| Luiz Carlos Amorim
UM LIVRO
SOBRE NADA
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Minha filha está lendo "Livro sobre Nada", uma das obras selecionadas
para o
Vestibular. O título me chamou a atenção e ao abrir o livro, outros
detalhes
me fizeram lê-lo.
"Livro sobre Nada", de Manoel de Barros, é um livro de poesia e prosa,
de
poesia em prosa, de "pensamentos" e fragmentos. Um livro diferente,
sem um
gênero definido.
Primeiro, ele é um livro pequeno, não no conteúdo, talvez, mas pelo
fato de
que há pouco texto dentro dele: as folhas estão impressas de um só
lado em
quase todo o livro e há algumas páginas com poucas linhas impressas,
algumas
com uma só.
Segundo, não é um livro de fácil digestão: o texto é pouco mas é
denso,
diria que é uma grande metáfora - na verdade, mal definindo, para
falar
apenas de uma das muitas figuras de linguagem usadas pelo autor.
Figuras com
as quais consegue boas visões poéticas. Mas também emprega muitas
palavras
não usuais, que exigem, não sei se felizmente ou infelizmente,
consulta ao
dicionário. Isso não facilita a compreensão, que já é difícil, porque
"
Livro sobre Nada" não é um livro comum - o autor avisa, no início -
que
queria um livro que se sustentasse só pelo estilo. Talvez tenha
conseguido
este objetivo.
Por outro lado, o fato de usar palavras desconhecidas de grande parte
dos
leitores é um laboratório no mínimo interessante, pois além de forçar
o
leitor a ampliar o seu vocabulário - embora não vá usar aquelas
palavras nem
na sua fala nem na sua escrita - os significados das figuras
construídas são
originais e singulares, beirando o incompreensível. E realmente
resultam num
estilo próprio, cumprindo outro objetivo do autor, qual seja o de
"fazer
brinquedos com as palavras". Para isso, ele inventa palavras, também,
deixando a poesia ou a prosa mais incomum - ou, como ele mesmo diz -
"coisa
nenhuma por escrito" ou "um abridor de amanhecer", já um sinal de vida
do
livro que ganhou o Prêmio Jabuti este ano, um livro infanto-juvenil
chamado
"O Fazedor de Amanhecer".
Este "Livro sobre Nada" é um livro para ler com cuidado: ele é todo
uma
linguagem codificada e tanto podemos achá-lo instigante - "com pedaços
de
mim eu monto um ser atônito" ou "Pensar que a gente cessa é íngreme -
minha
alegria fica sem voz" - ou podemos detestá-lo - "abria um por um de
canivete
os sapos para ler nas entranhas deles o seu futuro". Difícil é ficar
indiferente.
(15 de junho/ 2002)
CooJornal no 263
Luiz Carlos
Amorim,
escritor e poeta Coordenador do Grupo
Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa,
Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br
Joinville, SC