| Luiz Carlos Amorim
BIBLIOTECAS: TEMPLOS OU DEPÓSITOS?
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Quem se lembra da distribuição, por parte do MEC, de livros para alunos das
quarta e quinta séries do primeiro grau, em 2002? Cada estudante receberia cinco
livros e as escolas públicas receberiam uma coleção de trinta volumes para
incrementar as bibliotecas existentes e iniciar outras onde não houvesse.
Infelizmente o incentivo para a criação de novas bibliotecas não teve o
resultado que se desejaria, pois pais, alunos e professores continuam se
ressentindo da falta delas por este Brasil afora. E isto, todos nós sabemos, em
prejuízo dos muitos alunos que não podem comprar livros e não têm onde
buscá-los, se a própria escola não os tem para oferecer. E há que se considerar
que muitas cidades, pequenas, também não tem biblioteca pública. Os estudantes,
no entanto, precisam não só dos livros didáticos, para pesquisar e aprender, mas
também de livros literários, para poderem adquirir o gosto pela leitura.
O governo gastou milhões com editoras como Ática, FTD, Nova Fronteira e outras,
que até então, talvez, não tivessem feito edições tão grandes de obras de
literatura clássica universal, inclusive brasileiras, com o acréscimo de autores
brasileiros contemporâneos. Uma coleção composta de dezenas de excelentes obras.
Ótima oportunidade para os leitores iniciantes e melhor ainda para as editoras,
que produziram com venda certa.. Bom para todos, não tivesse havido problema em
alguns pontos do país, denunciados pela mídia, como escolas (e quando digo
escola pode ser um professor, o diretor, um “político”) que não entregaram os
livros para os estudantes alegando que “as crianças não saberiam cuidar deles”
ou “eles não vão lê-los”.
Isso é muito grave porque se algumas escolas não entregam aos estudantes livros
que são deles, que lhes pertencem de fato e de direito, não devem ter confiança
para emprestar os livros que estão nas bibliotecas dessas mesmas escolas. Se os
livros não foram entregues aos estudantes, eles devem ter ido para a biblioteca
da escola, não é mesmo? Para quê, então? Para ficarem eternamente guardados, sem
uso?
Muitas das escolas públicas que não tinham biblioteca tiveram oportunidade de
iniciar uma, com a coleção enviada pelo MEC. Já é um bom começo, embora nem
todas tenham aproveitado. E a oportunidade não é só a de dispor de livros para
oferecer aos alunos. É uma chance de começar com o pé direito, repensar a
biblioteca, fazer com que ela passe a ser mais funcional, mais acolhedora, mais
prática. O fato é que, como já dissemos, não é suficiente que tenhamos os livros
para termos a biblioteca.
A biblioteca precisa de um lugar apropriado, comandado por alguém que ame os
livros e a leitura, que atenda convenientemente os leitores e transmita esse
gosto aos visitantes. O leitor precisa ser bem atendido, para que se sinta em
casa, para que goste de estar na biblioteca e assim queira voltar sempre. Ouvi,
ou li, recentemente, alguém que presenciou um fato inusitado em uma biblioteca
escolar: a atendente não queria entregar um determinado livro a uma menina da
quarta série porque “o livro tinha muitas páginas e ela não iria lê-lo”. É
inconcebível um episódio como este, quando lutamos para que justamente os
leitores dessa faixa de idade leiam mais e gostem de ler.
Dentro da idéia de tornar o ambiente mais agradável, não seria interessante se,
além do espaço para se ler, para se escrever, fazer pesquisas, houvesse um
cantinho, nas bibliotecas, para se conversar a respeito de literatura, trocar
idéias, fazer e receber sugestões? As bibliotecas ainda são, muitas delas – das
poucas que existem – um tanto quanto sisudas, conservadoras. Poderiam ser mais
abertas, mais espaçosas, mais iluminadas, mas aconchegantes. E não só as
escolares que, via de regra, tem espaço exíguo. As municipais, as de empresas,
de associações, também. Afinal de contas, biblioteca é um ponto de encontro, não
de passagem.
E as comunidades podem, sim, intervir, interagir com as suas bibliotecas,
sugerindo mudanças, adaptações, dando idéias para melhorar o acervo, o
atendimento, o espaço físico. Doando livros que já foram lidos e estão apenas
ocupando lugar em nossas casas, mas que em uma biblioteca, podem continuar sendo
fonte de lazer e/ou conhecimento.
(12 de julho/2003)
CooJornal no 323
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa,
Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br
Florianópolis, SC