Luiz Carlos Amorim
O LIVRO E A BIENAL
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Estive na décima Bienal Internacional do Livro, que aconteceu de 17 a 27 de junho, no Rio, e o que vi lá me fez repensar sobre o quanto o brasileiro lê – o brasileiro comum – ou deixa de ler.
Os números são superlativos, quase inimagináveis: 808 expositores distribuídos numa área de 48 mil metros quadrados, 560 mil visitantes em 11 dias de Bienal e l.620.000 (um milhão, seiscentos e vinte mil) livros vendidos!
Impressionou-me não só o imenso contingente de pessoas que visitou a feira, mas o fato de que esses visitantes eram, não raro, famílias inteiras de classes nem sempre das mais privilegiadas, que, além de pagar ingressos de seis reais por pessoa, ainda saiam de lá com uma sacola contendo pelo menos dois ou três livros.
Diante do até agora conhecido panorama do livro no Brasil, onde existem tão poucas livrarias e o preço do livro ainda é alto, ver multidões se acotovelando em uma feira para comprar livros mostrou-me que há que haver uma revisão nesses padrões, que talvez alguma coisa esteja começando a mudar.
Outro bom sinal é que a literatura infanto-juvenil confirmou sua supremacia, isto é: foram as crianças quem mais compraram livros na Bienal. O que significa que os leitores em formação estão na direção para um horizonte mais favorável ao livro logo mais adiante: um bom presságio para o novo século que se inicia. É claro que há aí o dedinho da escola e da família, mas eles são a peça fundamental para formarmos novos leitores. E que melhor notícia do que saber que eles estão cumprindo o seu papel?
A décima Bienal do Livro do Rio funcionou, também, como um painel da produção literária atual, quando pudemos ver o quão imensa é a publicação de títulos nos nossos dias: escreve-se sobre tudo. Qualquer que seja o assunto, pode-se procurar que há um livro abordando aquilo que se pretende.
E o livro virtual, tão propalado e tão ameaçador do livro tradicional, palpável, impresso em papel, nem deu as caras na Bienal. Se procurássemos, até era possível encontrar uma enciclopédia que vinha com o conteúdo em CD Rom, ou um dicionário que também tivesse sua versão em CD Rom para ser usado com um editor de texto. Mas os e-books, esses não os vi. As pessoas foram atrás das obras impressas nos livros, duráveis, palpáveis, folheáveis. Livrarias virtuais também estavam presentes na feira, mas vendendo os livros como os conhecemos até agora. E, pelo jeito, vai ser assim por muito tempo, ainda.
Os eventos paralelos colaboraram, em muito, para o brilho desta última Bienal, como o Café Literário, encontro diário de escritores e personalidades do meio cultural com o público, os Foruns de Debates - mesas redondas com autores consagrados, editores e jornalistas e as seções de cinema, exibindo filmes sobre a vida e obra dos grandes poetas e escritores, como Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Vinícius e outros, e as grandes obras literárias levadas para as telas, como "O Homem Nu", "Memórias do Cárcere", "Dona Flor e seus Dois Maridos", "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e outras. Isto não só fez valer o ingresso que o visitante pagou para estar na Bienal, como também pode tê-lo motivado a comprar os livros dos escritores focalizados nos filmes e vistos nas palestras. Quanto aos filmes, um lapso imperdoável, pois da lista da mostra não constou "Cruz e Sousa - o Poeta do Desterro", filme de Silvio Back.
Passada a Bienal, no entanto, não podemos nos iludir e usar o que vimos lá para nos convercermos de que os problemas que levam o brasileiro a ler menos do que deveria não existem mais. A Bienal não foi a redenção nem do livro nem do leitor. A Bienal existe a cada dois anos, apenas. O mercado editorial existe o ano todo e o público leitor, também.
Luiz Carlos Amorim,
escritor e poeta
lzamorim@terra.com.br
http://planeta.terra.com.br/arte/prosapoesiaecia