| Luiz Carlos Amorim
ANTOLOGIAS E OS NOVOS ESCRITORES
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Não é de agora que publicar um livro é muito difícil, principalmente
para os novos escritores, os inéditos. As editoras não arriscam em
autores desconhecidos e edições próprias são muito caras, sem falar na
distribuição do livro acabado, pronto, que é um problema à parte.
Nos anos 80, valendo-se desse anseio de escritores que não tinham
ainda nada da sua obra em livro, mas que queriam ver seu trabalho
publicado, fosse em uma edição solo ou em qualquer outra publicação do
gênero, apareceram as antologias. As páginas e os suplementos
literários, que já eram poucos, foram sumindo rapidamente e os
alternativos tinham dificuldades em sobreviver. Havia sido encontrada
a solução milagrosa para suprir a falta de espaço no que dizia
respeito ao escoamento da produção literária dos novos: as antologias
cobravam por página e os “editores” publicavam volumes alentados, com
mais de quatrocentas páginas, em alguns casos, e em coleções de quatro
ou cinco volumes. Desta maneira, as antologias publicavam centenas de
novos escritores, a peso de ouro, com os valores correspondentes
cobrados em parcelas, cobrados antes de imprimir o livro, é claro.
Pagava-se para entrar e, em se pagando, publicavam qualquer coisa.
Muitas vezes sob a alegação de que se tratava de um concurso, com
seleção dos melhores textos, só que todos que enviavam algum trabalho
eram selecionados. O resultado era uma torre de babel, com pouca coisa
boa e muita coisa de péssima qualidade ocupando a maior parte dos
livros.
Falo com conhecimento de causa, pois participei de duas dessas
antologias, que passei a chamar de “antologias milionárias”, visto que
só eram interessantes para quem as editava.
Para os “editores” era um grande negócio: além de cobrar caro e
receber adiantado, eles nem sequer precisavam se preocupar com a
distribuição ou venda dos livros: eles já estavam vendidos, pois cada
um dos escritores que pagou, antecipadamente, para participar, pagou
pela publicação e pela compra de exemplares.
O custo dos livros não chegava nem a um terço do que era cobrado pela
participação na antologia. O resto era lucro dos “editores”.
E essa “indústria” das antologias existe ainda hoje. É comum
recebermos, em nosso e-mail, “convites” de algumas “editoras” para
participarmos de determinadas antologias, com relação de preços por
página e número correspondente de exemplares a que se tem direito.
É de se lamentar, pois depõe contra trabalhos sérios que são feitos
com sacrifício, com critério e com qualidade. Bem diferente das
antologias comerciais e milionárias que, em sua grande maioria, são
compostas de textos fracos, sem valor literário: tudo é publicado,
desde que se pague o preço.
Alguns grupos de escritores – inéditos, principalmente, mas não apenas
eles – estão driblando essa indústria de má fé, reunindo-se em
cooperativas, isto é: selecionam o material, calculam o custo e o
dividem, proporcionalmente, entre o número de participantes. A edição
é dividida entre os autores publicados também proporcionalmente ao
número de páginas ocupado por cada um. Não há que haver lucro para
nenhum organizador ou editor e os escritores podem reaver o que foi
investido com a venda dos exemplares recebidos.
É natural que queiramos publicar o nosso trabalho. Mas precisamos
submetê-lo à apreciação de outrem, de preferência pessoas ligadas ao
meio, colegas do ofício de escrever, professores de português – a fim
de sabermos se nosso texto tem um mínimo de qualidade. Para que não
venhamos a cair nas mãos de “editores” que nada mais querem além do
nosso dinheiro. A literatura não pode ser reduzida a isto.
(29 de junho/ 2002)
CooJornal no 265
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa,
Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br
Joinville, SC