| Luiz Carlos Amorim
A LITERATURA DE ENÉAS ATHANÁZIO
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Enéas Athanázio é um nome conhecido e respeitado no estado de Santa
Catarina
e pelo Brasil, pela sua obra que chega a mais de 40 títulos, hoje, e
pelos
ensaios, contos, crônicas e artigos que publica em jornais, revistas e
antologias pelo país afora. Não é à toa que se chega onde o Dr. Enéas
chegou. Ele é, talvez, o mais importante contista do nosso Estado, sem
falar
que é um ensaísta investigativo e produtivo, um dos maiores estudiosos
de
Lobato, entre outros grandes nomes da literatura brasileira. Li, com
prazer,
toda a obra deste grande escritor e gostaria de poder falar de cada
livro,
mas abordarei apenas alguns.
Acabo de ler, por exemplo, "AS ANTECIPAÇÕES DE LOBATO E OUTROS
ESCRITOS".
Ele nos traz, neste livro, ensaios sobre Lobato, assim como também
sobre
Rangel, Cendrars e outros. Como sempre, um volume de conhecimento,
fruto de
estudo e pesquisa, registro da história da nossas letras que vem
enriquecê-las ainda mais.
Outros dois novos livros de Enéas Athanázio que tive o prazer de ler
são "A
Gripe da Barreira - Causos do Ermo", mais um volume de contos, gênero
em que
o autor é mestre e "O Regionalismo Passado a Limpo". O primeiro
prossegue,
segundo o próprio contista, na tentativa de formar um painel dos
Campos
Gerais - Lages, como nunca se fez antes, registrando através da ficção
o que
a região tem, ou tinha, de característico ou diferente. Cada conto é
como um
novo capítulo do mesmo romance ambientado na região serrana de Santa
Catarina. É fantástica a habilidade com que o autor conduz a sua
narrativa,
de maneira que o leitor consegue se situar no meio do fato
acontecendo,
olhando para cenários, para personagens, sentindo cheiros, ouvindo
sons. Dá
prazer ler os "causos" da região dos Campos Gerais, a terra do Dr.
Enéas. Eu
dei gargalhadas sozinho, ao ler "A Visita do Bispo". Não sei se o fato
narrado aconteceu realmente, mas eu visualizei a situação e o autor
fez com
que eu a visse hilária, muito divertida mesmo, evidenciando quão
importante
é saber contar histórias.
O outro é "O Regionalismo Passado a Limpo", um resumo do que o autor
leu e
pensou sobre o regionalismo, muito pouco conhecido, assunto sobre o
qual
tanto ele tem escrito e falado.
"FAZER O PIAUÍ - Crônicas do Meio-Norte", 112 páginas, publicado pelas
Edições Minarete, é excelente livro de crônicas do autor.
Leitor e viajante incansável, Enéas Athanázio mantém contatos com
escritores
de todo o país, sempre escrevendo sobre suas obras. Antes mesmo de sua
primeira visita ao Piauí, já analisara livros de autores daquele
Estado em
artigos críticos estampados na imprensa. Essa atividade, desde então,
nunca
cessou, intensificando-se ainda mais após suas andanças piauienses,
comentando obras de várias épocas e gêneros diversos. É essa produção
que o
autor reúne nesse novo livro, homenageando o Piauí, terra que aprendeu
a
admirar e onde tem tantos e tão fraternos amigos.
Outros dois bons livros de um dos maiores representantes das letras
catarinenses por este Brasil afora: "O Cavalo Inveja e a Mula Manca",
coletânea de contos - histórias curtas, curiosas e gostosas, contadas
com
uma desenvoltura e uma simplicidade como se agente estivesse
conversando e
ouvindo Dr. Enéas contá-las. O estilo dinâmico, a temática centrada na
vida
de gente como a gente, de gente da terra da gente, confere à obra
deste
contista de mão cheia o sabor de autenticidade, de verossimilhança,
até de
cumplicidade do leitor.
"A Liberdade Fica Longe" é uma novela na qual se percebe as mesmas
qualidades do contista, mais a capacidade de manutenção da excelente
narração, onde o autor engendra uma pequena grande história que
poderia ser
verdadeira hoje, ontem ou amanhã. Com competência e graça em todos os
sentidos, ele usa um vocabulário simples e rico ao mesmo tempo,
integrando
com maestria termos regionais interessantíssimos, que quase não
ouvimos em
centros urbanos. A leitura da obra deste escritor é cada vez mais
prazerosa
e podemos recomendá-la com a maior segurança.
O PERTO E O LONGE I e II - Depois de ler o livro "O Perto e o Longe",
a
primeira coisa que me ocorreu foi o quanto encaixou com perfeição o
título
escolhido. Eu me senti muito perto de personalidades marcantes da
literatura
brasileira, como Rangel, Lobato, Barreto, Montelo, Mário de Andrade e
outros, alguns já tão longe no tempo, mas presentes através da sua
obra.
Conheço o Dr. Enéas e sei que ele é uma daquelas pessoas que fala e
diz, que
olha e vê. E ele sempre surpreende a gente com um trabalho ainda
melhor que
o anterior. Sou fã incondicional do conto, gênero que ele domina tão
bem,
mas confesso que passei a apreciar também o ensaio: "O Perto e o
Longe" me
prendeu do começo ao fim, pela elegância, pela fluidez e pela
eloqüência na
narração. Aprendi muito, tomei conhecimento de fatos literários
importantes,
como por exemplo, o inusitado de um autor estrangeiro ter escrito uma
obra
espetacular sobre Canudos: "A Guerra do Fim do Mundo", de Vargas
Llosa.Tive
notícias sobre o teatro de Lima Barreto, gênero que nem sabia que o
escritor
tinha praticado. Conheci Silvio Meira, tradutor maior, que verteu para
o
português "Fausto", de Goethe - eu li a tradução, publicada pela Abril
Cultural, na coleção Teatro Vivo e não atentei para o seu
tradutor.Através
de "O Perto e o Longe", soube de Ascendino Leite, que soube, segundo
Enéas,
escrever como ninguém o gênero diário, pouco praticado entre nossos
escritores.Entendi a reação explosiva e insólita de Lobato, em relação
à
exposição de Anita Malfatti, em 1917, que praticamente destruiu a
carreira
da artista. Torci para que as respostas de Rangel às cartas de Lobato
viessem a ser publicadas, embora isso seja quase impossível, pois
Rangel
manteve a decisão de não levá-las a público, antes de morrer.
E sobre muito mais eu aprendi, com este livro estupendo, publicado
pelo
nosso mais sério e ativo pesquisador das coisas literárias, o Dr.
Enéas
Athanázio.
"O Perto e o Longe - Viagens Literárias" - é um livro - aliás dois,
pois o
autor tinha material, e do bom, para lançar uma continuação - que
todos os
apreciadores da boa literatura e os iniciantes ou não no ofício de
escrever
deveriam ler. "SÃO ROQUE DA VENTANIA": este o título
de outro livro do autor, a sua estréia no gênero novela - e quando
dizemos
novela, falamos do gênero literário, nenhuma relação com os folhetins
pegajosos da televisão.Trata-se de uma novela regional, rural, típica,
urbana e fantástica, como o próprio subtítulo do livro indica. Mas
trata-se,
sobretudo, do registro da vida no interior de Santa Catarina, feito
por um
escritor/observador especialista em retratar com fidelidade as coisas
do
campo e da gente simples e humilde, mas autêntica, do campo.
E como não poderia deixar de ser, vindo de alguém tão competente na
arte de
escrever, o quadro se completa com a fidelidade lingüística, com as
personagens falando como realmente falam as pessoas que vivem no campo
e nas
pequenas cidades.
"São Roque da Ventania" é uma história de gente da terra contrastando
com a
gente da cidade, é a história de como o coração é mais coração na
pureza dos
pés no chão. E a pitada de fantástico, de como o amor pode transformar
as
pessoas, dá o toque de mestre na obra. A incursão de Enéas Athanázio
pela
novela, esse gênero literário vizinho do conto, foi muito feliz. Dá
gosto
ler.
Há muito mais na obra deste autor catarinense e o reconhecimento e
respeito
que tem da comunidade literária por todo o Brasil é mais do que justo.
Há
que se ler para se ter uma idéia do valor da literatura de Enéas
Athanázio.
(22 de junho/ 2002)
CooJornal no 264
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa,
Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br
Joinville, SC