| Luiz Carlos Amorim
MÚSICA IMORTAL |
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Há alguns dias, assistindo a um programa do Jô, coisa que não fazia há bastante
tempo, vi lá o ator Carlos Alberto. E, numa altura da entrevista, lembrando as
várias novelas que ele protagonizou, falou-se de “Bravo”. O apresentador
mostrou, inclusive, a abertura da referida novela, onde o ator regia uma
orquestra. Carlos Alberto emocionou-se visivelmente. Não pela sua interpretação,
como grande ator que é, mas pelo fato de estar regendo uma orquestra. Ele já
havia citado a sua paixão pela música, mas não precisou dizer nada, enquanto a
abertura era apresentada, até porque não conseguiria, pois dava para sentir o
quanto a música mexia com ele, dava pra ver o sentimento que fez com que seus
olhos ficassem molhados.
Para quem não lembra, “Bravo” foi a novela que fez a música clássica conhecida
do grande público, do público comum, fez com que a música clássica vendesse mais
discos e até que ela tocasse no rádio.
Fazer com que a música clássica se transformasse em trilha sonora de uma novela
quase que popularizou esse gênero de música, até então elitizado, considerada
coisa de classes mais “elevadas”, de pessoas cultas.
No início dos anos setenta, as coisas já ameaçavam mudar, quando Waldo de Los
Rios chegou aos primeiros lugares das listas de vendagem e execução em quase
todo o mundo, competindo com todos os outros gêneros mais populares, ao gravar
clássicos de Mozart, como “Sinfonia nº 40” e “Serenata nº 13”, verdadeira
revolução nos meios musicais.
Foi aí que a música clássica começou a chegar até o ouvinte comum, atingindo
todas as camadas da sociedade. As pessoas começavam a conhecer Mozart,
Beethoven, pois o grande público, a partir desse marco, começou a prestar mais
atenção no programa “Concertos para a Juventude”, que existia na televisão, à
época.
Começou a descoberta do encanto e da beleza da verdadeira música, da ação
inconteste que a música clássica tem sobre os espíritos sensíveis, transmitindo
uma paz e uma energia que nos invade em ondas suaves, evidenciando a genialidade
dos grandes compositores e a competência dos grandes intérpretes.
1977 foi o ano em que a televisão ousou e acertou ao usar uma novela, “Bravo”,
para fazer com que todo o grande público conhecesse e gostasse de ouvir Chopin,
Grieg, Tchaikovsky, Mendelsson e outros. Fazer a trilha sonora de uma novela das
sete quase que exclusivamente com clássicos foi arriscar a audiência, já que o
gênero era quase desconhecido do telespectador daquele tipo de programa.
Mas o brasileiro é, em grande parte, adepto da novela e ela pode ser veículo
tanto de maus exemplos como de cultura, também. “Bravo” foi um marco na
divulgação da música clássica, tanto que mesmo depois de terminada a novela,
ainda foram lançados mais dois discos – “Bravo II” e “Bravo III”, com novas
seleções de música erudita.
E mais discos de grandes orquestras interpretando os grandes mestres foram
lançados, apesar de que, pela grande incidência numa mesma época, não se tenha
conseguido a popularização que se esperava. Muitas gravadoras se lançaram ao
filão ao mesmo tempo. O que foi bom para quem já gostava do gênero. O importante
é que o gosto pela música imortal foi ampliado.
Essa afirmação da música dos grandes mestres continuou em 81, quando foi lançada
uma coletânea de excertos de inúmeras obras dos principais compositores
clássicos, como Tchaikovsky, Rimsky, Beethoven, Bach, Rossini, Handel, Grieg,
Bizet, Schubert, Lizt, Rachmaninoff, Strauss, Dvorak, Brahms, Chopin, Paganini,
Wagner, Borodin, Puccini, Verdi e muitos outros, chamada “Hooked on Classics”.
Foram dois volumes que mostraram trechos do maior número de obras e
compositores, magistralmente executados pela Royal Philarmonic Orchestra. Estes
discos foram lançados, também, em CD.
Nos anos 90, uma revista presenteou os leitores com uma coleção de dez CDs,
chamada “Jóias da Música – O Clássico dos Clássicos”, focalizando todos os
grandes compositores clássicos. A coleção teve sucessivas edições.
E a música clássica passou a ser ouvida em casa, no carro, tocada em algumas
emissoras de rádio, assobiada nas ruas e ganhou até novos espaços na televisão,
impondo-se pelo valor que tem.
Recentemente a TV Senado começou a apresentar, sob o comando de Arthur da Távola,
o programa “Quem tem medo da Música Clássica”, apresentando grandes orquestras
executando grandes peças de grandes compositores.
Música clássica é para se ouvir sempre. Não tem época. É universal, atemporal e
imortal. Como diz o apresentador de “Quem tem medo da música clássica?”: “Música
é vida interior. Quem tem vida interior, jamais padecerá de solidão.”
(15 de fevereiro/ 2003)
CooJornal no 302
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa,
Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br
Joinville, SC