06/07/2002
Número - 266

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Luiz Carlos Amorim

 

A LITERATURA E O VESTIBULAR

 

Comentei, recentemente, sobre um livro pedido para o vestibular, que li porque minha filha estava lendo e que achei singular, por vários aspectos. O livro não tinha um gênero definido – seria poesia, prosa, ou os dois? Um volume com pouco texto, quase hermético, onde o autor fazia uso constante de figuras de linguagem e palavras incomuns, não usáveis no dia-a-dia, nem na fala nem na escrita.

Uma amiga minha, também ligada às letras, ao ler a crônica, interessou-se pelo livro, surpreendida pelo incomum de uma obra assim tão difícil ter sido escolhida para que os vestibulandos lessem e fossem questionados a respeito.

Seria apropriado para nossos estudantes que ainda não têm o hábito de ler e escrever, que ainda “não dominam a dança das palavras”? Esta é uma questão que deveria ser levantada. Os livros pedidos nos vestibulares não deveriam ser obras consistentes, lógicas, que estimulassem os leitores em formação a irem em frente na leitura, como bem disse minha amiga Irene?

Ao invés disso, nossos jovens estudantes, aspirantes à universidade, não estariam sendo incentivados a lerem apenas “resumos”, que dão, quase sempre, apenas vaga idéia do enredo da obra? Resumos onde perdem-se características importantes do texto, como estilo e linguagem. E sabemos, os vestibulares raramente cobram enredos. Também não é suficiente assistir peças ou filmes baseados nos títulos a serem lidos. Eles até podem ajudar, no que diz respeito a fixar ou relembrar, se forem vistos depois de lidos os livros – como complemento.

Algumas das obras selecionadas são clássicos da literatura brasileira ou portuguesa. Mas algumas são de autores regionais, e cada estado escolhe alguns dos seus escritores mais representativos. Infelizmente, o que se tem observado – em alguns casos – é que livros não colocados nas listas de selecionados nem sempre por suas qualidades literárias, mas sim para alavancar a venda dos mesmos.

É lamentável que se constate isso, mas já aconteceu na lista dos vestibulares e acontece nas escolas, principalmente estaduais, o que não quer dizer que não aconteça nas particulares: os alunos recebem uma lista dos livros que devem ler durante o ano letivo, onde constam, algumas vezes, obras de “escritores” ligados ao estado, isentas, às vezes, de representatividade. Obras que não existem nas bibliotecas municipais ou das escolas, quase sempre, e que os alunos terão que comprar.

Que critério é usado para que se chegue aos títulos que nossos vestibulandos deverão ler para adquirir a cultura que deverão mostrar nos exames?


(06 de julho/ 2002)
CooJornal no 266


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br  
Joinville, SC