| Luiz Carlos Amorim
O FÓRUM DA CULTURA
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Numa crônica recente, falando sobre “política cultural”, deixei transparecer
minha pouca fé nela, ao comentar a chamada, por parte do governo catarinense, de
produtores culturais, promotores e patrocinadores, para idealizarem um fórum em
busca de uma desejável programação e realização de eventos culturais em nosso
estado.
Pois é. Foram feitas reuniões com as classes artística e cultural, antes do tão
propalado fórum, e dessas reuniões resultou a pauta com os temas a serem
debatidos no grande evento, no final de 2003: as leis de incentivo à cultura,
identidade cultural, políticas para apoiar e desenvolver a cultura, patrimônio e
marketing cultural. Para discutir e resolver esses assuntos, foram convidadas
personalidades ligadas à cultura de outros estados, como Paraná, Rio Grande do
Sul, Mato Grosso do Sul e o Secretário de Difusão Cultural e Artística do
Ministério do Cultura, além dos palestrantes de Santa Catarina.
Foi armada uma imensa lona, um circo, no Parque da Luz, na cabeceira da ponte
Hercílio Luz, para o grande fórum, que infelizmente foi um fracasso. Apesar do
enorme espaço reservado para o mega-evento, que ocuparia cinco dias de
incendiados debates, a maior freqüência – já não muito expressiva – foi no dia
da abertura. Nos dias que se seguiram, o fórum esvaziou-se e não chegava a
cinqüenta, no segundo dia, o número de pessoas na platéia. No terceiro dia, não
passava de trinta. Isso, aliás, porque participantes que vieram das 29
secretarias regionais eram obrigados a comparecer.
E não venham dizer que o que atrapalhou o evento foi o vento, a chuva, etc.,
porque não foi. O que impediu que mais pessoas ligadas à produção cultural e
artística participassem foi a mesma falta de fé que a “cultura oficial” impôs a
todos nós, que não estamos ligados ao estado.
Adivinhem quais foram as reclamações dos poucos que comparecerem ao malfadado
fórum? “Esperava que fosse diferente, que houvesse espaço para desenvolver
propostas e deliberar, com grupos de trabalho discutindo propostas afins.”
“Esperava que o governo desse respostas, dissesse qual a sua política cultural.”
“Falta retorno, falta palavra de honra do governo. Nas reuniões que antecederam
o fórum foi dito que teríamos propostas, linha de ação, e nada disso aconteceu.”
“O fórum esvaziou desde o primeiro dia porque não atendeu à expectativa que ele
mesmo criou. Como sempre.” “Não existe encaminhamento metodológico para
avaliação e resultar em algo concreto, não existe comprometimento do estado”.
Isso tudo documentado, publicado em um dos grandes jornais do estado, “A
Notícia”.
Como já disse em outras ocasiões – e gostaria de poder voltar atrás – uns
quantos “líderes” culturais do nosso estado, os “donos da cultura” e alguns que
não estão lá, fazendo parte da panelinha, mas estão loucos para entrar, sabem e
gostam de falar muito. Falam bonito, falam difícil, fazem grandes discursos, mas
só falam. Fazer, realizar, não é com eles. Quando muito, usurpam o mérito de
alguma coisa feita por outrem. Ou então o que os outros fazem não presta. O
importante, para eles, é aparecer. E nem eles compareceram ao fórum para roubar
a cena.
Vejo isso não é de hoje e as pessoas que trabalham, que fazem acontecer a
cultura neste estado também estão vendo. Por isso esses encontros, que gastam o
dinheiro público, conseguem resolver muito pouco. É uma pena, mas é a verdade e
não dá pra fingir que não é assim. É por isso que muitos produtores e promotores
realizam o seu trabalho artístico ou cultural às próprias custas ou correndo
atrás de algum apoio na iniciativa privada. Porque os agraciados com recursos
oficiais para a cultura são, quase sempre, os mesmos.
Verdade que isso não acontece só aqui, mas já é mais do que tempo desse estado
de coisas mudar. Esperemos que neste novo ano que inicia as coisas mudem um
pouco. Para melhor.
(30 de janeiro/2004)
CooJornal no 353
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal
Prosa,
Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br
Florianópolis, SC