23/01/2004
Número - 352

 

 

Luiz Carlos Amorim

 

AS CORES DO VERÃO NO SUL DO BRASIL


 

Uma das coisas lindas que 2003 nos proporcionou, foi a sua primavera, mais linda do que em outros anos. O que se viu foi um espetáculo grandioso: árvores que florescem em épocas diferentes do ano confrontaram suas flores naquela primavera, em feliz, inusitada e colorida reunião. O ipê, majestoso, se vestia de amarelo, irradiando luz e beleza, para depois, devagarinho, estender um manto dourado pelos caminhos. Enquanto isso, o inverno conspirava a nosso favor e atrasava um pouquinho, fazendo com que a flor do ipê confraternizasse, maravilhosamente, com a flor da azaléia, manchando de vermelho algumas ilhas de amarelo. E as duas árvores floridas conseguiram se manter vestidas de luz e cor, grávidas do sol, para dar as boas vindas à flor do jacatirão, que chega em outubro.

Foi um encontro memorável. E então chega o verão, trazido pela mão pela flor de jacatirão, que traz também o Natal e o Ano Novo.

E neste verão de 2004, não é só a pele dos turistas que ganha cor: as matas do norte e nordeste de Santa Catarina se transformam, com o verde das folhas das árvores de jacatirão sendo trocadas por incontáveis flores que vão do branco ao vermelho, até fevereiro, convivendo, também, com a beleza imponente e flamejante do vermelho vivo dos flamboians e com o branco e o vermelho das extremosas. Em fevereiro, então, os jacatirões que enfeitam as encostas e margens do sul do Paraná para cima, começam a florescer, exibindo orgulhosos, também, as suas flores brancas, lilases e rubras, inclusive na sua grande passarela que é a 101.

E os turistas que vêm para o verão nos estados do Sul, pela BR 101, têm um espetáculo de luz e cor incomparável: as duas margens da estrada derramando flores e cores sobre os passantes. Cidades como Joinville, São Francisco do Sul, Jaraguá do Sul, Corupá e tantas outras são privilegiadas, por terem seus acessos ladeados pelas flores da grande e majestosa árvore, tão pródiga em oferecer essa festa esfuziante de vida.

É a natureza, pródiga, a nos presentear com suas obras mais bonitas, apesar de cuidarmos tão pouco dela. Nós, homens, continuamos desmatando, cortando árvores indiscriminadamente. Ainda se corta pés de jacatirão para se fazer lenha, por serem eles árvores grandes de tronco encorpado. Haverá crime maior do que esse? Queimar a árvore que é um dos arautos da natureza, um dos maiores representantes da beleza que ela pode oferecer...

Há quem, felizmente, faça o caminho inverso. Planta o jacatirão no jardim de sua casa, onde pode admirá-lo e cuidar dele ao mesmo tempo. Ou então colhe as suas sementes, depois da florada, para espalhá-las nas regiões aonde ele ainda não chegou.

Algumas pessoas sequer enxergam as vibrantes árvores floridas de jacatirão, desde meados da primavera até o fim do verão. Não que tenham problemas visuais – elas não dão nenhuma importância ao belíssimo fenômeno da mãe natureza que é a profusão de flores de jacatirão. Já disse antes, mas vale repetir o que Cecília Meirelles escreveu, com maestria e propriedade, em “A Arte de Ser Feliz”: “é preciso olhar e ver”. Às vezes, apenas olhamos, mas não vemos. Se você não viu ainda, olhe para o alto, para os lados, para as matas, para as alamedas, para os morros, para as margens dos caminhos, dos rios, das lagoas e veja: elas estão lá, singelas, humildes, mas majestosas e absolutas, irradiando cor e beleza, irradiando um sentimento de paz e de alegria, lembrando-nos que ainda é possível sermos felizes.



(23 de janeiro/2004)
CooJornal no 352


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br  
Florianópolis, SC