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Opinião Acadêmica
O SIGNIFICADO DA OBRA DE
GILBERTO FREYRE PARA A ANTROPOLOGIA CONTEMPORÂNEA
Gilberto Velho
Não tenho a pretensão de esgotar nesse texto toda a contribuição de Gilberto
Freyre para o desenvolvimento da Antropologia. Quero salientar, todavia, algumas
dimensões de seu trabalho, que considero, historicamente, cruciais e que mantêm
ainda hoje um caráter inovador. Gilberto Freyre, como mostrou Sebastião Vila
Nova (1998), estudou e teve contato, durante sua estadia nos Estados Unidos, com
os grupos mais destacados da ciência social daquele país. Numa época em que as
fronteiras disciplinares e departamentais eram mais fluidas, teve acesso não só
à antropologia e história de Colúmbia, mas também à sociologia de Chicago,
associada à antropologia no mesmo departamento, até o final dos anos vinte.
Essa relativa fluidez permitia e estimulava o florescimento de debates
interdisciplinares, com implicações para toda a área que classificamos
atualmente como Ciências Sociais ou até, de modo mais amplo, para as humanidades
em geral. A inteligência norte-americana do final do século XIX e primeiras
décadas do século XX era fortemente marcada pelo darwinismo, ao mesmo tempo que
alguns de seus importantes expoentes professavam ou vinham de famílias de
religião protestante, como Albion Small e George H. Mead, figuras fundamentais
da Escola de Chicago (Bulmer, 1984 e Joas, 1997). Essa combinação de
evolucionismo e religiosidade, com todos os conflitos, teve consideráveis
implicações para o desenvolvimento de uma atitude e postura de reforma social.
Mas é, sobretudo, no pragmatismo, com suas diferentes ênfases e correntes, que
vai se encontrar a principal tendência do pensamento social norte-americano da
época. Intelectuais do porte de William James e John Dewey assumiram um papel
proeminente e liderança notável. O seu impacto nas ciências sociais foi
decisivo, estabelecendo um campo de discussão para filósofos, sociólogos,
psicólogos e educadores, entre outros. Portanto, durante a permanência de
Gilberto Freyre em Colúmbia, os Estados Unidos viviam um período de grande
criatividade na área das ciências humanas, tendo como um de seus focos
principais a temática indivíduo e sociedade. Seja sob o ponto de vista da
interação social seja sob o ponto de vista de cultura e personalidade,
produzia-se um volume de trabalhos e idéias que constituíram-se em importantes
subsídios para a obra de Gilberto Freyre que soube digerí-los e elaborá-los no
decorrer de sua carreira, contribuindo, decisivamente, por sua vez, para esse
campo de debates.
Como intelectual universalista, bebeu em várias fontes,
na antropologia britânica, na escola sociológica francesa e no pensamento social
e filosófico alemão, além da ciência social norte-americana, produzindo, assim,
um perfil singular. A conjuntura nos Estados Unidos pós-primeira grande guerra
apresentava essa característica de ser favorável à convivência e encontro de
várias tradições intelectuais. O contato com a Europa era freqüente e intenso,
com intercâmbio permanente desde o final da Guerra Civil. Esse processo foi se
acentuando, envolvendo não só intelectuais, mas variados setores da elite,
preocupados com uma cultura cosmopolita e sofisticada (Simon, 1998). Sabemos que
Gilberto Freyre já tinha um perfil intelectual se delineando quando parte para
Nova Iorque, mas lá, ainda muito jovem, teve oportunidade de ampliar,
significativamente, seu quadro de referências, tornando-se um sintetizador e um
inovador. A cultura e suas relações com a personalidade individual, certamente,
foi um dos eixos fundamentais da construção de seu trabalho. Antropólogos
contemporâneos seus como Edward Sapir, Ruth Benedict e Margaret Mead,
influenciados, mais ou menos diretamente, por Franz Boas, desenvolveram estudos
e reflexões sobre esse tema. Cabe, no entanto, a Freyre, um lugar de particular
destaque, devido à ousadia de sua interpretação do Brasil e dos brasileiros. Os
trabalhos do grupo de Colúmbia, ligados ao que veio a ser conhecido como Escola
de Personalidade e Cultura, até os anos trinta tinham como referência principal
sociedades tribais, tradicionais e de pequena escala, como nos estudos de
Margaret Mead na Nova Guiné e de Ruth Benedict com índios norte-americanos.
A importância de Casa-Grande & Senzala, com suas origens na tese defendida
em Colúmbia, nos inícios dos anos vinte, foi, no quadro do desenvolvimento da
Antropologia, ter tido como objeto uma sociedade complexa moderno-contemporânea.
Podemos identificar várias razões que concorrem para isso. O interesse e cultura
históricos do autor, alimentados, especialmente, pelo conhecimento da história
do Brasil e de Portugal e por uma familiaridade com o pensamento social europeu,
levam-no a analisar a sociedade brasileira, como um todo, numa visão dinâmica de
transformação e de processo. Assim complementam-se as abordagens sincrônica e
diacrônica, embora a primeira tenha a proeminência da marca antropológica. Com
essa perspectiva, privilegiou a construção de modelo interpretativo de caráter
mais geral a partir, no entanto, de pesquisas de fontes, documentos, entrevistas
e observação etnográfica. Suas hipóteses são baseadas em dados variados e
preciosos, obtidos através do olhar de um observador e intérprete possuidor de
poderoso aparato teórico-conceitual. Particularmente importantes são as
histórias da vida, as cartas, os diários e os depoimentos que confirmam a
importância das biografias e trajetórias individuais para a compreensão dos
modos de ser, paradigmas e projetos. Certamente seu conhecimento da Escola de
Chicago foi também importante nesse caminho (Thomas e Znaniecki, 1918).
A
preocupação com a mudança social afirma-se na investigação dos universos de
parentesco, redes familiares e de alianças, diante das transformações da
sociedade tradicional. A habitação, a alimentação, o vestuário, a mobília, as
técnicas do corpo, as práticas sexuais, os sentimentos são expressão de uma
cultura e, por sua vez, atuam de volta, reinventando-a, permanentemente. Assim,
o cotidiano é objeto privilegiado, como locus de continuidade e também de
mudança. Trata-se, portanto, de um culturalismo dinâmico, oposto a qualquer
ideia de imobilismo social. Os agentes são os indivíduos, não como mônadas, mas
como membros atuantes de redes e grupos sociais. Creio que, diretamente, ou
através da escola de Chicago, com R. Park, W. I. Thomas etc. Freyre retoma com
originalidade o pensamento de G. Simmel.
O grande pensador alemão foi uma
das maiores influências na sociologia norte-americana. Acredito serem muito
fortes as afinidades de Freyre com a sua obra, principalmente no que se refere à
temática indivíduo e sociedade e à questão da subjetividade. A partir daí,
encontramos a elaboração de reflexões que estão no limite entre uma antropologia
cultural e uma psicologia social. O estudo das relações raciais, das relações
entre gêneros e gerações traz essa característica marcante de juntar processos
sociais com trajetórias individuais, antecipando, por exemplo, o trabalho de
Hans Gerth e C. Wright Mills (1954) e enriquecendo a produção da Escola de
Personalidade e Cultura. O interesse e cultura literários de Freyre, certamente,
contribuíram também para a sua preocupação estético-afetiva com personagens. As
leituras nas literaturas de línguas portuguesa, francesa e inglesa
influenciaram-no de modo decisivo. Portanto, a preocupação com a singularidade
e, simultaneamente, com o significado sociológico da experiência individual é
uma das principais contribuições de Freyre para a antropologia contemporânea. A
sua perspectiva histórica, voltada para o processo social, amplia também o
escopo de sua teoria da cultura. A valorização da heterogeneidade sócio-cultural
brasileira permite-lhe estar atento e valorizar o fenômeno da reciprocidade e
das trocas socioculturais.
Não se tratava de desconhecer contradições e
conflitos, mas de vê-los como dimensão da vida social, aparecendo tanto na
sociedade como um todo, como nas próprias trajetórias individuais, aproximando-o
de Simmel (1964 e 1971). Finalmente, sem esgotar, repito, sua notável
contribuição, quero ressaltar a lição de sua prosa, clara e cativante, expressão
de um espírito sofisticado, que busca comunicar-se com os seus leitores, sem
espantá-los pelo hermetismo ou pelo tédio.
Gilberto Velho foi Antropólogo do Departamento de Antropologia do Museu
Nacional e da Universidade Federal do Rio de Janeiro
Referências Bibliográficas
1 - BULMER, Martin. The Chicago School of Sociology: institutionalization,
diversity and the rise of sociological research. Chicago: The University of
Chicago Press, 1984. 2 - GERTH, Hans; MILLS, C. Wright. Character and
social structure: the psychology of social institutions. London: Routledge &
K. Paul, 1954. 3 - JOAS, Hans. G.H. Mead: a contemporary re-examination of
his thought. Cambridge, The MIT Press, 1997. 4 - SIMMEL, Georg. Conflict.
New York: Free, 1964. 5 - SIMON, Linda. Genuine Reality: a life of William
James. New York: Harcourt Brace Company, 1998. 6 - THOMAS, William I.;
ZNANIECKI, F. The Polish Peasant in Europe and America. Boston: Badger, 1918.
VILA NOVA, Sebastião. Donald Pierson e a Escola de Chicago na sociologia
brasileira: entre humanistas e messiânicos. Lisboa: Veja, 1998.
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