21/08/2003
Número - 328

 

Luiz Carlos Amorim

 

A CULTURA DA TELEVISÃO
 


 

 

Chegada ao Brasil há cerca de meio século, a televisão veio revolucionar os meios de comunicação, neutralizando parte da força do cinema e até do rádio. Tímida no início, causando curiosidade, admiração e dúvida, ela foi se impondo e, nos anos sessenta, já era a personagem que merecia a maior atenção dentro dos lares de muitos brasileiros.

Que ela tenha tirado a hegemonia do rádio e do cinema, tudo bem. Mas teria sido bom o fato de a televisão ter entrado pelas nossas casas, fazendo com que muitos ficassem presos a ela, anulando, às vezes, o diálogo entre a família, entre os amigos, diminuindo as reuniões para os bate-papos informais, alienando o telespectador, prendendo-o a ilusionismos e fazendo-o esquecer-se dos seus próprios problemas? A Internet viria a ser a causa de um fenômeno parecido, embora em menor escala, talvez, nos anos noventa.

Claro que, além dos filmes, novelas, reality shows, futebol, mundo-cão e games shows, existe o jornalismo e aí, talvez, esteja se cumprindo uma das funções mais importantes da televisão: a de informar.

No entanto, a novela é o vício e a válvula de escape de grande parte da população, principalmente a classe trabalhadora. E elas, as novelas, mostram, via de regra, uma realidade que não se identifica com o dia-a-dia do telespectador, criando um desvio social. Os telespectadores se projetam em realidades diferentes das suas, esquecendo os próprios problemas, que ficam sem solução. Assim também com o futebol: o torcedor fica esperando o dia do jogo do seu time, para torcer por ele, e relega a sua própria vida a segundo plano.

O brasileiro não percebe que está sendo induzido a deixar de lado seus dramas particulares e reais para vibrar e sofrer com heróis, vilões, mocinhos e donzelas de um mundo de faz-de-conta.

A televisão não deveria ser um meio de fazer com que a cultura, a informação e o conhecimento fossem levados mais rápida e facilmente a toda a população? Mas não é assim. A cultura da televisão, principalmente dos canais abertos, é quase nula.

Existe, claro, a TV a cabo, que conta com vários bons canais que veiculam inúmeros programas de arte e cultura, mas não é esta TV que o grande público menos privilegiado pode ver.

Algumas novelas e seriados produzidos aqui até tem abordado problemas brasileiros, dando à televisão características de meio de denúncia e protesto. Mas por outro lado, a banalização da violência, do sexo e da corrupção é mais forte.

Não seria bom que canais como Futura e TV Senac tivessem sinal aberto? Que estivessem ao alcance de todos que precisam da cultura e do conhecimento que eles divulgam, como a TV Cultura e a TVE? Existem outros canais para assinantes com programação educatuva e informativa, cultural e artística, com documentários, entrevistas, filmes, sobre os mais diversos assuntos, mas não são brasileiros, por isso não há nem como esperar que se transformem em canais não pagos.

Sabemos que a televisão é essencialmente comercial e isso não deixará que ela melhore. Infelizmente vale tudo para ter a maior audiência, tudo mesmo. Cabe a nós, telespectadores, selecionarmos e vermos somente o que é bom, o que acrescenta alguma coisa em termos de cultura e de conhecimento. Somos nós que fazemos a audiência. Se não vermos os programa ruins, eles deverão sair do ar. Porque ninguém paga fortunas para exibir um comercial num programa que não é visto.



(21 de agosto/2003)
CooJornal no 328


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br  
Florianópolis, SC