| Luiz Carlos Amorim
LITERATURA E VERDADE |

|
Estou fazendo uma seleção dentre os meus livros de contos publicados até agora –
quatro, pois os outros são de poemas e crônicas – para publicar uma antologia do
que tenho no gênero. São trinta anos de caminhada e, desde que apenas alguns
textos esparsos meus, eram publicados na imprensa – em jornais, revistas,
alternativos -, as opiniões que mais me interessaram, sempre, não eram as dos
críticos, mas sim do leitor comum, aquele que a gente encontra na rua e nos diz:
“li o seu conto, ou seu artigo, ou seu poema, gostei, não gostei, por isso, por
aquilo...”
Há pouco tempo, conversando com amigos, ao comunicar-lhes o próximo lançamento
da antologia de contos, um deles aproveitou a oportunidade para dizer da sua
impressão quanto a alguns dos contos já publicados em livros anteriores.
Dizia-me ele que lera o conto “Um Papai Noel Diferente”, do livro “Vida, Vida”,
publicado no Rio em edição nacional e também “O Presente de Natal”, de
“Pedaços”.
E perguntou-me porque eu não escrevia mais contos como o primeiro, que apesar de
constituir-se de forte denúncia social, tem final feliz: o problema é
apresentado, mas apresenta-se uma solução, ao final. O contrário do que acontece
com “O Presente de Natal”, que aborda o mesmo tema, o abandono da criança pobre,
mas termina sem um bom final para o protagonista: fica a realidade dura, a
verdade nua e crua diante do leitor, para que ele tome conhecimento de uma
situação que existe – não é ficção – e deve ser mudada. Para que ele, leitor,
seja levado a tentar mudá-la.
Acha o meu amigo que a literatura deveria ater-se à linha do primeiro conto, o
do final feliz, pois textos como o segundo apenas oprimem o leitor, que se vê
diante de uma situação consumada, sentindo-se impotente.
Antes de qualquer coisa, é preciso esclarecer que a “situação consumada” é
apenas um exemplo das tantas que proliferam por este mundo afora, pelo nosso
país, na nossa cidade, no nosso bairro, contra as quais precisamos lutar. Assim
como também o final feliz de “Um Papai Noel Diferente” é, simplesmente, uma
sugestão do autor quanto a uma situação semelhante: se cada um de nós der um
pouquinho do pouco que temos, a miséria, o desamparo com certeza não seriam tão
grandes. O leitor não precisa e não deve receber um pacote fechado, tudo
mastigado, ele precisa pensar e interagir, descobrir novas formas de provar a si
mesmo, a nós todos que a fraternidade ainda existe e que podemos ser melhores,
se quisermos.
A minha intenção, ao escrever um conto e retratar nele a realidade do cotidiano,
não é oprimir o leitor, chocá-lo gratuitamente, mas sim alertá-lo, mostrar-lhe a
vida acontecendo ao seu redor, com situações que precisam ser repensadas e
modificadas, intimando-o, com isso, a tomar atitudes.
Meu objetivo não é escrever histórias água-com-açúcar para que o leitor veja o
mundo cor-de-rosa e durma tranqüilo, porque eu não estaria sendo honesto nem
comigo mesmo, nem com o leitor.
O tempo dos finais felizes já se foi, a vida é bem diferente. E o que pretendo,
com meus textos, é que nos demos conta de que nem tudo está certo e que se cada
um de nós fizermos algo para melhorar, para corrigir os erros, a vida será mais
fácil.
Por extensão, emergiu também a minha “campanha” para que se consiga que leiamos
mais: como esperar que as pessoas adquiram o hábito da leitura, se textos como
os meus as agridem? Que os meus textos não pretendem agredir, já ficou claro. E
se escrever bem é armar uma trama complicada para consertar tudo no final, eu
escrevo e continuarei escrevendo mal, pois prefiro ver a realidade, a criar
ilusões que só alienam o leitor.
Além do mais, os leitores os quais quero atingir e que entendem o que quero
transmitir, sairão das páginas de um conto meu, talvez, procurando ao seu redor
um ser humano que, quem sabe, precisa apenas de um sorriso, de uma palavra
amiga, de um aperto de mão... E a função dos meus contos se terá cumprido.
Utopia? Prefiro achar que não. Eu acredito nas pessoas que podem exercitar o
amor que existe dentro delas. E o compromisso da minha literatura é agredir,
sim, mas agredir o comodismo que deixa a boa vontade e a fraternidade encerrados
no fundo do coração, a fim de fazê-lo florescer, fluir para fora em ações, em
atitudes de humanismo para com o próximo.
O ser humano é solidário por natureza. Só precisamos chamá-lo para praticá-la.
(27 de julho/ 2002)
CooJornal no 269
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa,
Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br
Joinville, SC