23/10/2003
Número - 337

 

 

Luiz Carlos Amorim

 

A POESIA DE LOURDES DI TÚLIO


 

O lirismo, a sensibilidade plena, a lucidez, uma cosmovisão toda sua, enfim: o domínio da palavra a transformar a vida em poesia, sem tentar pintá-la simplesmente de cor-de-rosa. Essas são características que transbordam destas “Dobras do Tempo”, livro espetacular da espetacular Lourdes Di Túlio, de São Paulo.

Comecei a leitura destas “Dobras do Tempo” e não consegui mais parar, surpreendendo-me, de repente, levado pela autora “na ansiedade de ser um pássaro, em vez de um pêndulo de carne computando o tempo estático”.

E segui, sorvendo estes poemas-verdade ao mesmo tempo singelos e fortes, corajosos, “cavalgando o corcel do tempo”, conhecendo mais deste “mundo cósmico” que pode, quem sabe, se existir mais gente como autora, transformar-se em um mundo “sem máscaras e simulações”, finalmente prevalecendo o “humanismo e o amor”.

Senti meu coração maior, presente – sim, “eu também possuo um coração” – querendo ser “livre como os pássaros, livre como o vento beijando as árvores”.

Vi-me “a escalar ensimesmadas buscas”, mas vi-me, também, “a ressurgir na sucessão das primaveras”. Aprendi que “viver é doar-se, queira ou não”, que a “vida é um tempo manipulado”, mas aprendi também a deixar o amor manipular a vida, esse “amor feito de mil centelhas, esparso em tudo que é belo e puro”. Aprendi que a “flor canta comigo”, “que os sonhos voltam em cada amanhecer”.

Vi um convite entrar pelos meus olhos e adentrar meu coração-menino: “de vez em quando, seja criança: apanhe coquinhos, sonhe ser pássaro, procure tesouros”. E agradeci a minha querida poetisa Lourdes Di Túlio por esse convite. Porque “às portas de mansões, dormem, vencidas, crianças nuas, magrelas”. E precisamos levantar bem alto nosso brado, para que os homens se lembrem daqueles pequeninos e os deixem ser crianças.

Vi-me “barbudo, cabeludo”, com “olhar de procura, perguntando, contestando”, com o “olhar em chamas alcançando o muro, apenas o muro.”

Mas aqui, nestas Dobras do Tempo, encontrei forças para derrubar o muro e chegar mais perto do sol, este sol que também irradia do coração da autora.

Percebi que, de repente, “estou onde não vou” – “na explosão do pensamento” e que não importa que as peles sejam “brancas, negras, amarelas”: podemos “somar-nos no universo da paz”.

E “reacordei”, para um mundo novo saído das Dobras do Tempo, com “um sorriso, um desejo maior, um sonho bom”...




(23 de outubro/2003)
CooJornal no 337


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br  
Florianópolis, SC