriormente, as mulheres continuavam
maravilhosas e lindas. Uma delas lhe chamou especial atenção. A alguma distância
da água, separada de todos, estava sentada em uma cadeira, de óculos escuros e
parecia alheia ao que acontecia ao seu redor. Não estava de biquíni ou maiô,
apesar de usar roupas bem leves. Francisco aproximou-se. Como não a conhecia,
foi puxando conversa, meio sem saber o que dizer.
- Lindo dia, não?
Ela não respondeu e também não se voltou.
- Desculpe incomodá-la, mas estava tão só, que me permiti aproximar-me...
- Não faz mal, eu gosto de ter alguém com quem falar... – ela foi gentil – Como
está a praia? Quero dizer, há muita gente?
Então ele percebeu: ela era cega. Ficou meio sem ação ao constatar, mas não quis
constrangê-la..
- A praia está lotada, o mar está lindo. Com quem você veio?
- Vim com meus irmãos. Eles me trouxeram para não me deixar em casa, sozinha:
mas como não posso entrar na água...
- Sei que não deveria falar nisso, mas... É congênito ou aconteceu algum
acidente que lhe tirou a vista?
Ela não pareceu contrariada, parecia estar acostumada a responder aquele tipo de
pergunta.
- Não, não é congênito. Quando era muito pequena sofri um acidente que
inutilizou meus olhos. Mas tenho esperança de voltar a enxergar, sabe? Estou
inscrita no Banco do Olhos e espero ser chamada em breve.
Francisco procurou mudar de assunto, pois achou que poderia ser dolorido
continuar falando daquilo.
- Nós já nos conhecemos e ainda não nos apresentamos. Meu nome é Francisco. E o
seu?
- Estela. É um prazer conhecê-lo. Que interessante, você tem o mesmo nome do
padroeiro da nossa São Francisco do Sul.
- Pois é, quem sabe não é por isso que gosto tanto dessa cidade? Não nasci aqui,
mas adoro esta ilha. E você, é daqui mesmo?
- Sou. Estive fora alguns anos, tentando recuperar a visão. Voltei recentemente.
Lembro de muito pouco de quando ainda podia ver: o porto, o mercado, as praias,
a igreja matriz... Sei que a cidade tem mudado, nestes últimos anos. Tenho fé de
voltar a ver logo para ver como São Francisco está agora.
- É verdade, houve algumas mudanças. São Francisco estacionou e até regrediu,
depois de uma época cultural e comercialmente muito ativa. Mas de um tempo em
que você era muito pequena ou nem era nascida para cá, grandes indústrias se
instalaram aqui, o comércio está evoluindo com o turismo, o porto aumentou de
tamanho e de movimento. Você lembra alguma dessas novidades, da sua época de
criança?
- Muito pouco. Como disse, lembro o porto, o mercado, a igreja matriz, a estação
ferroviária, parecida com uma igreja, ...
- Pois o porto aumentou muito, nestes últimos anos, é o maior da América Latina
em movimento de containers. A indústria de extração de óleo de soja, instalada
em São Francisco nos anos 80, mudou de dono, agora é de uma multinacional
argentina, Outra grande indústria, de beneficiamento de aço iniciou atividades
recentemente. As praias continuam belas, ainda que mais poluídas, pois a
urbanização aumentou e o número de turistas também. O terminal de Petrobrás, na
Enseada, você lembra, não é? A estação ferroviária, infelizmente, com a
atividade apenas de transporte de carga, sem o transporte de passageiros, está
praticamente abandonada. Uma pena, já que é um dos cartões postais de São
Francisco, mas espera-se que seja restaurada.
- Não vejo a hora de voltar a enxergar para poder ver a nossa ilha quinhentona
do jeito que está agora.
- Acompanho você, para mostrar-lhe tudo – prontificou-se Francisco.
Ficaram amigos e voltaram a se encontrar. Os olhos de Francisco passaram a ser
também os de Estela. Andaram muito pela ilha de São Francisco para que ela
lembrasse e soubesse como as coisas estavam atualmente.
O tempo passou e, enquanto a amizade se consolidava, crescia cada vez mais a
ansiedade pela oportunidade de ser chamada pelo Banco de Olhos, para a
implantação de córneas.
Francisco decidiu, então que cederia um de seus olhos à Estela. Afinal, pensou
ele, eu tenho dois e poderia muito bem enxergar com apenas um. Entrou em contato
com o Banco de Olhos e quando tudo estava viabilizado, fez chegar até ela
comunicado de que havia chegado a sua vez. Era a grande chance de voltar a ver.
Depois da cirurgia, passados alguns dias, quando Estela ia retirar as ataduras,
Francisco não quis que ela o visse de imediato. Mas não resistiu e acabou
ficando na sala e presenciou toda a emoção e toda a felicidade de Estela por
voltar a ver.
Quando ela o viu – sabia que era ele – com as ataduras em um lado do rosto,
entendeu.
- Obrigado, Francisco, pela luz dos seus olhos.
A São Francisco do Sul da bela e Santa Catarina, além dos quinhentos anos do seu
descobrimento, comemora histórias grandiosas como essa, também.
(19 de março/2004)
CooJornal no 360
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal
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Florianópolis, SC