| Luiz Carlos Amorim
A POESIA DE LOURDES DI TÚLIO
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O lirismo, a sensibilidade plena, a lucidez, uma cosmovisão toda sua, enfim: o
domínio da palavra a transformar a vida em poesia, sem tentar pintá-la
simplesmente de cor-de-rosa. Essas são características que transbordam destas
“Dobras do Tempo”, livro espetacular da espetacular Lourdes Di Túlio, de São
Paulo.
Comecei a leitura destas “Dobras do Tempo” e não consegui mais parar,
surpreendendo-me, de repente, levado pela autora “na ansiedade de ser um
pássaro, em vez de um pêndulo de carne computando o tempo estático”.
E segui, sorvendo estes poemas-verdade ao mesmo tempo singelos e fortes,
corajosos, “cavalgando o corcel do tempo”, conhecendo mais deste “mundo cósmico”
que pode, quem sabe, se existir mais gente como autora, transformar-se em um
mundo “sem máscaras e simulações”, finalmente prevalecendo o “humanismo e o
amor”.
Senti meu coração maior, presente – sim, “eu também possuo um coração” –
querendo ser “livre como os pássaros, livre como o vento beijando as árvores”.
Vi-me “a escalar ensimesmadas buscas”, mas vi-me, também, “a ressurgir na
sucessão das primaveras”. Aprendi que “viver é doar-se, queira ou não”, que a
“vida é um tempo manipulado”, mas aprendi também a deixar o amor manipular a
vida, esse “amor feito de mil centelhas, esparso em tudo que é belo e puro”.
Aprendi que a “flor canta comigo”, “que os sonhos voltam em cada amanhecer”.
Vi um convite entrar pelos meus olhos e adentrar meu coração-menino: “de vez em
quando, seja criança: apanhe coquinhos, sonhe ser pássaro, procure tesouros”. E
agradeci a minha querida poetisa Lourdes Di Túlio por esse convite. Porque “às
portas de mansões, dormem, vencidas, crianças nuas, magrelas”. E precisamos
levantar bem alto nosso brado, para que os homens se lembrem daqueles pequeninos
e os deixem ser crianças.
Vi-me “barbudo, cabeludo”, com “olhar de procura, perguntando, contestando”, com
o “olhar em chamas alcançando o muro, apenas o muro.”
Mas aqui, nestas Dobras do Tempo, encontrei forças para derrubar o muro e chegar
mais perto do sol, este sol que também irradia do coração da autora.
Percebi que, de repente, “estou onde não vou” – “na explosão do pensamento” e
que não importa que as peles sejam “brancas, negras, amarelas”: podemos
“somar-nos no universo da paz”.
E “reacordei”, para um mundo novo saído das Dobras do Tempo, com “um sorriso, um
desejo maior, um sonho bom”...
(23 de outubro/2003)
CooJornal no 337
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal
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lzamorim@terra.com.br
Florianópolis, SC