| Luiz Carlos Amorim
AS CORES DO VERÃO NO SUL DO BRASIL
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Uma das coisas lindas que 2003 nos proporcionou, foi a sua primavera, mais linda
do que em outros anos. O que se viu foi um espetáculo grandioso: árvores que
florescem em épocas diferentes do ano confrontaram suas flores naquela
primavera, em feliz, inusitada e colorida reunião. O ipê, majestoso, se vestia
de amarelo, irradiando luz e beleza, para depois, devagarinho, estender um manto
dourado pelos caminhos. Enquanto isso, o inverno conspirava a nosso favor e
atrasava um pouquinho, fazendo com que a flor do ipê confraternizasse,
maravilhosamente, com a flor da azaléia, manchando de vermelho algumas ilhas de
amarelo. E as duas árvores floridas conseguiram se manter vestidas de luz e cor,
grávidas do sol, para dar as boas vindas à flor do jacatirão, que chega em
outubro.
Foi um encontro memorável. E então chega o verão, trazido pela mão pela flor de
jacatirão, que traz também o Natal e o Ano Novo.
E neste verão de 2004, não é só a pele dos turistas que ganha cor: as matas do
norte e nordeste de Santa Catarina se transformam, com o verde das folhas das
árvores de jacatirão sendo trocadas por incontáveis flores que vão do branco ao
vermelho, até fevereiro, convivendo, também, com a beleza imponente e flamejante
do vermelho vivo dos flamboians e com o branco e o vermelho das extremosas. Em
fevereiro, então, os jacatirões que enfeitam as encostas e margens do sul do
Paraná para cima, começam a florescer, exibindo orgulhosos, também, as suas
flores brancas, lilases e rubras, inclusive na sua grande passarela que é a 101.
E os turistas que vêm para o verão nos estados do Sul, pela BR 101, têm um
espetáculo de luz e cor incomparável: as duas margens da estrada derramando
flores e cores sobre os passantes. Cidades como Joinville, São Francisco do Sul,
Jaraguá do Sul, Corupá e tantas outras são privilegiadas, por terem seus acessos
ladeados pelas flores da grande e majestosa árvore, tão pródiga em oferecer essa
festa esfuziante de vida.
É a natureza, pródiga, a nos presentear com suas obras mais bonitas, apesar de
cuidarmos tão pouco dela. Nós, homens, continuamos desmatando, cortando árvores
indiscriminadamente. Ainda se corta pés de jacatirão para se fazer lenha, por
serem eles árvores grandes de tronco encorpado. Haverá crime maior do que esse?
Queimar a árvore que é um dos arautos da natureza, um dos maiores representantes
da beleza que ela pode oferecer...
Há quem, felizmente, faça o caminho inverso. Planta o jacatirão no jardim de sua
casa, onde pode admirá-lo e cuidar dele ao mesmo tempo. Ou então colhe as suas
sementes, depois da florada, para espalhá-las nas regiões aonde ele ainda não
chegou.
Algumas pessoas sequer enxergam as vibrantes árvores floridas de jacatirão,
desde meados da primavera até o fim do verão. Não que tenham problemas visuais –
elas não dão nenhuma importância ao belíssimo fenômeno da mãe natureza que é a
profusão de flores de jacatirão. Já disse antes, mas vale repetir o que Cecília
Meirelles escreveu, com maestria e propriedade, em “A Arte de Ser Feliz”: “é
preciso olhar e ver”. Às vezes, apenas olhamos, mas não vemos. Se você não viu
ainda, olhe para o alto, para os lados, para as matas, para as alamedas, para os
morros, para as margens dos caminhos, dos rios, das lagoas e veja: elas estão
lá, singelas, humildes, mas majestosas e absolutas, irradiando cor e beleza,
irradiando um sentimento de paz e de alegria, lembrando-nos que ainda é possível
sermos felizes.
(23 de janeiro/2004)
CooJornal no 352
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal
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Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br
Florianópolis, SC