19/10/2002
Número - 282


 

Luiz Carlos Amorim

 

POESIA DO RÁDIO EM LIVRO

 

Não seria o contrário? Não, é isso mesmo: poesia do rádio em livro. A poesia transcendeu o seu suporte tradicional, o papel, e se fez som num grande veículo de comunicação que é o rádio. Isso, graças a um pioneiro, o comunicador e poeta Sólon Schil, produtor de um programa que poderia ser igual a tantos outros e, no entanto, pela ousadia de ser original, firmou-se como o espaço mais eficiente e direto para levar a poesia até o público – um público novo – aguçando a sensibilidade e a emoção do ouvinte e do poeta.

Estamos falando de FIM DE NOITE, programa que foi ao ar por anos a fio no rádio do norte catarinense: um programa de música popular brasileira selecionada, carinho e poesia de gente da terra da gente. O lugar certo para se ouvir, ao lado de um Drummond ou de um Vinícius, um poeta novo mostrando seu trabalho pela primeira vez. Onde se podia ouvir Gal, Gil, Tim Maia, Nelson Gonçalves, Paulinho da Viola, Marisa Monte e tantos outros expoentes da nossa música popular, sem sermos obrigados a digerir Raimundos Charlie Brown, Supla e etc. da vida. E os intervalos entre as músicas eram preenchidos com o bom papo do comunicador, informações culturais e oportunas e muita poesia, de novos poetas se revelando e de poetas consagrados também.

Era a poesia direto do poeta ao público, sem intermediários. E o próprio ouvinte-poeta, aquele que não teve oportunidade de publicar o seu trabalho, podia se utilizar desse veículo fantástico que é o rádio para divulgar a sua poesia.

E nos dois primeiros anos de programa, o produtor e apresentador do Fim de Noite recebeu e colocou no ar mais de mil poemas escritos e enviados pelos seus ouvintes. De uma iniciativa pioneira como essa, criando um novo espaço e sendo tão grande a receptividade a ponto de reunir uma quantidade tão grande de poemas, a idéia surgiu: por quê, depois de atingir o público através deste poderoso veículo de comunicação de massa que é o rádio, não voltar ao suporte tradicional, o papel, e reunir em livro os melhores poemas do Fim de Noite?

Sem concurso, sem dar primeira ou segunda colocação a este ou aquele poema, simplesmente entregar aos leitores uma amostra do que os ouvintes do programa produziram e foi apresentado.

E surgiu a antologia “Os Melhores Poemas do Fim de Noite”, tornando vizinhos de páginas poetas já conhecidos de publicações em revistas e jornais, ou mesmo em livro, e poetas novos, anônimos até então, que encontraram no programa e na voz do também poeta e apresentador Sólon Schil a oportunidade de mostrar o seu trabalho.

E a poesia foi do rádio para o livro, um livro reunindo cinqüenta poetas, mostrando que as pessoas que escrevem, por aqui, não se resumem a este ou aquele.

E quanto lirismo na simplicidade de sentir emoções nos poetas do Fim de Noite...

Ah, que vontade de sentir “a leveza do vento / acariciando meu rosto / imitando ternura” (Cecília Machado); ter “olhos castanhos, serenos / que traduzem no olhar / a paz que eu preciso” (Darcy Nogueira); ter a “fome do sentimento”, como Jorge Moreno, “te encontrar /em meio a minha solidão / e plantar eu teu coração / um pouquinho de amor” (Rosana Teodoro). Aprender o que “as canções da madrugada / são capazes de ensinar” (Delícia Bloemer). E então “miro o infinito / do teu ser / e sinto que eu nunca / passei por aqui” (Veridiana). Mas há sempre uma primeira vez. “Basta ser humano / para pregar a verdade / cultivar a mentira / - construir ou destruir” (João C. Gomes). Somos assim mesmo. E vem “a luz que brilha do poente / e uma estrada para amar” (Aracely Braz). A estrada está aí, é só caminharmos por ela.

“Brota no peito a poesia / como a flor de um sentimento” (Claus Monick). Ah, a poesia... “Canções tristes que falam de amores / de sonhos / de vida” (Rosângela Borges). Nem só tristes, as canções: “Quanta alegria inconsciente / nas esquinas das manhãs” (Luiz Antonio).

É preciso viver para ser feliz. “Meu coração, / de desenganos sofrido / - mas de paixões fortalecido / se rebela / - grita / não se cala” (Sólon Schil). Há que não se calar, mesmo que o grito seja de dor, pois “nossa voz é o som eterno do universo” (Rosane Martins)

É, “o amor ainda é o caminho mais forte / a certeza mais certa / de que haverá amanhã...” (Silvinha).

É preciso dizer mais?

Talvez. Dizer que as Edições A ILHA, do Grupo Literário A ILHA resgata os originais de “Os melhores Poemas do Fim de Noite” e publica a antologia, como reconhecimento ao trabalho do comunicador Sólon Schil e aos poetas/ouvintes do programa. O livro está no prelo.


(19 de outubro/ 2002)
CooJornal no 282


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br  
Joinville, SC