| Luiz Carlos Amorim
OS ESCRITORES E A ACADEMIA |
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Com a eleição de Paulo Coelho para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira
de Letras, neste ano de 2002, veio à tona, com mais força do que nunca,
novamente, o questionamento sobre os critérios usados para que alguém seja
eleito "imortal". O "Mago" é um campeão de vendas, publicado inclusive em
outros países, mas as opiniões se dividem. Há um segmento do público que tem
dúvida a respeito do valor literário da obra do escritor. Verdade que ele
sempre teve a mídia a seu favor - e não estou falando de crítica literária,
e sim da "máquina" que massifica. No entanto, um público como o que compra
os seus livros não pode estar totalmente errado. Não estou defendendo a
escolha desse público, na verdade nunca consegui ler um livro de Paulo
Coelho até o fim, mas há que se reconhecer a sua popularidade.
Se verificarmos os escritores que ocupam ou ocuparam as quarenta cadeiras
da Academia Brasileira de Letras, veremos que há outros nomes de políticos,
diplomatas, religiosos, advogados, que talvez não devessem estar ali.
E se formos mais observadores ainda, veremos que há nomes de grandes
escritores brasileiros, como Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade,
Cora Coralina e outros, que não se tornaram imortais. Será que não tinham
qualificações para tal?
Carlos Drummond de Andrade, sabemos, era avesso às badalações e exposição e
não deve ter querido entrar para a Academia, provavelmente. Mas Quintana
candidatou-se três vezes e desistiu. Depois da terceira tentativa malograda,
inclusive, ele escreveu o seu famoso "Poeminha do Contra": "Todos esses que
aí estão / atravessando meu caminho, / eles passarão... / eu passarinho!".
Zélia Gatai, por exemplo, independentemente de suas qualidades como
escritora, teria sido eleita se não fosse a viúva do nosso saudoso Jorge
Amado? José Sarney, se não tivesse sido presidente, teria vestido o fardão?
Existem nomes, dentre os atuais ocupantes de algumas das cadeiras da
Academia Brasileira de Letras que são ilustres desconhecidos para a maioria
de nós, pobres mortais. Isso, é claro, não lhes tira o mérito da obra.
Verificando os estatutos da instituição, constatamos que os critérios não
são tão claros quanto poderiam ser. No artigo primeiro, lemos que ela "tem
por fim a cultura da língua nacional..." Ótimo. No artigo segundo, está
escrito que "só podem ser membros efetivos da Academia os brasileiros que
tenham, em qualquer dos gêneros de literatura, publicado obras de
reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário."
Quando o estatuto cita "obras de reconhecido mérito", não especifica se é
necessário que essas obras estejam publicadas em livro. Fica implícito,
então, que a obra pode ter sido publicada em qualquer lugar: em jornais,
revistas, antologias, etc. E quando diz "qualquer dos gêneros de
literatura" e depois "fora desses gêneros, livro de valor literário", a
coisa fica meio confusa. Se é qualquer dos gêneros literários, pode haver
algum livro com valor literário fora desses gêneros? Será que isso não
causou nenhuma dúvida até agora?
No artigo quatorze, a coisa se repete: "O membro efetivo será eleito, nas
condições do art. segundo, dentre os brasileiros que tenham publicado, em
qualquer gênero de literatura, obra de reconhecido mérito ou, fora desses
gêneros, livro de valor cultural. Mudou pouca coisa, e a dúvida continuou.
Talvez tenha sido proposital uma certa maleabilidade.
Maleabilidade para que possa acontecer, em alguns casos, uma escolha mais
política do que por méritos culturais ou literários.
(07 de dezembro/ 2002)
CooJornal no 289
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta, Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa,
Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br
Joinville, SC