| Luiz Carlos Amorim
A CULTURA DA TELEVISÃO
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Chegada ao Brasil há cerca de meio século, a televisão veio revolucionar os
meios de comunicação, neutralizando parte da força do cinema e até do rádio.
Tímida no início, causando curiosidade, admiração e dúvida, ela foi se impondo
e, nos anos sessenta, já era a personagem que merecia a maior atenção dentro dos
lares de muitos brasileiros.
Que ela tenha tirado a hegemonia do rádio e do cinema, tudo bem. Mas teria sido
bom o fato de a televisão ter entrado pelas nossas casas, fazendo com que muitos
ficassem presos a ela, anulando, às vezes, o diálogo entre a família, entre os
amigos, diminuindo as reuniões para os bate-papos informais, alienando o
telespectador, prendendo-o a ilusionismos e fazendo-o esquecer-se dos seus
próprios problemas? A Internet viria a ser a causa de um fenômeno parecido,
embora em menor escala, talvez, nos anos noventa.
Claro que, além dos filmes, novelas, reality shows, futebol, mundo-cão e games
shows, existe o jornalismo e aí, talvez, esteja se cumprindo uma das funções
mais importantes da televisão: a de informar.
No entanto, a novela é o vício e a válvula de escape de grande parte da
população, principalmente a classe trabalhadora. E elas, as novelas, mostram,
via de regra, uma realidade que não se identifica com o dia-a-dia do
telespectador, criando um desvio social. Os telespectadores se projetam em
realidades diferentes das suas, esquecendo os próprios problemas, que ficam sem
solução. Assim também com o futebol: o torcedor fica esperando o dia do jogo do
seu time, para torcer por ele, e relega a sua própria vida a segundo plano.
O brasileiro não percebe que está sendo induzido a deixar de lado seus dramas
particulares e reais para vibrar e sofrer com heróis, vilões, mocinhos e
donzelas de um mundo de faz-de-conta.
A televisão não deveria ser um meio de fazer com que a cultura, a informação e o
conhecimento fossem levados mais rápida e facilmente a toda a população? Mas não
é assim. A cultura da televisão, principalmente dos canais abertos, é quase
nula.
Existe, claro, a TV a cabo, que conta com vários bons canais que veiculam
inúmeros programas de arte e cultura, mas não é esta TV que o grande público
menos privilegiado pode ver.
Algumas novelas e seriados produzidos aqui até tem abordado problemas
brasileiros, dando à televisão características de meio de denúncia e protesto.
Mas por outro lado, a banalização da violência, do sexo e da corrupção é mais
forte.
Não seria bom que canais como Futura e TV Senac tivessem sinal aberto? Que
estivessem ao alcance de todos que precisam da cultura e do conhecimento que
eles divulgam, como a TV Cultura e a TVE? Existem outros canais para assinantes
com programação educatuva e informativa, cultural e artística, com
documentários, entrevistas, filmes, sobre os mais diversos assuntos, mas não são
brasileiros, por isso não há nem como esperar que se transformem em canais não
pagos.
Sabemos que a televisão é essencialmente comercial e isso não deixará que ela
melhore. Infelizmente vale tudo para ter a maior audiência, tudo mesmo. Cabe a
nós, telespectadores, selecionarmos e vermos somente o que é bom, o que
acrescenta alguma coisa em termos de cultura e de conhecimento. Somos nós que
fazemos a audiência. Se não vermos os programa ruins, eles deverão sair do ar.
Porque ninguém paga fortunas para exibir um comercial num programa que não é
visto.
(21 de agosto/2003)
CooJornal no 328
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa,
Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br
Florianópolis, SC