09/08/2003
Número - 327


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Luiz Carlos Amorim

 

CANÇÃO DA SAUDADE
 


 

 

Sentia saudades. Quando via ou ouvia alguma coisa bela, uma flor, muita cor,  luz, sorrisos, um animal, pássaros, árvores, natureza, música, risos, choro  de criança, lembrava dele. Seu pai se foi há tanto tempo, mas ainda fazia  falta.

Aquela teimosia em querer as coisas da maneira certa e esperar que os outros  também fossem corretos, por exemplo, era coisa dele. Ele se decepcionava com  a falta de responsabilidade e de bom senso das pessoas, mas não mudava a sua  maneira de ser.

Herdou dele a honestidade e retidão. Não herdou aquele riso alto e bobo, a  achar graça de algumas coisas corriqueiras e engraçadas que as outras  pessoas nem percebiam. Ah, aquele riso feliz... Aqueles olhos que viam  beleza onde os nossos olhos não alcançavam...

Ele ensinou isso a ela: a ver e enxergar. Ensinou-a a valorizar o sorriso  raro e desgastado de quem ainda tinha forças para sorrir, a se compadecer e  ajudar um pobre animal velho e abandonado, a apreciar as cores e descobrir a beleza das flores mais comuns. Ensinou-a a ouvir e a gostar de música  clássica, assim como das cantigas singelas que cantava com ela na infância e  do som de água de uma cascata de águas limpas e claras. Ensinou-a a gostar  de ler, a reconhecer nos livros, muitos deles, fontes de descobrimento e  conhecimento. Ensinou-a a ter fé numa força superior que rege nossos  destinos e esperança e força para caminhar rumo ao futuro.

Aquelas mãos rudes que seguraram tantas vezes as suas, com carinho e  ternura, fazem muita falta. Aquela voz serena, que sabia ser dura, quando  precisava, lhe ensinara muitas verdades, mesmo quando já soava fraca e  cansada.

A vida era mais fácil quando havia seu ombro e seu peito para encostar a  cabeça e chorar, até, se fosse preciso. Hoje, ela apenas pede a ele que  venha sentar-se à soleira de seu coração para lhe contar uma história  qualquer, com aquela voz serena e grave, num sonho bom e feliz. Sonho bom em  que ele, pai, encostaria a cabeça num pedacinho da alma dela e lhe cantaria  uma canção de ninar, sonora e melodiosa. Depois, pediria a ele, antes que o  sonho terminasse, que lhe dissesse um poema de amor, um daqueles que ninguém  mais sabe e só ele poderia lhe dizer...

Então acordaria, feliz, ainda que a saudade perdurasse, e sorriria como ele  gostava que sorrisse.



(09 de agosto/2003)
CooJornal no 327


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br  
Florianópolis, SC