27/04/2002
Número - 256


 

Luiz Carlos Amorim

 

AS EDITORAS E O ESCRITOR NOVO

 

O escritor novo é obrigado a ser o editor da própria obra. Não existe consenso sobre a decisão de publicar escritores inéditos por parte das editoras: algumas poucas se dispõem a fazê-lo, outras não. A seleção é totalmente subjetiva e aleatória. A editora recebe os originais de escritores novos e encaminha ao departamento editorial, que determina um prazo de, em média, três meses para análise. Alguém dá uma olhada no original e só nesta olhada já são eliminadas a maioria das obras recebidas. Se, porventura, houver interesse, a editora faz uma oferta para compra dos direitos autorais e se encarrega de todo o processo até que o livro chegue às lojas. Se bem que isso é o que deveria acontecer, porque o que acontece, na verdade, se uma editora se propõe a publicar um livro de autor desconhecido, é pagar a parte dele, os dez por cento a que ele tem direito, em livros. E o autor que venda os livros para transformá-los em dinheiro.

Uma grande editora do eixo Rio-São Paulo recebe uma média de 50 originais por mês, mas só um ou dois são publicados por ano: significa que apenas 0,3 por cento dos iniciantes têm alguma chance com a editora.

Já outra diz que selecionou um original de estreante em 20 anos. A sucessora do Círculo do Livro recebe os originais de novos escritores e se o trabalho for realmente bom, compra os direitos autorias e se responsabiliza pela edição. Mas os “bons” são poucos: 99 por cento dos textos recebidos são descartados por erros gramaticais ou por estarem manuscritos.

Uma história razoável, um bom texto e conhecer as pessoas certas no meio editoral são itens imprescindíveis para persistir na idéia de publicar seu primeiro livro. Projetos debaixo do braço, lista de endereços e sorte também são um começo - bem menos promissor. Um pouco de cada um dos dois caminhos talvez tenha trilhado este articulista, que publicou um livro pela editora Lunardelli, de Florianópolis, numa co-edição com uma prefeitura, graças ao interesse de um prefeito pela cultura da sua cidade – falo do Dr. José Schmit, de São Francisco do Sul – e outros três, um a nível nacional e os outros no exterior. 

A oportunidade depende também, um pouco, do gênero que o autor escreve. Se o gênero do iniciante for romance e o seu trabalho for muito bom, ele precisa, antes de tudo, de sorte para que alguém leia o seu original. Há uma editora, aqui em Santa Catarina, de propriedade de uma escritora, amiga nossa, que pelo menos propicia a oportunidade de ter o seu original lido e avaliado. Bons títulos têm sido publicados, ainda que com dificuldade. Mas há empenho, por parte da editora, na distribuição, para que o livro possa vender.

Gênero como poesia, ainda mais sendo de autor novo, não vende, segundo as editoras. Livro de poesia, para as grandes editoras – e para as pequenas, também, infelizmente – tem que ser de autor de renome. O que é, no mínimo, questionável, pois as edições próprias, de autores que ainda não publicaram por editora, de mil ou dois mil exemplares, vendem em pouco tempo, ainda que se restrinja ao regionalismo e com um tipo de distribuição diferente: o autor leva seu livro de porta em porta, oferece sua obra em vários locais diferentes: bares, praças, escolas, etc, e consegue vendê-lo.

Deduzimos, então, que talvez não seja o gênero que não vende – o problema talvez seja a falta de oferta. 

Mas, como para os livreiros e editoras o livro é apenas um produto, eles não querem arriscar e preferem vender obra conhecida ou de autor conhecido. Uma pena, pois obras muito boas ficam relegadas ao regionalismo e ao esquecimento.

(
27 de abril/2002) 


Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta Coordenador do Grupo Literário A ILHA
Editor e Webmaster do portal Prosa, Poesia & Cia.
lzamorim@terra.com.br  
Joinville, SC