12/07/2003
Número - 323

 

Luiz Carlos Amorim

 

BIBLIOTECAS: TEMPLOS OU DEPÓSITOS?

 

 

Quem se lembra da distribuição, por parte do MEC, de livros para alunos das quarta e quinta séries do primeiro grau, em 2002? Cada estudante receberia cinco livros e as escolas públicas receberiam uma coleção de trinta volumes para incrementar as bibliotecas existentes e iniciar outras onde não houvesse.

Infelizmente o incentivo para a criação de novas bibliotecas não teve o resultado que se desejaria, pois pais, alunos e professores continuam se ressentindo da falta delas por este Brasil afora. E isto, todos nós sabemos, em prejuízo dos muitos alunos que não podem comprar livros e não têm onde buscá-los, se a própria escola não os tem para oferecer. E há que se considerar que muitas cidades, pequenas, também não tem biblioteca pública. Os estudantes, no entanto, precisam não só dos livros didáticos, para pesquisar e aprender, mas também de livros literários, para poderem adquirir o gosto pela leitura.

O governo gastou milhões com editoras como Ática, FTD, Nova Fronteira e outras, que até então, talvez, não tivessem feito edições tão grandes de obras de literatura clássica universal, inclusive brasileiras, com o acréscimo de autores brasileiros contemporâneos. Uma coleção composta de dezenas de excelentes obras.

Ótima oportunidade para os leitores iniciantes e melhor ainda para as editoras, que produziram com venda certa.. Bom para todos, não tivesse havido problema em alguns pontos do país, denunciados pela mídia, como escolas (e quando digo escola pode ser um professor, o diretor, um “político”) que não entregaram os livros para os estudantes alegando que “as crianças não saberiam cuidar deles” ou “eles não vão lê-los”.

Isso é muito grave porque se algumas escolas não entregam aos estudantes livros que são deles, que lhes pertencem de fato e de direito, não devem ter confiança para emprestar os livros que estão nas bibliotecas dessas mesmas escolas. Se os livros não foram entregues aos estudantes, eles devem ter ido para a biblioteca da escola, não é mesmo? Para quê, então? Para ficarem eternamente guardados, sem uso?

Muitas das escolas públicas que não tinham biblioteca tiveram oportunidade de iniciar uma, com a coleção enviada pelo MEC. Já é um bom começo, embora nem todas tenham aproveitado. E a oportunidade não é só a de dispor de livros para oferecer aos alunos. É uma chance de começar com o pé direito, repensar a biblioteca, fazer com que ela passe a ser mais funcional, mais acolhedora, mais prática. O fato é que, como já dissemos, não é suficiente que tenhamos os livros para termos a biblioteca.

A biblioteca precisa de um lugar apropriado, comandado por alguém que ame os livros e a leitura, que atenda convenientemente os leitores e transmita esse gosto aos visitantes. O leitor precisa ser bem atendido, para que se sinta em casa, para que goste de estar na biblioteca e assim queira voltar sempre. Ouvi, ou li, recentemente, alguém que presenciou um fato inusitado em uma biblioteca escolar: a atendente não queria entregar um determinado livro a uma menina da quarta série porque “o livro tinha muitas páginas e ela não iria lê-lo”. É inconcebível um episódio como este, quando lutamos para que justamente os leitores dessa faixa de idade leiam mais e gostem de ler.

Dentro da idéia de tornar o ambiente mais agradável, não seria interessante se, além do espaço para se ler, para se escrever, fazer pesquisas, houvesse um cantinho, nas bibliotecas, para se conversar a respeito de literatura, trocar idéias, fazer e receber sugestões? As bibliotecas ainda são, muitas delas – das poucas que existem – um tanto quanto sisudas, conservadoras. Poderiam ser mais abertas, mais espaçosas, mais iluminadas, mas aconchegantes. E não só as escolares que, via de regra, tem espaço exíguo. As municipais, as de empresas, de associações, também. Afinal de contas, biblioteca é um ponto de encontro, não de passagem.

E as comunidades podem, sim, intervir, interagir com as suas bibliotecas, sugerindo mudanças, adaptações, dando idéias para melhorar o acervo, o atendimento, o espaço físico. Doando livros que já foram lidos e estão apenas ocupando lugar em nossas casas, mas que em uma biblioteca, podem continuar sendo fonte de lazer e/ou conhecimento.




(12 de julho/2003)
CooJornal no 323


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br  
Florianópolis, SC