| Luiz Carlos Amorim
A LITERATURA
E O VESTIBULAR
|

|
Comentei, recentemente, sobre um livro pedido para o vestibular, que
li porque minha filha estava lendo e que achei singular, por vários
aspectos. O livro não tinha um gênero definido – seria poesia, prosa,
ou os dois? Um volume com pouco texto, quase hermético, onde o autor
fazia uso constante de figuras de linguagem e palavras incomuns, não
usáveis no dia-a-dia, nem na fala nem na escrita.
Uma amiga minha, também ligada às letras, ao ler a crônica,
interessou-se pelo livro, surpreendida pelo incomum de uma obra assim
tão difícil ter sido escolhida para que os vestibulandos lessem e
fossem questionados a respeito.
Seria apropriado para nossos estudantes que ainda não têm o hábito de
ler e escrever, que ainda “não dominam a dança das palavras”? Esta é
uma questão que deveria ser levantada. Os livros pedidos nos
vestibulares não deveriam ser obras consistentes, lógicas, que
estimulassem os leitores em formação a irem em frente na leitura, como
bem disse minha amiga Irene?
Ao invés disso, nossos jovens estudantes, aspirantes à universidade,
não estariam sendo incentivados a lerem apenas “resumos”, que dão,
quase sempre, apenas vaga idéia do enredo da obra? Resumos onde
perdem-se características importantes do texto, como estilo e
linguagem. E sabemos, os vestibulares raramente cobram enredos. Também
não é suficiente assistir peças ou filmes baseados nos títulos a serem
lidos. Eles até podem ajudar, no que diz respeito a fixar ou
relembrar, se forem vistos depois de lidos os livros – como
complemento.
Algumas das obras selecionadas são clássicos da literatura brasileira
ou portuguesa. Mas algumas são de autores regionais, e cada estado
escolhe alguns dos seus escritores mais representativos. Infelizmente,
o que se tem observado – em alguns casos – é que livros não colocados
nas listas de selecionados nem sempre por suas qualidades literárias,
mas sim para alavancar a venda dos mesmos.
É lamentável que se constate isso, mas já aconteceu na lista dos
vestibulares e acontece nas escolas, principalmente estaduais, o que
não quer dizer que não aconteça nas particulares: os alunos recebem
uma lista dos livros que devem ler durante o ano letivo, onde constam,
algumas vezes, obras de “escritores” ligados ao estado, isentas, às
vezes, de representatividade. Obras que não existem nas bibliotecas
municipais ou das escolas, quase sempre, e que os alunos terão que
comprar.
Que critério é usado para que se chegue aos títulos que nossos
vestibulandos deverão ler para adquirir a cultura que deverão mostrar
nos exames?
(06 de julho/ 2002)
CooJornal no 266
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa,
Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br
Joinville, SC