15/06/2002
Número - 263


 

Luiz Carlos Amorim

 

UM LIVRO SOBRE NADA

 

Minha filha está lendo "Livro sobre Nada", uma das obras selecionadas para o Vestibular. O título me chamou a atenção e ao abrir o livro, outros detalhes me fizeram lê-lo.

"Livro sobre Nada", de Manoel de Barros, é um livro de poesia e prosa, de poesia em prosa, de "pensamentos" e fragmentos. Um livro diferente, sem um gênero definido.

Primeiro, ele é um livro pequeno, não no conteúdo, talvez, mas pelo fato de que há pouco texto dentro dele: as folhas estão impressas de um só lado em quase todo o livro e há algumas páginas com poucas linhas impressas, algumas com uma só.

Segundo, não é um livro de fácil digestão: o texto é pouco mas é denso, diria que é uma grande metáfora - na verdade, mal definindo, para falar apenas de uma das muitas figuras de linguagem usadas pelo autor. Figuras com as quais consegue boas visões poéticas. Mas também emprega muitas palavras não usuais, que exigem, não sei se felizmente ou infelizmente, consulta ao dicionário. Isso não facilita a compreensão, que já é difícil, porque " Livro sobre Nada" não é um livro comum - o autor avisa, no início - que queria um livro que se sustentasse só pelo estilo. Talvez tenha conseguido este objetivo.

Por outro lado, o fato de usar palavras desconhecidas de grande parte dos leitores é um laboratório no mínimo interessante, pois além de forçar o leitor a ampliar o seu vocabulário - embora não vá usar aquelas palavras nem na sua fala nem na sua escrita - os significados das figuras construídas são originais e singulares, beirando o incompreensível. E realmente resultam num estilo próprio, cumprindo outro objetivo do autor, qual seja o de "fazer brinquedos com as palavras". Para isso, ele inventa palavras, também, deixando a poesia ou a prosa mais incomum - ou, como ele mesmo diz - "coisa nenhuma por escrito" ou "um abridor de amanhecer", já um sinal de vida do livro que ganhou o Prêmio Jabuti este ano, um livro infanto-juvenil chamado "O Fazedor de Amanhecer".

Este "Livro sobre Nada" é um livro para ler com cuidado: ele é todo uma linguagem codificada e tanto podemos achá-lo instigante - "com pedaços de mim eu monto um ser atônito" ou "Pensar que a gente cessa é íngreme - minha alegria fica sem voz" - ou podemos detestá-lo - "abria um por um de canivete os sapos para ler nas entranhas deles o seu futuro". Difícil é ficar indiferente.


(15 de junho/ 2002)
CooJornal no 263


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br  
Joinville, SC