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Opinião Acadêmica
REFLETINDO O MULTICULTURALISMO E SUAS IMPLICAÇÕES NA ESCOLA
Cheila Szuchmacher Huf
Resumo: Sou filha de imigrantes, por parte materna descendo da Rússia
e paterna, da Polônia. Meus pais fugiram para o Brasil devido à perseguições
étnicas sofridas nestes países. Sou judia e nasci no Brasil, país que possui
uma diversidade cultural bastante acentuada. Por pertencer a um grupo que faz
parte desta diversidade e por estar vinculada à educação, atuando como
professora, decidi fazer esta breve reflexão sobre o multiculturalismo e suas
implicações no cotidiano escolar. Leciono
Hebraico numa escola comunitária brasileira judaica. Tive, nos últimos anos, o
privilégio de atuar como Professora substituta da Faculdade de Letras
(português/hebraico) das Universidades UFRJ e UERJ. No âmbito acadêmico tive
contato com alunos das mais diversas religiões, sendo que alguns deles, por
motivação religiosa, pretendiam estudar a língua hebraica para poderem ler o
Antigo Testamento no “original”. Na Universidade pude me relacionar com pessoas
que optaram por estudar o hebraico e que com as quais, diariamente, realizávamos
um intercâmbio de idéias -- alguns deles me ensinavam sobre o Novo Testamento -
uma experiência bastante enriquecedora em todos os sentidos, tendo me tornado
amiga pessoal de alguns alunos, como também pude ampliar meu universo de
conhecimento. Com relação à escola que trabalho há mais de doze anos, Colégio
Talmud Torah Hertzlia, tenho um outro tipo de vivência muito enriquecedora
também. Nessa escola comunitária lido com a diversidade cultural porque muitos
alunos têm algum parente próximo de uma outra religião. As crianças se mostram
interessadas na língua e cultura hebraica e ao mesmo tempo colocam suas
experiências como participantes de uma realidade diferente. Neste espaço,
sinto-me responsável por colocar em prática o respeito às diferenças religiosas.
Procuro discutir com o grupo questões como democracia, solidariedade e ética.
Como educadores, devemos estar atentos a questões que envolvem valores e, de uma
forma mais constante, dialogar com nossos alunos, tornando aos poucos temas como
este indispensáveis ao cotidiano escolar. Quando aluna do Curso de Mestrado
em Educação e Desenvolvimento Humano na UNESA, tive a oportunidade de ler textos
e participar de discussões que me inspiraram e me encorajaram para escrever
algumas reflexões sobre o multiculturalismo e suas implicações na escola..
Encarando a Diversidade
O mundo contemporâneo nos leva a refletir
sobre questões presentes no nosso cotidiano como a globalização, mundialização e
até a planetarização. Todos estes conceitos modernos vêm invadindo as sociedades
mais complexas, atingindo de hábitos a sistemas financeiros, em países ligados à
rede digital. “Com a constituição da rede digital e o desdobramento dos
seus usos tal como imaginamos aqui, televisão, cinema, imprensa escrita,
informática e telecomunicações veriam suas fronteiras se dissolverem quase que
totalmente, em proveito da circulação, da mestiçagem, e da metamorfose das
interfaces em um mesmo território cosmopolita.” (Lévy,1996,p.113)
Tendo em vista que a diversidade cultural, que sempre existiu, se torna mais
evidente na sociedade atual, faz-se necessário que a escola esteja atenta à
proposta de trabalhar com um tema tão complexo, o multiculturalismo.
Paradoxalmente, em um mundo que vem rompendo as fronteiras, nota-se a
necessidade do ser humano de identificar-se com um grupo, no qual o sentido de
isolamento pertencente ao macro vá se diluindo e dê conforto aos indivíduos que
mantém uma identidade cultural, uma tradição e uma história que lhes permita
pertencer a esta nova realidade sendo sujeitos atuantes neste processo: “A
sociedade globalizada é, por sua vez, instável; nela o sujeito-ator perde
protagonismo e não encontra figuras emblemáticas com as quais se identificar, em
companhia dos outros, além de beber as mesmas bebidas ou assistir aos mesmos
filmes. Se compartilharmos cada vez menos significados, as comunidades de vida
podem tender à fragmentação e a considerarem-se cada vez mais autônomas em
relação umas às outras (Berger e Lukmann,1997,p.63), ficando como as únicas que
resguardam seus membros da crise de sentido.” (Sacristán,1999,p.193)
De acordo com Sacristán (1999) o homem é capaz de transformar a
sociedade tendo como base a história de sua própria civilização, seu
desenvolvimento, contradições e identidade cultural. Cabe à escola como
instituição que produz e reproduz nossa sociedade, trazer para seu cotidiano o
exercício de cidadania consciente face a diversidade cultural: “Mudar
mentalidades, superar o preconceito e combater atitudes discriminatórias são
finalidades que envolvem lidar com valores de reconhecimento e respeito mútuo, o
que é tarefa para a sociedade como um todo. A escola tem um papel crucial a
desempenhar neste processo. Em primeiro lugar porque é espaço em que pode se dar
à convivência entre crianças de origens e nível sócioeconômico diferentes, com
costumes e dogmas religiosos diferentes daqueles que cada um conhece, com visões
de mundo diversas daquelas que compartilha em família. Em segundo, porque é um
dos lugares onde são ensinadas as regras do espaço público para o convívio
democrático com a diferença. Em terceiro lugar, porque a escola apresenta à
criança conhecimentos sistematizados sobre o país e o mundo.”
(PCN,2000,p.23)
A sociedade comprometida com a luta pela escola
democrática, deve levar em conta os valores que estão sendo veiculados pela
mesma participando ativamente da escola no sentido de poder contribuir para um
novo paradigma.
Morin (1999) nos esclarece o quanto o pensamento complexo
é necessário para darmos conta de questões que fora de um contexto histórico não
teriam o menor sentido. Diante desta ideia temos a possibilidade de
ultrapassarmos a rigidez, partindo para uma relação dialógica do conhecimento.
Seria inválido pensarmos em qualquer tipo de transformação nas escolas sem
nos preocuparmos com a formação dos professores. Quando nos assumimos como
professores temos que ter preparo para que em situações de preconceito no
cotidiano escolar, tenhamos a possibilidade e a lucidez de discutir e até de
reverter a negação ao que é diferente a partir do que entendemos como
compreensão, ética e solidariedade.
Sendo a escola provedora de um
conhecimento institucionalizado, seu efeito democratizante se torna fundamental
já que vivemos numa sociedade letrada e todos que não possuem estes
conhecimentos acabam vivendo à margem da sociedade e tendo poucos instrumentos
para lutarem pelos seus direitos de cidadãos. É necessário que como agentes
deste processo, estejamos engajados nos aspectos pertinentes à produção dos
conhecimentos necessários para a dignidade, reconhecimento e valorização de cada
indivíduo: “A identidade cultural apela para o conhecimento e
reconhecimento de que alguém é membro ou possui características próprias de um
grupo cultural, com a conseqüente conotação emocional de sentir-se como tal;
tonalidade afetiva que pode ser de satisfação, de orgulho, de desconforto ou até
de rejeição, conforme o caso. A identidade cultural é condição que alguém
atribui a si próprio ou que lhe é atribuída ou reconhecida.”
(Sacristán,1999,p.191)
Atualmente, já se admite falar e até conhecer
melhor as diversidades existentes em cada aluno. Se pretendemos romper com
atitudes autoritárias tornando a escola um ambiente democrático, precisamos
permitir que cada aluno se expresse livremente, pois a democracia passa
necessariamente pelo respeito às diferenças. Como nos esclarece Fischmann:
“E as responsabilidades que temos, como educadores, de preservar essa
diversidade, garantindo a identidade de cada tradição e promovendo a
solidariedade, tarefa intransferível da educação.” (Fischmann,1999,p.112)
A escola que realmente procura ter uma postura democrática de ensino e está
preocupada com a formação do futuro cidadão tem como um de seus desafios
desenvolver uma reflexão consciente sobre a realidade, no sentido de poder
transfomá-lo e reconstruí-lo constantemente: “Há um aspecto capital da
evolução transdisciplinar da educação: reconhecer a si mesmo na face do outro.
Trata-se de um aprendizado permanente, que deve começar na mais tenra infância e
continuar por toda a vida. A atitude transcultural, transreligiosa,
transpolítica e transnacional permiti-nos-á, então, aprofundar mais a nossa
própria cultura, defender melhor nossos interesses nacionais, respeitar mais
nossas próprias convicções religiosas ou políticas. A unidade aberta e a
pluraridade complexa, como em todos os campos da Natureza e do conhecimento, não
são antagônicas.”
Então, se preocupados em reconhecer e respeitar as
diferenças, é indispensável rever o currículo e também estar atento aos livros
didáticos que muitas vezes reforçam preconceitos ou situações preconceituosas,
como ao colocar os índios e os negros de forma caricatural. Avaliar estes livros
é um ato político que nos permite questionar visões e conceitos que muitas vezes
só interessam a uma determinada camada de nossa sociedade. “Certos saberes
transmitidos pela escola são, sem dúvida, pretextos para fabricar hierarquias de
excelência, para selecionar e para atribuir colocações em uma sociedade
meritocrática.” (Perrenoud,2000,p.71)
Dentro de uma perspectiva
histórica, onde as escolas brasileiras refletem e reproduzem a supremacia das
classes dominantes, é fundamental refletirmos sobre o papel da escola na
formação dos indivíduos. Desta forma, a escola deve estar comprometida na
formação de um cidadão crítico e criativo que contribua de forma positiva e
consciente para sua comunidade. “Com relação à discriminação, sabe-se que
um de seus fundamentos psicológicos é o medo.(...) No pólo que discrimina, o
medo se manifesta como reação ao desconhecido, visto como ameaçador. Quem tem a
cor da pele diferente, ou fala de tradições - étnicas, religiosas, culturais -
desconhecidas, confronta seu interlocutor com sua própria ignorância de mundos
diferentes do seu. É a figura do 'estranho', do estrangeiro, que por escapar da
apreensão comum, pode ser rotulado de 'esquisito'.” (PCN,2000,p.49)
Conhecendo os diferentes grupos étnicos, estudando e pesquisando sobre suas
tradições, costumes, história, estaremos rompendo com a ignorância sobre o
desconhecido e possibilitando a superação dos aspectos que muitas vezes
acarretam atitudes preconceituosas: “A tolerância e respeito com aquilo
que é diferente é aceitável para aproximar-se da diversidade. Diante da
diversidade evidente da multiculturalidade entre grupos e diante da
variabilidade individual interna em cada um deles, a educação como um todo, e
não só por meio das escolas, deve fomentar a atitude de tolerância e de abertura
para com o outro.(...) A tolerância em sociedades democráticas, em geral, ainda
quando são pluriculturais, aparece como a virtude por excelência, como pensam
Berger e Luckman (1997,p.61), porque, graças a ela, os indivíduos podem viver
juntos, estabelecer relações e ao mesmo tempo orientar sua existência em relação
a valores diferentes.” (Sacristán,1999,p.181)
Antropologicamente
pensar no indivíduo, significa vinculá-lo a um grupo, sendo este portador de
seus códigos, valores, tradições, costumes e a cultura contextual. Nesta
perspectiva, a escola propicia o encontro destes indivíduos e possibilita trocas
muito intensas. “A aprendizagem nasce do encontro de pessoas diferentes.
Cada uma delas é singular, única e, portanto, portadora, em parte do
conhecimento, da cultura e da experiência coletiva das comunidades às quais
pertence.” (Perrenoud,2000,p.74)
Sob este prisma, a função da escola
é de atender estas diferenças percebendo o aluno como centro do processo
educativo. Pensamentos estereotipados devem dar lugar a um outro caminho,
permeado pela tolerância, que possibilita o reconhecimento do outro na
construção do conhecimento.
Cabe à escola promover o desenvolvimento dos
alunos nos aspectos: cognitivos, sociais e emocionais. Neste processo, tanto
alunos como educadores se tornam responsáveis com relação aos objetivos a serem
atingidos.
Na verdade, faz-se necessário que a escola assuma o
compromisso de oferecer todas as possibilidades para a formação de um indivíduo
capaz de perceber, entender, analisar e criticar o mundo em que vive. Esta
prática requer de nós educadores empenho e paciência.
Conclusão
Não se pretende nestas últimas linhas encerrar qualquer reflexão sobre
este tema que é pertinente a todos nós brasileiros, pois, todo esforço e
comprometimento da sociedade como um todo e da escola, em particular, deve ser
constante no sentido de contribuir cada vez mais para a construção de uma
sociedade que respeite as diferenças. “Escola é o lugar não só de
acolhimento das diferenças humanas e sociais encarnadas na diversidade de sua
clientela, mas fundamentalmente o lugar a partir do se engendram novas
diferenças, se instalam novas demandas, se criam novas apreensões sobre o mundo
já conhecido. Em outras palavras, a escola é, por excelência, a instituição da
alteridade, do estranhamento e da mestiçagem – marcas indeléveis da medida da
transformabilidade da condição humana.” (Aquino,1998,p.138)
Com
certeza a escola que trabalhamos não é a escola ideal, porém, a partir destas
reflexões temos a possibilidade de, passo a passo, caminharmos para a
transformação da escola real.
É necessário que reconheçamos as diferenças
étnicas para compreendermos melhor cada grupo de indivíduos, porém, não podemos
esquecer que antes de pertencermos a qualquer coletivo, somos todos seres
humanos dignos de respeito e liberdade.
Cheila Szuchmacher Huf é professora e mestrada em Educação e
Desenvolvimento Humano pela UNESA.
Referências Bibliográficas
AQUINO, Julio Groppa. Diferenças e preconceito na escola : alternativas
teóricas e práticas. São Paulo: Summos, 1998 LÉVY, Pierre . As Tecnologias
da inteligência. São Paulo: Literatura S/C, 1996. MINGUET, Pilar A . A
construção do conhecimento na educação . Porto Alegre: Vozes, 1998. MORIN,
Edgar . O pensar complexo e a crise da modernidade . Rio de Janeiro: Garamond,
1999. PERRENOUD, Philippe. Pedagogia diferenciada ; das intenções à ação.
Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. SACRISTAN, J. Gimeno. Poderes
instáveis em educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999 Secretaria de
Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: pluralidade cultural:
orientação sexual. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. TRINDADE, Azoilda Loretto.
Multiculturalismo: mil e uma faces da escola. Rio de Janeiro : DP&A, 1999.
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