|
Opinião Acadêmica
A LIÇÃO DE ORPHEU
Antônio Sérgio Mendonça
Resumo: Orpheu,
revista trimestral, teve vida breve - somente 2 números publicados. Luiz de
Montalvor, um de seus diretores, apresenta-a como: "um texto preocupado com a
fotografia de uma geração, raça ou meio, com seu mundo de imediata exibição a
que chama frequentemente de literatura", isto é, trata-se da preocupação dessa
"geração, raça ou meio", com a fotografia de seu mundo de imediata exibição, ou
seja, com a literatura. Isto traduzia o conceito de literatura daquela geração.
Intenção do grupo: estabelecer através de sua contribuição literária, uma
intervenção na história da cultura de Portugal de seu tempo e de sua
posteridade.
Orpheu estabelece um vínculo entre o moderno, o simbolismo e o
clássico. Tratava-se principalmente de um texto preocupado com a sua recepção
cultural de forma intencional. Pretendia modificar a visão que seu tempo tinha
do próprio passado cultural português e postular-se como um elo entre este
passado e o seu povo. Orpheu "revista" materializou e trouxe a público as
intenções estéticas de Orpheu "movimento".
Orpheu não é apenas uma ponte
estético-literária entre o Simbolismo e o Sensacionismo (o Futurismo Português). A escolha do nome, miticamente literário, Orpheu - poeta cujo canto tinha
poderes sobre a natureza - remonta à Idade Clássica e se projeta como símbolo na
singularidade do Modernismo português que estabeleceu a ponte entre o simbolismo
e a Idade Clássica.
O Modernismo português apresenta, entre outras
coisas, o horacianismo (nas odes de Ricardo Reis), o pré-refaelismo (nos poemas
ortônimos e ingleses), a visão mítica do Realismo de Alberto Caeiro (visão
não-erudita do Realismo Clássico), retomando também a lição metonímica do
Realismo enquanto estilo, cujo modelo é Cesário Verde.
Orpheu tinha a
intenção de estabelecer não apenas uma contribuição literária, mas,
principalmente, proceder a uma intervenção na história da cultura de Portugal de
seu tempo e de sua posteridade (tanto na concepção mística do "terá sido" - o
povo assinalado - quanto na acepção futurista do "será tido" - o Quinto
Império), estabelecendo o elo entre o Moderno, o Simbolismo e o Clássico.
Orpheu intencionava modificar a visão que seu tempo tinha do próprio passado
cultural português e postular-se como elo entre o passado e seu povo. Mostrou-se
ser o único que exprimia uma alta complexidade que definisse o estatuto
clássico-moderno do literário em Portugal. Definiu o estatuto do literário nos
termos do que fosse moderno nesse literário, ou seja, do Simbolismo; retoma a
"experiência de choque", do Modernismo, a lição futurista e do Clássico,e a
lição naturista do Realismo atico. Quando às lições horaciana e pré-rafaelista,
são dados culturais pertinentes à tradição clássica. Em termos de cultura
portuguesa, retoma também o sentido mítico do nacionalismo português,
desconservadorizando-o, por projeta-lo na significação futura e moderna ao mesmo
tempo. Tratava-se de reavaliar o passado mítico-nacional em termos de Portugal
Futurista e de mostrar que a permanência do nacionalismo-místico do "Sapateiro
de Bandarra" era fundamental para a retomada da simbologia de Portugal como
singularidade cultural. Este nacionalismo está presente não só na raiz mítica da
cultura portuguesa (mito do Bandarra), mas na letra clássica da dedicatória de
Os Lusíadas (vós, ó novo temor da mura lança "/" Vós, tenro e novo ramo
florecente/ De ua árvore, de Cristo mais amada / Que nenhua no Ocidente "),
assim como no Ultimatum Futurista, como aquilo que Portugal não poderia abrir
mão, sob pena de, para ser europeu, deixar de ser português. É uma acepção de
nacionalismo que traz a instância do histórico e do mítico como referência
interior para poder incorporar e deglutir o próprio cosmopolitismo (como o
Neo-garrettismo), antes,opera a síntese místico-crítico/ medieval e clássica do
nacionalismo na origem das razões singulares do Futuro. Isto o faz, basicamente,
através do herônimo Álvaro de Campos.
Síntese
1) do passado e do
presente: entre o medieval (D. Sebastião - Cavalaria) que fora retomado pelo
clássico camoniano nos termos de Portugal Futurista; 2) do histórico
(medieval), do mítico (clássico e romântico) no literário (moderno).
É
fundamental que se veja no espírito de Orpheu não apenas um movimento, mas a
intencionalidade de um deslocamento da "experiência de Choque" - que nele é
representada pela lição futurista - para o literário, num movimento de síntese.
Não somente síntese entre passado e presente, mas do histórico e do mítico no
literário, ficando o histórico referenciado ao medieval (retomado pelo clássico
camoniano e em outra linha pelo neo-garrettismo em termos de raiz mítico-popular
de história medieval - Alcácer-Quibir-); o místico ao clássico e ao romântico; e
o literário referenciado no moderno.
Em Fernando Pessoa, o moderno
incorpora a acepção mística e mítica do nacionalismo atávico. Não com a intenção
de negar a emergência do presente ou do moderno, mas porque a síntese entre o
moderno e o passado aponta para o "Portugal Futurista".
A lição futurista
aponta a herança mítica como mensagem para e do futuro. Em Portugal, para fazer
a síntese, o Modernismo retoma o passado (volta ao tema mítico do passado).
Orpheu é uma síntese estética e cultural que se quer refletida na cultura de seu
tempo. Ele quer que esta visão singular que tem do nacional e do Moderno (sendo
que o nacional é referenciado histórica e miticamente na passado) repercuta na
cultura moderna e de vanguarda de seu tempo.
Em Fernando Pessoa, no
momento da tensão estética de Orpheu, é o Moderno que incorpora a acepção
mística e mítica do nacionalismo atávico. E não o incorpora para negar a
emergência do presente ou do moderno, ou menos ainda do futuro, porque esta
síntese entre o moderno e o novo aponta, em Fernando Pessoa para o "Portugal
Futurista".
Em Fernando Pessoa, o nacionalismo atávico místico e mítico
não é literalmente neo-garrettiano, não adota o nacionalismo como modelo
passadista de compreensão da emergência do presente e do futuro. A lição
futurista é a projeção da herança mítica como mensagem para o futuro.
Para Álvaro de Campos, Orpheu é a síntese de todos os movimentos do passado à
modernidade. Logo, Orpheu não foi apenas a síntese do moderno e da vanguarda,
para fazer esta síntese teve que voltar ao tema mítico do passado.
Na voz
de Almada Negreiros: "Orpheu era um encontro de letras e pinturas, cada qual com
suas séries de 'ismos' ". Esta característica de Orpheu é própria da
modernidade. Como tal, é uma síntese entre estilos, entre procedimentos de
vanguarda e entre gêneros.
Luis de Montalvor acrescenta que Orpheu era
uma "estética permutacional" - uma estética de permutas - já que incorporava,
enquanto fusão permutacional, o moderno na vanguarda.Orpheu é também a
reincorporação do simbólico, no sentido decadentista do Simbolismo que ali é
fundido ao contributo construtivista do Futurismo e do Cubismo.
Orpheu
1) Pretendia ser - "Um texto preocupado com a fotografia de geração, raça ou
meio com seu mundo de imediata exibição a que freqüentemente se chama
literatura". 2) Se transformou - "Em uma alta consciência de complexidade
que definiria o estatuto da literatura, na soma e síntese de todos os movimentos
modernos, no encontro de letras e pintura, cada um com sua série infindável de
"ismos", característica de Orpheu, que é característica". 3) Deixou de legado
- Ele é retomado de forma pasteurizada por Presença, sendo definido como "a
própria expressão da arte moderna em Portugal".
As três grandes linhas de
força de Orpheu são as seguintes:
a) A remissão a um nacionalismo
atávico, no sentido de sua letra clássica e não no sentido de uma fala
neo-garrettiana, para poder incorporá-lo a um presente que se quer como marco do
futuro, porque Orpheu é hiperdeterminado à questão cultural de "Portugal
Futurista"; b) a incorporação serena do Simbolismo decadentista, que legou a
Orpheu a necessidade da "experiência do choque", cultivou o espírito decadente/
Rimbaud (um tanto quanto marginal no Simbolismo português que incorpora
preferencialmente o inefável de Verlaine, mais afim com Camilo Pessanha); c)
a estetização da técnica - faz vibrar a técnica com estatuto de beleza-prática
da "experiência de Choque" - advinda da fusão do Futurismo e do Construtivismo
mallarmaico (estetização da técnica é literal nas Odes de Álvaro de Campos).
Jacinto do Prado Coelho liga o revolucionarismo da linguagem de Orpheu à
necessidade de representação nela de uma nova relação Homem/Mundo, que é
possível a partir da esteticização da técnica, a partir do legado futurista e
enfatizado por Fernando Pessoa.
A estética de Orpheu:
Alguns
comportamentos básicos:
a) recusa as formas burguesas de representação do
mundo b) diferencia-se das tradições acadêmicas e se inscreve na necessidade
de reinventá-lãs estética e formalmente; c) retoma a lição dadaísta -
incorporação da microfisica do decadentismo, fundindo-o com a "experiência de
Choque", remetendo-o ao Futurismo de Marinetti, seu contexto de vanguarda.
Em termos de singularidade cultural portuguesa, Orpheu junta a estes
procedimentos estéticos a retomada do nacionalismo atávico, na sua mítica
acepção clássica, à mística e histórica acepção medieval.
Mário de
Sá-Carneiro e Álvaro de Campos representavam o liame de Orpheu com aquilo que o
Futurismo trazia para a literatura Portuguesa: ser o modelo contemporâneo a
Orpheu da "experiência do choque" em versão construtiva, que por sua vez nada
mais era do que a tradução dos efeitos da supervalorização das forças produtivas
enquanto esteticização da técnica, que é o legado de Marinetti.
Paulismo
e Sensacionismo
Fernando Pessoa inaugura, em 1914, na revista A Águia,
uma pratica poética correspondente às suas considerações como crítico, com o
poema "Impressões do Crepúsculo". Realiza, enquanto poema, aquilo que propõe em
quanto crítico. O Paulismo torna-se o primeiro degrau e a primeira linha de
força do que vai ser definido como Sensacionalismo, que é a grande contribuição
estética de Orpheu, não só por singularizar o Modernismo Português, mas por
estabelecer uma de suas linhas de força que foi o seu traça de extensão
(existente) com o Simbolismo.
Ele funde a concepção dadaísta - segundo
Benjamin, a "experiência de Choque" - que é retomada com o marco do Futurismo -
à herança inefável do Simbolismo - com a desconstrução de termas e de
tratamentos de linguagem poética.
Do ponto de vista da linguagem, o
Paulismo se caracteriza pela liberação do sentido da imagem, fazendo com que o
significado desta seja subordinado ao seu correspondente significante. No
Paulismo e no Sensacionismo, que daí se desdobra, o sentido presente não remete
a um encadeamento lógico e racional e, conseqüentemente, a uma decodificação no
nível da comunicação automatizada. Ora, o significante repousa no primado da
imagem e a liberação aludida - e referente ao âmbito do sentido, do significado
- dá-se em relação ao significante, o que vai significar, literalmente, o
sentido conforme a fonológica tradição simbolista que ai é simplesmente mantida.
O Simbolismo apostara no verso branco, na aliteração, na sinestesia, dependia do
jogo fonético dos significantes e não do que estava automatizado e condenado a
estabelecer uma necessária relação de conteúdo. Portanto, tratava-se de uma
libertação imagética. Esta libertação imagética permitiu a violação da sintaxe
gramatical, ou seja, daquilo que foi inaugurado como contribuição da autonomia
do significante no âmbito do Simbolismo: verso branco; uso significativo do
branco da pagina; ênfase de sentido na rima interna através dos recursos da
aliteração e da sinestesia. Tudo isto foi tomado em extensão e significou mais
ainda não apenas no âmbito fonético.
No Paulismo, esta violação se dirige
ao âmbito da interpenetração das características morfológicas - violação da
sintaxe gramatical, uso de frase nominal, retomada de grafema simbolista
(mudança de minúscula por maiúscula).
Esse recurso do grafema, que já existia
no simbolismo, basicamente na lição mallarmaica, se atualiza esteticamente,
enquanto as posturas anteriores vão insistir, principalmente, na retomada da
incorporação por e em Camilo Pessanha da lição de Verlaine (é já a matriz
portuguesa e não européia, que será retomada pelos dec Orpheu). A contribuição
mallarmaica do recurso do grafema simbolista é retomada e hierarquizada no
Paulismo, por exemplo, por Sá-Carneiro em Salomé e Apoteose.
A relação de
Orpheu com o Simbolismo é fruto de uma relação direta com o Paulismo, existente
na citada incorporação e modificação de todos aqueles procedimentos que vêm da
tradição simbolista e se radicalizam no Paulismo. A herança simbolista
modificada no Paulismo não é a única em Orpheu. Ela é também modificada enquanto
incorporação do decadentismo mallarmaico. Este decadentismo se articula tanto
com o estilo vertical (Raul Brandão) em Sá-Carneiro, quanto com o pré-rafaelismo
britânico nos poemas ingleses de Fernando Pessoa.
Para Almada Negreiros,
o termo Paulismo remete a "Paludes", de André Gide, o que ampliaria a sua
relação de fonte e dependência com o tipo de Simbolismo que remete a matriz de
Camilo Pessanha, Simbolismo de singular formatação que pratica versos
dodecassílabos. Por outro lado, o Simbolismo incorporado por Montalvor, Guisado,
Cortes Rodrigues, pelo "Opiario", de 'Álvaro de Campos e basicamente pela prosa
de Sá-Carneiro não mais o Mallarmaico (como em Eduardo Guimarães), mas o de
Baudelaire e Rimbaud, mesclado com o estilo vertical de Raul Brandão.
Orpheu recusa o nacionalismo atávico "neo-garrettiano" por se colocar como uma
agressão ao subjetivismo lírico. Evita o panteísmo romântico da fusão da
natureza e se inscreve em favor de um ego cindido, que nada mais é do que a
afetação, em forma de reconhecimento, da pulverização provocada pela
"experiência do choque", traço da era moderna.
Por outro lado, o efeito
estético desta importação tradutora do Futurismo irá dialogar com a retomada da
tradição simbolista, que tinha sido inoculada no moderno pelo poema "Paúis",
Istoé , pelo pós-Simbolismo paúlico, também conhecido como Paulismo. Deve-se
sempre falar em Orpheu na alternância Simbolismo-Paulismo ou gerando a relação
Futurismo - Sensacionismo.
Origens do Sensacionismo
Traços comuns
entre o Sensacionismo e o Paulismo
1) O texto é concebido como uma
colagem de imagens 2) O texto provoca uma interseção de planos entre sua
escrita e seu tempo(escrita no sentido de linguagem, estilo) 3) privilégio
associativo do significante como gerador de sentido - é por isso que o texto é
uma colagem de imagens, já que as imagens são ali tomadas no nível do
significante, que passa a receber o privilégio de gerador de sentido.
Interseccionismo
O Interseccionismo é o Paulismo Radicalizado
Passagem do Paulismo ao Sensacionismo
Paulismo é Sensacionismo contido,
portanto torna-se passagem obrigatória entre o Simbolismo e a posteridade
sensacionista, pois retoma e amplia procedimentos simbolistas.
O primeiro
procedimento significa tomar a palavra, despida de uma expectativa
lógico-conceitual, de significação, que remete ao panteísmo, ao
transcedentalismo.
Esta primeira dimensão equivale à constituição
fonológica da imagem para provocar sensações sinestésicas. A palavra é escolhida
como colagem, do ponto de vista do valor significante da imagem, é organizada
para que se torne, significante, representante referencial de uma sensação. A 1ª
dimensão equivale à constituição fonológica da imagem para provocar sensações
senestésicas.
Segundo Maria Alliete Galhoz: "O essencial do estilo
paúlico consiste numa espécie de libertação da imagem que prescinde do
encadeamento lógico-racional e de decodificação mais ou menos precisa,
interpenetrando as categorias morfológicas, violando a sintaxe, abusando da
frase nominal ou infinitiva e de certos truques já caros aos simbolistas como a
hierarquização recíproca dos termos através do jogo tipográfico de maiúsculas".
Trata-se uma decomposição espectral das imagens crepusculares numa gama
complexa de imagens, metáforas, símbolos, correspondentes à sinestesia das
sensações. Aproxima-se do decadentismo pela exacerbação dos processos imagéticos
que fazem apelo às sensações mórbidas e requintadas. Ex: Impressão do Crepúsculo
- 1913 (Fernando Pessoa):
"PAUIS DE ROÇAREM ânsia pela minh'alma em
ouro... Azul esquecido em estagnado..." Trepadeira de despropósito
lambendo de Hora os Aléns... Fanfarras de ópios de silêncios futuros...
Longes trens..."
No segundo momento, não se trata mais de constituir a
palavra como um jogo de significantes sinestésicos. Trata-se de, através da
palavra, assim constituída, representar referencialmente um objeto sólido. É
jogo de reciprocidade entre palavra e sensação. A palavra é constituída no nível
do significante para que se preste a representar sensações e provocá-las.
Ex: Chuva Obliqua " Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto
infinito E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra Os vultos ao sol daquelas
árvores antigas...
O porto que sonho é sombrio e pálido E esta
paisagem é cheia de sol deste lado... Mas no meu espírito o sol deste dia é
porto sombrio E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol... "
No terceiro momento, a própria palavra se confunde, com o ícone, com o
objeto sólido que representava (ícone - imagem que funde representante e
representado). A palavra é ela própria um objeto sólido. Não há mais jogo de
palavras entre sensações - sensações de palavras e sensações de solidez. A
palavra já provoca a sensação de solidez.
Paulismo é a 1ª dimensão do
Sensacionismo, é a arrumação da palavra para que ela possa, em 3ª dimensão, ser
elevada à condição de objeto sólido. O Paulismo é a organização da palavra ao
nível do significante. O Interseccionismo é a 2ª dimensão da palavra. A palavra
é escolhida como colagem do ponto de vista do valor significante da imagem. No
2º momento, não se trata mais de constituir a palavra como um jogo de
significantes sinestésicos. Trata-se de representar referencialmente um objeto
sólido. É jogo de palavra e sensação de solidez (é constituída para que se
preste a representar sensações mais provoca-lãs) e no 3º momento tem-se a
palavra confundindo-se com a própria sensação de solidez que cria.
Ex:
Ode triunfal Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno! Forte espanto
retido dos maquinismos em fúria! Em fúria fora e dentro de mim,
Ah,
poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma
máquina!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera. Amo-vos
carnivoramnete, Pervertidamente e enroscando a minha vista Em vós, ó
coisas todas modernas, Ó minhas contemporâneas, forma atual e próxima Do
sistema imediato do Universo! Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!
No primeiro nível, as imagens são ideais. No segundo, são as palavras que
são ideias solidificadas, cuja linhas provocam a sensação de alguma coisa. O que
se dá, porque essas imagens internas (das palavras) são planos e,
consequentemente, são imagens de objetos.
Para o Interseccionismo, as
palavras são objetos verbais. Então o Interseccionismo define o signo
linguístico como objeto e faz com que o objeto externo do signo seja a ele
incorporado com valor de significado, isto é objeto no sentido linguístico de
referente (contexto). Sensação é, portanto, igual a imagem e temos a
interioridade de planos paralelos, a visibilidade recíproca dos dois lados, ou
seja, a interseção entre palavras e imagens.
No Sensacionismo, esse
contexto, que não é qualquer, torna-se a representação de um objeto provocador
de sensação, logo incorporado ao signo com o seu significado.
Sensacionismo é dar à palavra a objetividade máxima, é transformar a palavra em
objeto sólido. Temos ai uma concepção escultural de palavra. Não se trata de
passar, como representante, a sensação de ter reapresentado um objeto sólido.
Não se trata também, de ela ter-se preparado, no nível do significante, para
provocar essa sensação, mas se trata de ela, iconicamente, se confundir com esse
próprio objeto sólido que outrora ele representava em segunda dimensão.
Orpheu é a síntese de todos os "ismos" que estão em sua base - Simbolismo
Decadentismo, Construtivismo Cubista, nacionalista - todas estas construções
convergem para o ïsmo"sigular de Orpheu, que é sensacionista.
O
Sensacionismo é a própria síntese do projeto estético da revista Orpheu e não
vai ser apenas a sua contribuição estética. Será através de Orpheu, o degrau
máximo da contribuição estética do Modernismo português enquanto obra de
vanguarda, pois ele não era excludente dos ïsmos"que sintetizara para
origina-se, ele era o incorporado dos mesmos, era o Sensacionismo.
A
questão da heteronímia pessoana
Heterônimo em Fernando Pessoa é uma
estratégia autoral. Para ele, cada identidade que um poeta tenha, ou seja, cada
imagem com que o poeta se identifica e que gere um estilo autoral deve ser uma
identidade. A cada Outro a que Fernando Pessoa se refere, tem-se a sua verdade e
sua identidade. Se Pirandello diz que existiam personagens à procura de um
autor, Fernando Pessoa nos ensina - no ortônimo e heterônimos - que existem
sólidas sensações verbais à procura de um autor. Cada heterônimo é um autor para
este tipo de sensação verbal. Logo, esse Outro representado indica o signo da
"experiência de choque", dito através de Álvaro de Campos como modernidade. Diz
também da origem clássica como naturismo e paganismo neo-epicurista em Alberto
Caeiro, como representação do neo-clássico horaciano no Humanismo das obras de
Ricardo Reis, e da fusão mítica do nacional com "a experiência de choque"
simbólico -futurista na ortonomia, basicamente em "Mensagem".
ANTÔNIO SERGIO MENDONÇA é Professor Titular da UFF, Doutor em Letras pela UFRJ; Docente-livre pela UERJ, Pesquisador do Corpo Permanente do Mestrado em Ciência e Arte da UFF, Diretor de Ensino do Centro de Estudos Lacaneanos - RS, Instituição Psicanalítica.
Referência Bibliográfica
1- Aliete Galhoz, Maeia. A Poesia de Orfeu. Coleção Documento, Lisboa, Serra Nova
|