| Luiz Carlos Amorim
OS LIVROS DAS CRIANÇAS |

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Quando fiquei sabendo que o Ministério da Educação e Cultura, através do Fundo
Nacional de Desenvolvimento da Educação – FNDE, estava distribuindo aos alunos
de quarta e quinta séries uma coleção de cinco livros de autores consagrados,
clássicos e contemporâneos, não pude deixar de ficar feliz. A antiga luta para
se conseguir colocar livros nas mãos das crianças menos favorecidas,
principalmente aquelas das pequenas escolas do interior e da periferia das
grandes cidades, escolas que nem bibliotecas tinham, parecia estar dando
resultado. Finalmente aquelas crianças que, em muitos casos, vêm de famílias que
não podem sequer comprar os livros didáticos, necessários ao estudo, receberiam
livros de autores como Lygia Fagundes Teles, Machado de Assis, Drummond,
Gonçalves Dias, Mário Quintana, Pedro Bandeira, João Ubaldo Ribeiro, Ana Maria
Machado e outros.
E, no primeiro semestre deste ano, realmente, o chamado programa “Literatura em
Minha Casa”, inserido na campanha “Vamos fazer o Brasil um país de leitores”
começou, segundo alguns professores que conheço e também segundo a mídia, que
noticiou, a distribuir a “cesta básica” de livros aos estudantes.
Meritória e necessária iniciativa levada a efeito, com enormes dividendos para a
educação e a cultura deste país, que se propõe a beneficiar leitores em formação
que teriam, desse modo, livros para que pudessem então, adquirirem o gosto pela
leitura.
É ótimo negócio para as editoras que venderam, de uma só vez, uma quantidade
recorde de livros por um valor de cerca de sessenta e sete milhões, segundo o
MEC, que pagou a conta. E que não fez mais do que obrigação, é claro.
Mas, pasmem, era muito bom para ser verdade. Já tomei conhecimento de denúncias,
feitas por pessoas respeitáveis envolvidas com educação, de que algumas escolas,
em alguns pontos do Brasil, não estão entregando os livros para os estudantes
porque, entre outras desculpas esfarrapadas, “eles não saberiam cuidar dos
mesmos”, “eles estragariam os livros” e “nós entregaremos mais tarde”.
Isto é possível? O programa do MEC previa entrega de cinco livros para cada
criança que estivesse na quarta e quinta séries. E previa, também, que as
escolas receberiam uma coleção de trinta títulos para incrementar suas
bibliotecas ou iniciar uma onde não houvesse.
Isso é crime. Negar um direito das crianças, negar-lhes o acesso aos livros que
lhes pertencem é um ato que deveria ser punido severamente.
Os livros são caros e, mesmo havendo aquelas edições econômicas nas bancas de
jornais, com preços menores, há quem não possa pagar. E como há. Então, quando
finalmente, num lampejo de consciência, os responsáveis pela educação pensam na
carência de leitura de tantas das nossas crianças, a própria escola nega-se a
cumprir esse direito e não entrega os livros aos seus legítimos donos?
Que escola é essa? Que país é esse?
(25 de outubro/ 2002)
CooJornal no 283
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa,
Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br
Joinville, SC