| Luiz Carlos Amorim
A LITERATURA E O CONSTESTADO |
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Eu já tinha lido “Geração do Deserto”, de Guido Wilmar Sassi, que retrata com
força e autenticidade a Guerra do Contestado, uma réplica de Canudos que a
história do Brasil insiste em ignorar. Existem outros livros sobre o tema, mas
quando me caiu nas mãos “O Bruxo do Contestado”, de Godofredo de Oliveira Neto,
também catarinense, como Guido, pensei que fosse uma nova visão, uma visão por
outro ângulo daquela guerra já tão bem contada e me interessei. Até porque na
contracapa do livro estava escrito que “O Bruxo do Contestado resgata
definitivamente essa página da história...”. Mas comecei a leitura do referido
livro e não encontrei nada da saga do Contestado – nem a disputa pela fronteira
entre Paraná e Santa Catarina, nem o fanatismo dos pequenos, agarrando-se à
religião, ao misticismo e à esperança de encontrar um mundo de fartura e
justiça, nem a exploração destes pelos patrões e poderosos. Pelo menos não na
intensidade com que essas coisas aconteceram no Contestado.
Encontrei, sim, a história de um homem da geração pós-Contestado, visionário,
louco mesmo, que viveu a sua vida esperando um novo Contestado que não viria.
Esse homem, Gerd, teve uma filha retardada, razão pela qual sua esposa não quis
correr o risco de ter outra criança excepcional. E por isso ele achava que a
esposa o traía e a filha não era sua, o que o enlouquecia ainda mais.
A história é boa e poderia ser apreciada por ela mesma, se não acenasse no
título, principalmente, e na contracapa do livro com a promessa de recontar a
Guerra do Contestado. “O Bruxo do Contestado”, ao apenas citar o Contestado como
acontecimento passado, usando isso como um tênue e opaco pano de fundo, valoriza
enormemente a obra de Guido Wilmar Sassi e faz pensar no porquê da falta de
reconhecimento maior de um livro como “Geração do Deserto”, não só pelo tema,
mas também pelas qualidades inquestionáveis de um escritor com estilo e técnica
definidos. O livro de Guido foi publicado em 1964 e foi transformado em filme em
1971, por Sylvio Back, com o título de “A Guerra dos Pelados”. Talvez o fato de
haver sido mudado o título na versão de “Geração do Deserto” para a tela, a obra
originária e o autor não desfrutaram da popularidade que o cinema dá, apesar dos
créditos.
“Geração do Deserto” resgata a verdade, é um livro que se constitui,
inequivocamente, num documento histórico do conflito messiânico liderado pelo
monge José Maria no oeste de Santa Catarina. Guido Wilmar Sassi reconstitui, no
seu romance, fatos que a história política do estado e do país queriam que
permanecesse esquecidos. Ele recriou, numa obra de ficção que espelha a
realidade, respeitando fatos e personagens, espaço e tempo, todo o desenrolar da
Guerra do Contestado, a partir de pesquisa apurada e consistente, junto a
pessoas que participaram das lutas, esmiuçando arquivos com os poucos registros
que havia, confrontando anotações com outros pesquisadores.
O livro mostra bem como o ser humano que não tem o que esperar de uma sociedade
injusta, que é vítima da exploração de patrões, políticos poderosos e empresas
multinacionais, procura se agarrar a qualquer coisa que lhe dê esperança, seja
religião, mito ou misticismo. E luta por uma terra prometida, próspera e justa,
chegando ao fanatismo e mais, podendo matar ou morrer. Isso é a guerra do
Contestado. Não a luta interior de um homem insano, que criou para si uma guerra
particular.
A guerra do Contestado deixou milhares de mortos e dezenas de milhares de
feridos, entre 1912 e 1916. Não é um acontecimento pela qual o Brasil deva se
orgulhar, absolutamente: não tanto pelo fanatismo dos caboclos, mas pelo
massacre deles pelo exército brasileiro. De qualquer maneira foi um crise social
e política que faz parte da história e precisa ser lembrada, até para que não se
repita.
(18 de abril/2003)
CooJornal no 311
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa,
Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br
Joinville, SC