16/11/2002
Número - 286


 

Luiz Carlos Amorim

 

A FONTE DA JUVENTUDE

 

Não é requisito obrigatório que sejamos jovens para sermos poetas. Juventude é um estado de espírito. Um bom exemplo disso é Aracely Braz que, depois de dedicar quase uma vida ao magistério, voltou-se para a poesia e deu a público sua primeira obra solo, o livro de poemas “Pedaços de Mim”.

Que idade teria Aracely? Quinze, vinte, trinta, ou sessenta? Não importa, pois sua poesia é jovem, tem a sensibilidade e o lirismo dos quinze e a sabedoria e vivência dos sessenta. Aracely conserva, dentro de seu coração de poeta, a emoção de um primeiro amor, aos quinze: “Naquela rua / a mão eu te estendia / pra contigo passear...”

E, em contrapartida, tem a sensatez dos sessenta, ao convencer-se de que sempre, a despeito de qualquer idade ou sabedoria, temos mais a aprender: “Vem, avance alguns passinhos / numa troca de carinhos / eu a ajudá-lo / você a me ensinar. / Quero ver, sentir, viver / a ingenuidade desse sorriso / que perdi no compasso do tempo.”

A vida não é um fardo a pesar nos ombros de Aracely: ela é um privilégio e por isso a poesia é um canto à paz, à natureza, ao amor, à fraternidade. É um canto à vida, essa mesma vida que Aracely decidiu viver em toda a sua plenitude.

A beleza da poesia de Aracely está na simplicidade, na objetividade, na sinceridade, não se importando com técnicas poéticas revolucionárias e complicadas, que prejudicariam a transmissão de seu sentimento e de sua emoção ao leitor. Ela fala simplesmente ao coração.

Coração que tem muito a dizer, sempre. E veio o segundo volume de poemas, que ela chamou de “Eureka”. Qual teria sido o motivo que levou Aracely a batizar seu segundo livro com este nome? Diria eu que deve ter sido o que ela exclamou, quando descobriu o porquê dessa juventude perene, tão constante, que a acompanha e a faz a poeta mais atuante da região, essa juventude que a transforma nessa fonte inesgotável de poesia, que a faz a própria fonte da juventude. E essa jovem que faz poesia, que a canta, que leva a poesia com ela para onde quer que vá, essa jovem que até se confunde com a poesia tem, como já dissemos, apenas sessenta e poucos anos. E, com essa idade precoce, Aracely participa de feiras de arte, de reuniões, de recitais, de palestras, de encontros, de concursos, etc., caracterizando-se, sem a menor sombra de dúvida, na divulgadora e difusora mais eficiente da poesia.

A matéria-prima do poeta é, em primeiro lugar, a emoção. E essa matéria-prima Aracely tem de sobra, aliada a essa juventude crônica e abençoada que lhe é intrínseca.

E a natureza criadora da poeta, sem pressa, foi compondo, ao sabor da inspiração, este novo livro, como conseqüência natural da sua evolução. O romantismo é a tônica desta nova seleção de poemas, deixando transparecer, também e como sempre, o social, a fraternidade a preocupação com a natureza. E toda a sua juventude, juventude eterna e perene como a sua poesia. Como em “Viagem”: “...Viajei buscando asas, / cores, canções... / relutei momentos de saudade, / de melancolia. / Bebi o néctar da paixão, / mergulhei no desejo do perdão, / plantei a semente do amor... / Mastiguei cocos, apalpei musgos, / tão verdes como minha esperança. / E na magia d´um mundonovo, / tornei-me inimiga das horas...”

Ou como em “Fim de Noite”: “... quando o poeta, / mais um transeunte da caminhada / eloqüente em sua doce magia, / pincela a natureza com filetes de poesia...”.



(16 de novembro/ 2002)
CooJornal no 286


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br  
Joinville, SC